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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

21
Jan14

Festa comunitária do S.Sebastião - Barroso

 

O Transmontano tem muitos traços culturais comuns que nos diferenciam dos minhotos, dos alentejanos ou dos algarvios, por exemplo,  mas por muito que esses traços nos tornem iguais no ser transmontano e por vivermos atrás dos montes, por detrás de cada monte ou conjunto de montanhas, há uma realidade que é singular, própria de quem habita os sopés dessas montanhas, singularidade que se revela até nas pequenas diferenças dos contornos das montanhas, dos pequenos vales e da paisagem, no ar que se respira, na luz…em suma, há traços culturais que diferenciam os transmontanos das outras províncias, mas entre nós transmontanos também há traços que nos diferenciam uns dos outros.

 

 

Ontem lá fui eu em peregrinação até ao S.Sebastião do barroso, não por devoção ao santo mas por devoção à tradição e a um traço da cultura barrosã – o comunitarismo -  que ainda vai resistindo por lá e, como era conduzido sem ter de me preocupar com a estrada, ia deitando com mais atenção o olhar à paisagem e é escusado, mal se sai do concelho de Chaves a paisagem transforma-se, o ar torna-se mais frio e como diria Torga, sentimo-nos mais próximos do céu onde até as montanhas mais altas vestem a pureza do branco para dar mais luz ao inverno.

 

 

O destino era, como já vem sendo hábito no 20 de janeiro, as festas comunitárias do S.Sebastião do Couto de Dornelas e das Alturas do Barroso e tal como também vem sendo hábito gostamos de chegar lá logo pela manhazinha para assistir ainda à montagem da mesinha do S.Sebastião que por sinal só é mesinha no nome, pois é bem comprida. Mas gostamos de a ver ainda sem vivalma a marcar o lugar ou à espera que venha a vara para saber onde vai cair o pão, a caçarola de arroz e as carne de porco, gostamos de visitar que já anda há dias a trabalhar para a festa e que passou as últimas noites em claro na cozedura do pão, o arroz e a carne estejam prontos para todos os forasteiros logo após a missa do meio-dia.

 

 

Desta vez o S.Pedro, talvez arrependido pela zanga do último ano quando mandou que chovesse durante todo o dia, mandou cancelar a chuva ou então seriam influência do Bispo de Vila Real que este ano coloriu a festa com a sua presença e a bênção do pão. Foi-se a chuva mas ficou o frio e também aqui, no frio,  se notam as tais diferenças de que falava no início, pois o frio do Barroso, embora muito mais frio que o nosso frio do vale, sente-se menos e é mais fácil de suportar.

 

 

Mas vamos à festa em que nada há a acrescentar às edições anteriores. A tradição mantém-se. Rezada a missa, benze-se o pão que começa a sair para a longa mesa, e quase que em simultâneo a toalha de linho vai-se desenrolando ao longo da mesa, a vara mede onde deve cair o pão, em cima deste vem pousar a caçarola de arroz e a lado a carne, o S.Sebastião vai acompanhando os trabalhos enquanto os fiéis lhe beijam os pés e lhe dão uma esmola. Depois é só sacar da navalha, puxar do garrafão e saborear os sabores que também aqui são do Barroso, únicos. Quem já se deliciou com a iguaria, sabe do que falo, os potes fazem milagres e os minhotos sabem-no, pois os autocarros não se enchem só de boas intenções.   

 

 

“Merenda comida companhia desfeita” diz o povo e no Couto de Dornelas é uma realidade, pois aqui a promessa paga-se em duas frentes e a outra fica a uns tantinhos quilómetros de distância e bem mais próximo de céu, a neve do último nevão de há dias é uma testemunha disso mesmo, ainda nos cantos mais sombrios ou nas elevações mais elevadas.  O próprio nome da aldeia não engana – Alturas do Barroso e mais alto que a aldeia, ali nas redondezas, só mesmo os Cornos do Barroso como se estivessem por ali de sentinelas a separar o Barroso de Montalegre do Barroso de Boticas.

 

 

Aqui a mesa ao longo da aldeia é substituída por um salão, e o arroz e carne de porco, substituídos por uma feijoada, mas tal como no Couto de Dornelas não há forasteiro que saia da aldeia sem um prato de feijoada, um pão e um copo de vinho. O S.Sebastião aqui não percorre a mesa mas está à entrada do salão num florido altar improvisado. À porta, do lado de fora, há sempre música e bailarico ao som das concertinas, de preferência, as mesmas que no Couto de Dornelas deram música aos cantares e desafio.

 

 

Mas a festa não se faz só pelo Barroso, pelas paisagens, pelas iguarias e pela música, pois estas festas também são lugares de encontros de amigos, alguns que não vemos há muito, outros há meses, outros só lá, outros que atravessam todo o Portugal para dizer presente, mas também há surpresas de outros amigos que aparecem por lá por não terem resistido à tentação de satisfazer a curiosidade de ver a festa, amigos que trazem amigos e que, depois de serem picados pelo bichinho da festa, passam à promessa de regressar todos os anos.

 

 

O regresso a casa ora se faz pelo Barroso de Boticas ora pelo Barroso de Montalegre. Este ano calhou ao de Montalegre pois o Deus Larouco também ele vestido de branco,  apelava a um olhar e nós fomos lá olhá-lo.

 

E é tudo. Para o ano, por esta altura, contamos estar cá de novo.

 

A meio-dia teremos aqui os "Estratos" da Rita.

 

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