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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

18
Dez14

Factor Humano, por Manuel Cunha (Pité)

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“De chapéu na mão”?

 

Recordo-me de um doente me contar uma história antiga, dos tempos do fascismo de Salazar. Nessa época era possível que um proprietário rural abastado, pelo simples facto de “dar trabalho a um casal”, se achar com o direito, de que todos os filhos desse casal, trabalhassem para ele, gratuitamente! Sem terem direito a comida, nem sequer lhes era permitido beber água da torneira, “só da do tanque” dizia o Sr. Patrão. E o meu doente, que era exactamente um desses filhos, dizia-me com ar triste: sabe doutor, o meu pai era daqueles “de chapéu na mão, perante o patrão. Com esta imagem conseguiu-me transmitir, certeiramente uma posição de submissão e de medo por parte do pai. Esse medo, que não era igual para todos, entranhou-se em muitos durante esse regime fascista e permitiu-lhe um tempo de duração de quarenta e oito anos.

 

Um dos aspectos mais bonitos do 25 de Abril foi o desaparecimento dos medos. Deixou de haver medo da guerra, deixou de haver medo da PIDE e dos bufos. Deixou também de haver medo desses tais patrões. Esses que antes gostavam que lhes falassem “de chapéu na mão”.

 

Nasceu a esperança num futuro melhor, sem misérias, sem fome, com educação e com saúde mais acessíveis. Começou um tempo com direito ao trabalho, a um trabalho com direitos.

 

Pouco a pouco o medo voltou a insinuar-se… Começou a entranhar-se de novo. Foi nos locais de trabalho, um dos sítios onde mais cedo se notou o ressurgimento desse medo.

 

Durante algum tempo o emprego público parecia ainda, uma ilha de resistência a esse medo. Não havia receio de protestar, não havia receio de fazer greve, nem de denunciar situações injustas.

 

De alguma forma era preciso acabar com este mau exemplo, de locais de trabalho sem medo. Essa era uma das condições que os herdeiros dos antigos patrões entendiam como indispensável para a restauração do tal medo. A empresarialização dos serviços públicos, a precarização do seu emprego e as pressões sucessivas da limitação da liberdade de expressão, têm vindo a permitir, de uma forma assustadora, que o medo domine até os ambientes do emprego público.

 

Isto tem tido reflexos no medo de denunciar situações inaceitáveis nos serviços públicos, ao nível do ensino, da saúde, da segurança social, das autarquias… Começa a ser comum que essas denúncias fiquem na esfera da conversa privada, por medo de retaliações por parte dos responsáveis dos serviços públicos.

 

É importante que cada um de nós resista ao domínio deste medo, que é condição indispensável para a diminuição das liberdades. Torna-se imperativo que exerçamos a liberdade de expressão, também como uma forma de defender essa própria liberdade de expressão. Senão um dia acordamos todos “de chapéu na mão”.

Manuel Cunha (Pité)

 

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