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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

13
Mar15

Discursos Sobre a Cidade - Por José Carlos Barros

JCB

 

Três Histórias do Sul

 

José Carlos Barros

 

 

[NOTA: Em vez de um discurso sobre a cidade, em vez do regresso às memórias dos lugares onde nasceu e cresceu – hoje, neste espaço, excepcionalmente, o autor escreve sobre os lugares onde vive.]

 

  1. A cor dos olhos dos peixes

 

Foi quando alguém reparou que o barco «Proa dos Mares de Monte Gordo» trazia dois sargos de olhos azuis. Nunca ninguém tinha visto um sargo com os olhos azuis. E não era um azul acinzentado, ténue. Era um azul intenso e ao mesmo tempo quase transparente. Um azul que parecia vir de longe. Um azul que misturava o azul do céu e o azul do mar nas tardes claras dos primeiros dias de Junho. As pessoas iam-se juntando à volta do barco e já todos tinham opiniões sobre a cor dos olhos dos peixes. Um turista fez-se ouvir e disse, numa pronúncia nortenha, que a cor dos olhos dos peixes era como a cor dos olhos das pessoas: «Há peixes com olhos berdes, cinzentos, castanhos, bermelhos, quase negros, azuis.» As pessoas olhavam o turista e dividiam-se entre mandá-lo calar ou pregar-lhe um estacaço. Foi então que alguém se lembrou de chamar o Mestre Carreço, velho lobo-do-mar, homem sábio e experimentado nas artes da pesca e nas coisas do mundo. Ele veio e perguntaram-lhe se alguma vez tinha visto um sargo com os olhos azuis. Mestre Carreço puxou de um cigarro e olhou à roda sem compreender muito bem o que fazia ali tanta gente a discutir a cor dos olhos dos peixes. Fez-se silêncio. Mestre Carreço acendeu o cigarro, olhou de novo à volta, expirou o fumo vagarosamente e só então respondeu: «Olhos azuis? Não sei. Tenho mais de sessenta anos de mar e nunca fui capaz de olhar de frente os olhos dos peixes.»

 

  1. Como se uma luz o tivesse perdido

 

Continuava a tempestade e os barcos não iam ao mar. Os homens ficavam na praia a arremendar as redes e a beber cerveja. Por isso quase não acreditaram quando viram o Lúcio a sair para o mar de pesca como se estivesse alucinado. Como se uma luz o tivesse perdido. O «Proa dos Mares de Monte Gordo» passou milagrosamente a rebentação e depois aparecia e desaparecia na espuma das vagas caveadas. Até que desapareceu de vez. A neblina veio e poisou nas águas e escondeu a linha do horizonte. Os homens ficaram o dia quase todo a olhar na direcção do mar a procurar os sinais de um barco que vai ao fundo ou se desmantela na força da tormenta. Mas nada. O mar continuou assim durante uma semana e durante uma semana os homens continuaram em terra. Até que a bonança começou a anunciar-se e decidiram que no dia seguinte regressariam à pesca. Mas nessa tarde, já de mar-chão, o Augusto deu de vaia: «Olha o Proa dos Mares de Monte Gordo!» Os seus gritos ouviam-se a toda a lonjura da baía. Os pescadores correram a ver o barco do Lúcio, quase parado a não mais de duas braças de distância como se estivesse à espera de varação. Olhavam e viam o barco a aproximar-se devagar. Mas não havia sinais do Lúcio. Ao leme vinha apenas uma sereia. Uma sereia de rosto muito claro, longos cabelos soltos sobre os ombros e o corpo verde e azul a irradiar uma luz que se espalhava nas águas e no areal.

 

  1. O barco fantasma

 

Dizia-se que o Garrajola enlouquecera na manhã de cerração em que vira um barco fantasma. Por isso todos temiam esses dias em que a névoa se espalhava no areal e poisava nas águas. Ninguém se atrevia a ir ao mar. Os pescadores ficavam fechados em casa ou rumavam ao café a beber cerveja e a jogar ao pablo ou à espadilha. Mas a questão dos barcos fantasmas acabava por dominar as conversas e Mestre Carreço era chamado a explicar mais uma vez que eles vinham em busca de passageiros para as suas viagens em direcção a lugar nenhum. Umas vezes levavam as pessoas fisicamente, outras vezes em espírito. Como no caso do Garrajola: levaram-lhe o espírito e deixaram-no assim, no areal, com os olhos vazios e parados no tempo. Mestre Carreço falava e ficavam todos muito sérios. À excepcão de Ramiro. Ramiro ria-se e dizia: «Mó, isto me parece a história da Carochinha e do Ratão.» Nessa tarde, quando acabou o jogo do pablo, viram-no sair do café e fez-se silêncio. Parranita, o irmão de Ramiro, levantou-se da mesa de jogo. A névoa começava ligeiramente a erguer-se quando saiu à rua e o viu a virar à esquerda na rotunda do «Deus Me Proteja». Seguiu-o à distância e encostou-se à muralha. Ramiro atravessava o areal e aproximava-se da zona de rebentação. Parranita olhava e, de súbito, a poucas braças da praia, viu um barco desenhado nas suas formas difusas: o cavername estreito e muitos mastros estranhamente iluminados por uma luz irreal. Ramiro olhava fixamente na direcção do barco e continuava a caminhar pelo mar adentro. Parranita vozeou e correu ao seu encontro. O sol, entretanto, ia afastando a névoa e o barco fantasma desaparecia no horizonte. Ramiro já tinha a água acima da cintura quando o irmão o agarrou e disse: «Estás louco?» Trouxe-o de volta ao areal e repetiu: «Estás louco?» Mas Ramiro parecia ausente de si mesmo e não dizia nada. Parranita olhou-o e um grito saiu-lhe da garganta. Um grito de terror que atravessou a praia e as paredes das casas ao olhar o rosto do irmão: os olhos de Ramiro tinham deixado de brilhar e pareciam vazados e parados no tempo.

 

 

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