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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

05
Dez14

Discursos Sobre a Cidade - Por José Carlos Barros

JCB

 

Um Conto de Natal

 

José Carlos Barros

 

 

"Este dava era um bom Pai Natal..."

 

E riam-se todos.

 

As opiniões sobre o Raposo extremavam-se. Diziam uns que não funcionava de nenhum dos mecanismos da molécula, outros que era fino como um alho e que a levava era-bem-boa a fazer-se de tolo.

 

O certo é que, não digamos mais, ao menos um parafuso lhe faltava. Quer dizer: não era normal dormir-se ao relento a maior parte do ano, e nuns telheiros derruídos, quando vinha a geada ou a neve, a restante. Sobretudo vindo das famílias de que vinha, com nabais e casa de sobrado. Não era normal, pois, que uma pessoa assim se marginalizasse voluntariamente e comesse quando calhasse, daquilo a que chamava "óquemedão", passando fome. E, sobretudo, era difícil compreender o orgulho: embora às vezes vendo-se que quase nem se segurava de pé com a fraqueza, andava ainda assim de peito de tal modo feito, e de nariz arrebitado, que chegava a rejeitar folar e um copo de tinto de Anelhe, é um supor, quando era tempo de Páscoa, ou uma talisca de presunto em sendo qualquer altura do ano, se lhe diziam: "Ó Raposo, então não aceitas um copo e não petiscas um cibo?"

 

"Que não", respondia o artista: "Ainda aqui tenho nos dentes a remoer uns restos de arroz de lebre a correr do almoço."

 

Capaz do orgulho, imagine-se, o Raposo. Como se na aldeia o orgulho não fosse um exclusivo dos Monteiros, que, diz-se, eram milionários no sentido acima de literal de terem, à ordem, no Soto Mayor, mais de cem mil contos de réis.

 

Percebe-se que a alguns só faltasse elevá-lo aos altares, como exemplo, e que a outros, talvez também como exemplo, lhes apetecesse apenas mirá-lo a afogar-se numa poça de água funda a ver se, já com as goelas entupidas, e a respirar pelas guelras, o cara de carai não pedia um pau a que se segurasse.

 

O Raposo tinha uma barba abundante e cabelos já grisalhos sobre os ombros. Não admira, na matança do Guto, discutindo-se os pormenores da noite de consoada na Junta de Freguesia, que se tenha alvitrado:

 

"Este dava era um bom Pai Natal..."

 

E riam-se todos.

 

O Raposo aparecera, estrategicamente, no exacto momento em que, colocada a toalha de linho sobre o bicho-falecido, chegavam as duas travessas de sarrabulho. Passara adiante a tarefa de agarrar-se o reco saído da loja, a correr no pátio, fixado pelas patas traseiras que se levantavam para que escoucinhasse em vão, e assim se colocasse sobre a tábua. Passara adiante a tarefa de segurá-lo, aguentando-se-lhe os ímpetos, quando começava a cuincar de a faca do mestre sangrador, enterrada até ao cabo num único e certeiro movimento, lhe exigir o grito ritual que ecoava no vale e atravessava as paredes largas das casas. Passara adiante as tarefas de se chamuscar o morto, com os feixes acesos da palha de centeio, e de raspá-lo, amaciado o couro a poder de água e sabão azul, com pedras-pómus ou de granito muito lisinhas da erosão. Aparecera o Raposo, pois, já tarde das horas, dizendo,

 

"Carai, que me atrasei, até vos peço desculpa",

 

estrategicamente, no momento exacto em que as mulheres deambulavam com o sarrabulho e poisavam as duas travessas sobre o lombo do cadáver. E, estrategicamente, o Raposo, como se o intimassem da cozinha a ajudar nas tarefas do almoço, desapareceu quando as travessas do sarrabulho ficaram vazias, sentando-se lá dentro, no escano, em redor do lume, a ditar sentenças:

 

"Isto, a matança do porco, dá uma trabalheira que digo-vos eu."

 

Era assim o Raposo: guicho como um alho, orgulhoso, arredio. Trabalhos de forquilha ou enxada -- desviava-se. Tudo o que fosse vergar a mola -- bô tu. Vivia de expedientes: ajudar a acender um forno, uns recados à Vila -- que tinha bom pé e com gosto fazia ele os seis quilómetros para cada lado --, ajudar num casamento a espalhar até à igreja o tapete de rosmaninho e alecrim. Mais ó-de-resto -- espera aí que o pai-já vai. Tarefas de engaço, ai isso sim, quando muito, a esmiuçar a terra dos jardins do Pereira.

 

O presidente da Junta, o Mateus, tinha aquela coisa com ele de que, ao menos nas alturas festivas, todos éramos iguais. Ou devíamos ser. Era conhecido por lhe puxar ao sentimento, mais cristão, dizia-se, do que as beatas que pediam esmolas para se fazerem arquinhos de orquídias na Páscoa. Bom homem, não havia que se lhe dissesse. Por isso se lembrara de organizar um jantar de consoada comum ao povo da aldeia, na escola, fechada desde que as crianças começaram a ser menos do que os velhos.

 

No almoço da matança do Gusto, pois, intimou o Raposo: "Tu vê lá se te inscreves." E o pessoal a rir-se: "Ui, o que ele dava era um Pai Natal de primeira, as barbas já as tem, só lhe faltaria a farda."

 

Mas o Raposo poisou os talheres -- quer dizer, o garfo -- no prato, e fez-se um inusitado silêncio para que se ouvisse a dizer:

 

"Pois inscrevo-me, e o polvo é à minha conta."

 

As pessoas não sabiam se deviam rir ou chorar. Mas o tom do Raposo era o de quem não brinca em serviço. E ficou tudo suspenso das palavras dele. Já se sabe: na noite de consoada não há-de faltar a couve-galega, a batatinha cozida e o bacalhau -- postas do lombo, quase de mão de travessa. Mas o polvo, ai isso, é a cereja no cimo do bolo. Polvoreiras de doze quilos, doze bracinhos de textura fina à unidade, ventosas protuberantes, bem definidinhas -- ai isso é a cereja.

 

O pessoal embasbacado:

 

"Ó Raposo, tu e as tuas teorias filhas-da-puta."

 

E ele:

 

"Já disse o que tinha a dizer. O polvorinho é comigo, e não é preciso acrescentar mais nada."

 

O Mateus, contra as dúvidas generalizadas, deu a coisa como certa: "Se ele o diz."

 

E veio o 24. Na escola, o átrio transformado em cozinha com uma bancada improvisada, ligada à água corrente, e um fogão industrial de dois bicos, começaram as mulheres às quatro da tarde a preparar a ceia: as batatas descascadas, as couves guiadas, o bacalhau demolhado, as filhoses de jerimum a fritar, as rabanadas, os sonhos de parida. E eis que aparece o Raposo: uma polvoreira que só visto, que dava gosto ver.

 

Foi um sucesso: este Mateus ainda vai a presidente da Câmara. Só ele. Ninguém como ele sensível ao social, justo, equitativo, capaz de unir o povo sem que a política destrambalhe as relações. Capaz de integrar.

 

E o Raposo -- qual Pai Natal qual caralho -- ali de peito feito, nariz arrebitado, a trazer à consoada colectiva uma polvoreira como nunca se vira.

 

O resto não interessa à história: que em casa dos Monteiros, nessa noite, não haja polvo -- eles, diga-se, os únicos que não se inscreveram para a festa do povo -- que-sa-foda; que as criadas da casa, seis, andem numa roda viva a perguntar onde raio pára o molusco -- que-sa-foda; que o Cunha, quando pela terceira vez um enviado dos Monteiros entra na casa comercial de alimentos e derivados a perguntar onde raio pára a encomenda do octópode, insista que o Raposo levou a polvoreira encomendada há dois meses a mando da senhora Monteiro -- é o menos.

 

O certo é que na escola se come, esta noite, 24 de Dezembro, um polvinho como nunca se viu, tenrinho que dá gosto, e que o Raposo, besuntado do azeite de Vila Flor a escorrer-lhe das beiças, tem um sorriso de inocente-macaco como se fosse o Menino Jesus, talvez a pensar na ceia dos Monteiros (milionários acima do literal), irremediavelmente falhada, com bacalhauzinho e couve galega, é certo, mas polvinho a puta-que-os-pariu.

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