Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

24
Out14

Discursos Sobre a Cidade - Por José Carlos Barros

JCB

 

DISCURSOS SOBRE A CIDADE

por José Carlos Barros

 

A conversa do tempo

 

Vivo no Algarve. Sou de Boticas. E quando telefono à minha mãe, ou a um amigo, a conversa começa quase sempre do mesmo modo:

 

"Então como vai o tempo?"

 

A pergunta é retórica. Porque, em boa verdade, não é exactamente sobre as condições climatéricas que perguntamos: a pergunta é sobre o mundo. Queremos saber como vai o mundo, e então perguntamos pelo tempo. Porque falar do tempo é falar do mundo.

 

A meteorologia está quase sempre presente nas nossas conversas. Eu chego a Boticas, encontro um amigo que não vejo há seis meses, e não tarda, depois das duas perguntas sacramentais, e da consequente intimação não menos sacramental

 

(primeira pergunta: "então quando é que chegaste?"

 

Segunda pergunta: "E quando é que vais pra baixo?"

 

Intimação: "Vê lá não te esqueças, antes de ires, de passar em minha casa a beber um copo"),

 

que venha a conversa da meteorologia:

 

"Tu já me viste este calor?"

 

Ou:

 

"Eu já não me lembro assim de um frio destes..."

 

Este

 

"Eu já não me lembro",

 

ou o mais corrente

 

"Eu estou que",

 

também tem que se lhe diga. O caso seria digno de estudo. Porque a contradição não é fácil de compreender. Ninguém como os transmontanos, e maxime os barrosões, tem a ideia de clima incorporada nos seus comandos automáticos: falam do tempo a toda a hora, fazem previsões a uma semana ou a um mês, arrasam os sites de meteorologia por incompetência -- mas têm, no que respeita ao estado do tempo, uma memória de peixe vermelho de aquário. Todos os anos é o ano mais-qualquer-coisa:

 

"Nunca choveu tanto como este ano",

 

"Estou que nunca houve um Inverno com tanta geadinha",

 

"Não me lembro de um Agosto tão frio como este."

 

Se fôssemos aos registos (que existem há mais de 140 anos) víamos (isto é um supor) que, afinal, há uns três ou quatro anos havia chovido mais do que neste, que no ano passado houve mais dias de geada do que este ano e que as temperaturas médias (bem como as máximas diárias) deste mês de Agosto só em três anos, nos últimos dez, haviam sido suplantadas. Mas isso a gente esquece depressa. Porque não temos memória meteorológica: apenas o sentimento de que a chuva que chove, se chove, é a mais abundante, ou a menos abundante, de sempre. Pelo menos desde que nascemos.

 

Porque as nossas referências ao clima não vêm apenas do tempo curto da nossa mais curta ou mais longa existência. Um transmontano que se preze (e maxime um barrosão), em sendo o caso a discussão do clima -- e a discussão do clima é quase sempre o caso -- arrecua pelo menos ao tempo dos avós. E se alguém diz

 

"Eu estou que nunca se viu tanta nevezinha como neste Inverno",

 

ou

 

"Parece-me que tanto nevoeiro assim seguido só o carai",

 

logo alguém contraporá:

 

"Quer não que o meu avô dizia que quando era pequeno houve um ano em que a Serra da Seixa esteve três meses e meio coberta de neve",

 

ou

 

"A minha mãe disse-me que o avô dela lhe dissera que em Chaves uma vez o nevoeirozinho não levantou durante quarenta e seis dias seguidos."

 

Também esta redução a diminutivos tem que se lhe diga. A gente, em falando do tempo, começa logo com diminutivos: ele é a geadinha, ele é o ventinho, ele é o calorzinho, ele é o solzinho, ele é a chuvinha, ele é o verãozinho, ele é a temperaturazinha...

 

Do género:

 

"Já me viste esta aragenzinha?..." "Ui, nem me lo digas: isto vai um dezembrinho..."

 

Claro que os diminutivos só podem vir da ternura que temos pelas coisas do tempo. Uma geada transforma-se em geadinha pela razão simples de que o tempo de geada nos leva com mais agrado a compartilhar em redor da lareira um salpicão enrolado numa couve acabado de assar nas brasas de carvalho. E, digam lá o que disserem, não há mata-bicho que saiba tão bem como quando a gente olha da janela e o que vê lá fora é a nevezinha poisada nos caminhos e nos muros... E os dias tórridos são de uma felicidade imensa: puxam melhor à cerveja. Procuramos sempre, em cada contrariedade climática, ver o que de melhor podemos tirar dela -- e não nos queixamos.

 

E depois, além da ternura, há essa espécie de misteriosa admiração que temos pelos fenómenos meteorológicos. Um citadino, em estando a chover, dirá:

 

"Raio de tempo..."

 

Um barrosão, por sua vez, o mais certo é que, protegido pela cobertura de um alpendre, olhe o dilúvio e, quase emocionado, não se tenha que não comente algo do género:

 

"Olha como cai certinha, a puta, que até dá gosto..."

 

E di-lo-á, repete-se, com a mesma ternura e admiração com que outros ouvem uma oratória de Bach ou vêem uma pintura de Jacopo Tintoretto. Porque a chuva a cair certinha, ou a neve a encher os montes de um branco tão branco que é quase azul, ou o sol a brilhar a pique sobre os campos -- são coisas que, em gente assim nem sempre muito apegada às artes, lhe remetem para a bossa da sensibilidade estética.

 

Claro que tudo isto não passa de uma regra muito geral. Cheia de excepções. É claro que nem sempre andamos a falar do tempo. Ainda há bocado telefonei à minha mãe e ela veio-me logo com a preocupação das matanças do porco. Não me começou pela meteorologia... Os porcos, portanto, e não o clima. O que disse, ipsis verbis, foi:

 

"E este ano as matanças? Quando é que estes desgraçados vão matar os porcos? Com o verãozinho que aí vai, que parece Agosto, não estou a ver que as matanças comecem antes de Janeiro..."

 

Sobre mim

foto do autor

320-meokanal 895607.jpg

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Flavienses Ilustres

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    • Fer.Ribeiro

      Relatório só após a conclusão das obras, ainda a d...

    • Fer.Ribeiro

      Pois não sei, mas posso tentar saber.

    • Anónimo

      O post está muito bom. Já agora aproveito para per...

    • TELMO A.R.RODRIGUES

      Cara amigo Luis Sancho o meu é Telmo Afonso R. Rod...

    • Anónimo

      Parabéns pelo seu trabalho, que é de louvar. Sobre...

    FB