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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Histórias de Inverno

08.02.18 | Fer.Ribeiro

1600-barroso (133)

 

Há dias a Soledade pediu-me uma foto para ilustrar um texto seu, hoje fui eu que lhe pedi o texto para ilustrar a foto e o post de hoje. Espero que gostem.

 

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UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM - DIA DE INVERNO

 

Já desperto, eis o Sol, nesta manhã de Inverno, curioso como só ele, a espreitar por tudo quanto é canto. Dá os bons-dias e lá começa, num afã, a tornar mais luminosos e menos frios os campos onde a geada de manso se instalou.

 

Entorna-se pelo povoado. Cobre os caminhos e as telhas das casas enfeitadas de musgo. Espreguiça-se nos muros onde trepam como estrelas verdes as folhas da hera. Desce ao rés do mar e cumprimenta as ondas, meninas buliçosas em correrias loucas. Sobe ao monte e deixa-se rolar por ele abaixo a brincar às escondidas pelos moitões de tojo e urze roxa, pelos tufos de rosmaninho e alecrim, pelos maciços de giesta, de cardos e silvados.

No olival, os homens e as mulheres começam a entregar-se à lida de colher das oliveiras a azeitona, que se oferece entre a folha miúda. Estendem ao redor do tronco a serapilheira e varejam os ramos, braços ao alto, até cair o fruto. E como ficam felizes se o ano é de fartura! Em sacos ou poceiros, transportam a azeitona para o lagar, onde é medida na fanga e depositada na tulha, até encher. Verdes umas, negras as outras. Lavadas e depois moídas entre as pedras das mós, lá as temos, então, cantando, a correr das bicas. Na bica de baixo a almofeira, líquido escuro da azeitona em talha. Na bica de cima, a riqueza do fruto transformado em azeite. Convertido no milagre do alimento e da luz. O oiro liquefeito no prato e na candeia – ou na lamparina, que alumia o sono e também a vigília do santo.

 

1600-Vilarinho-seco (128)-3.jpg

 

Mas outras são as tarefas que o Inverno traz para serem cumpridas. Finda a colheita no olival, inicia-se a poda das oliveiras. As noites são longas e os dias curtos e frios. Os rostos e as mãos dos homens e das mulheres tornam-se roxos, ásperos e gretados. Mas o Inverno não os amedronta. Os homens e as mulheres sabem que a terra e os animais necessitam do seu esforço e do seu saber. Que a Natureza, sem a sua ajuda, não poderia ser tão pródiga e tão amiga. Portanto, aí estão eles, a desafiar a invernia no desempenho das tarefas que encontram pela frente. A satisfazerem o pedido da terra e dos animais, porque gostam de retribuir em conhecimento e em cuidados a riqueza que os animais e a terra têm para lhes oferecer.

 

Ei-los a fazer a lavoura, as adubações e as sementeiras. A prosseguir nas vinhas as podas e as arroteias para novas plantações. A colher nos laranjais as laranjas e as tangerinas. A engarrafar os vinhos nas adegas. A abrir covas para semear as amêndoas e as nozes. E valeiras para semear os melões. A abrigar nas hortas as plantas que não resistem ao frio. A semear as cebolas, os espargos, os espinafres, os nabos e as cenouras. E também os alhos e os morangueiros. A podar as roseiras e os arbustos. A resguardar as plantas que vão florir mais cedo – como as azáleas e as camélias. A semear nos alegretes as calêndulas, as lobélias e os amores-perfeitos. E a plantar as ervilhas-de-cheiro, os jacintos, as túlipas e as anémonas.


Com os animais redobram os cuidados. Renovam-lhes as camas para estarem sempre enxutas. Agasalham e dão melhor comida às vacas leiteiras. Reservam verdura às ovelhas que tiveram crias. E tratam das colmeias, dos pombais, das capoeiras… Num trabalho constante, que não acaba nunca.

Soledade Martinho Costa

 

Do livro “Histórias que o Inverno me Contou”
Ed. Publicações Europa-América

 

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