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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

06
Jan18

Gondar - Chaves - Portugal

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Como ainda há dias tive oportunidade de deixar por aqui, este blog tem 13 anos. Aquilo que inicialmente não tinha nenhuma pretensão, bem cedo se tornou um espaço para divulgar, principalmente em imagem, a cidade de Chaves. Com o tempo e a pedido de várias famílias, começaram a surgir as aldeias, ocasionalmente uma aqui, outra ali, também sem intenção de as percorrer todas, no entanto, e para ser justo, todas acabariam por passar por aqui logo após 1 ou 2 anos de existência do blog.

 

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Penso que a primeira ronda que fiz por quase todas as aldeias, foi há coisa de 25 anos, ainda sem blog e sem andar à caça de fotografias. E tenho pena de então não levar a máquina comigo, mas também nunca imaginei e muito menos esperei que as aldeias chegassem ao estado em que hoje se encontram. Então, há 25 anos, nas aldeias ainda se construíam escolas onde não as havia, construíam-se salas de ordenha, centros sociais, saneamentos, abastecimentos de água, pavimentavam-se ruas, eletricidade e telefones chegavam até aos locais onde não havia e, principalmente os nossos emigrantes, botaram-se a construir a casa com que sempre sonharam para poderem gozar uma reforma digna. Nas ruas então, havia gente, crianças, animais… havia vida.

 

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Uma casa em Gondar - 2008

 

Há coisa de 10 anos, quando por obrigação voluntária do blog me botei eu à estrada para registar todas as aldeias, comecei a notar que já poucas pessoas havia nas ruas, alguns idosos, outros de meia idade, crianças poucas, as casas mais velhas sofriam com o abandono, as novas ansiavam por gente dentro, as escolas iam fechado, o mesmo com as salas de ordenha. Também era assim Gondar quando lá entrei em 2008 para fazer o post da aldeia. Crianças não as vi, idosos vi dois, um pelo caminho com o seu cão e uma senhora no centro da aldeia, fora isso, um casal de meia idade com quem tive a oportunidade de falar e registar em fotografia a degranhar o milho, que por ausência de viaturas e circulação na rua, se aproveitava a mesma para por o milho a secar.

 

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Gondar - 2008

 

Em algumas casas mais antigas mas ainda em estado razoável de conservação para a idade, ia aparecendo a placa “Vende-se”. Já então por aí se ia falando em desertificação do mundo rural. Lembro que em tom de brincadeira irónica eu dizer por aqui que isso não correspondia à realidade, que era mentira, pois os campos cada vez tinham mais mato e bem espesso, daqueles que os incêndios gostam, campos despidos de vegetação não havia, daí a terra estava bem longe de ser um deserto.  Quando muito, e isso sim eu era testemunha, o mundo rural estava a ficar despovoado, sem gente, onde apenas resistiam os resistentes.  Também dizia eu então que as aldeias, a sua gente, as tradições com os seus sabores e saberes estavam a entrar num período de ponto de não retorno.

 

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Uma casa em Gondar - 2008

 

Para o blog acabei por passar por todas as aldeias pelo menos duas ou três vezes. Gondar também não foi exceção e em 2015 regressei lá. Vi duas pessoas, curiosamente as mesmas com quem falei aquando da minha passagem em 2008, mantendo ainda a simpatia de então. Dos poucos resistentes da aldeia, no mesmo trabalho do dia a dia. Penso que perguntei quantas pessoas ainda havia na aldeia, mas já não recordo quantas eram, sei que falou numa irmã já reformada e pouco mais, recordo, isso sim, que me disseram que na aldeia vizinha de Nogueira da Montanha, sede de freguesia que em tempos tinha umas centenas de pessoas, apenas lá vivia um casal de idosos e um viúvo. 3 pessoas. Isto foi há quase três anos, hoje não sei quantas resistiram.

 

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A mesma casa em Gondar - 2015

 

Quanto ao casario, algum ainda se vai mantendo, principalmente aquele que têm menos anos em cima. Recordo de em 2008 ter fotografado uma das casas antigas que me chamou a atenção pela sua traça de casa tipicamente transmontana com meia dúzia de escaleiras em pedra e um patamar a terminar em varanda de madeira, coberta, onde, quando habitadas, os donos nas noites quente de verão tomavam a sua dose de um arzinho da noite, e onde também o milho e outras coisas da terra como o feijão, o grão, etc, se punham a secar, ficando protegidas de um possível orvalho das noites mais frescas. Encantei-me com essa casa. Tinha uma placa de “Vemde-se” e sinceramente, só não a comprei porque já na altura era um teso…. Para trás ficam 6 imagens dessa casa, 3 do anos de 2008 e outras 3 do ano de 2015. Descubra as diferenças. A placa de “vemde-se” ainda lá estava.       

 

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Em bom estado de conservação ou pelo menos de trato, felizmente, vão-se mantendo as igrejas e capelas das aldeias. Perde-se a gente, as tradições, os sabores e saberes das aldeias, mas enquanto houver resistentes há fé, e o povo sempre disse que a fé é a última a morrer. Pois a muitas destas aldeias já quase e só lhes restam a fé, em Deus, pois a fé no regresso dos que partiram, essa abalou, foi-se… que povo este! Fica a deixa para o parágrafo seguinte, onde mais uma vez não resisto recorrer outra vez a Miguel Torga.

 

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Que povo este! Fazem-lhe tudo, tiram-lhe tudo, negam-lhe tudo, e continua a ajoelhar-se quando passa a procissão.

Miguel Torga, In Diário X

 

E imitando Bento de Cruz... Com esta me vou!…

 

 

 

 

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