Estratos

Ao senhor do brinco
Pedi à mãe para furar as orelhas. Não sei bem se antes ou depois de ver o senhor do brinco. Foi ali, no Café Sport, quando por lá havia uma parede mais bonita do que as outras.
«Mãe, aquele senhor tem um brinco!»
Era hora de jantar. Mãe sem mãos que chegassem para os filhos, sem dinheiro, sem chave de casa.
«Um homem sem dinheiro é um homem sem palavra.»
E a mãe sem mãos para tantos filhos. Trazia comigo mãos, dinheiro e a frase de que não gosto por, talvez, guardar verdade.
Dei dinheiro e mostrei mãos. Ninguém as segurou.
«Mãe, aquela senhora deu-nos dinheiro!»
Desculpe, senhor do brinco. Não há raios que partam o preconceito.
Rita


