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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Nós, os homens

07.03.18 | Fer.Ribeiro

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XXIV

 

No dia seguinte quando acordei, passava do meio-dia e a cabeça pesava-me como chumbo sobre os ombros. Sabia a razão, tinha uma decisão séria a tomar, posto que o médico a tinha, como uma batata quente, colocado nas minhas mãos.

Mal pensei nela, em décimos de segundo os meus neurónios sensitivos conduziram o estímulo, articularam-se nas sinapses e a informação chegou ao cérebro.

Decisão tomada.

Comi qualquer coisa ligeira e fui ao hospital. O dia estava muito agradável, o Sol brilhava lembrando que, apesar de tudo, continuava a ser a estrela que nos aquecia e nos iluminava!

 

- Francas melhoras!

Pedi ao médico para conversarmos um pouco, num local mais privado e disse-lhe:

- Não diga nada à família sobre o estado de saúde ou falta dela, como quiser, do meu amigo. Eu próprio me encarrego de lho comunicar. Sou um amigo de longa data, íntimo de toda a família e sei exactamente como lhe transmitir o que o senhor doutor me disse ontem.

 

Até hoje, não disse nada. Conheço alguma coisa da natureza humana e não suportaria a ideia de o meu amigo ser tratado como o coitadinho.

Era inevitável que nos convívios sociais, jantares e outras coisas, quando alguém contasse uma anedota e ele não percebesse à primeira, iam pensar: pois, as lesões cerebrais.

Também não disse nada ao próprio, pois que quando nos dão uma coisa como aceite ou verdade absoluta, não há depois forma de a combater. Acabamos por ficar reféns dela e desistir de a contrariar ou de a vencer.

A última coisa que eu queria era que o meu amigo se sentisse uma vítima.

E depois a medicina não era como a matemática, dois mais dois nunca eram quatro.

O que é que o médico sabia do que me tinha dito?

 

“Neste momento não podemos avaliar a extensão das lesões”.

Nem naquele momento nem nunca! Ele não o conhecia antes, não passou a conhecê-lo depois. O seu grau de conhecimento não passava de um episódio. Tinha-o conhecido no serviço de urgência, provavelmente há mais de 24h sem dormir, por causa das prestações da casa, da mota e do barco, das férias no estrangeiro…

Trabalhava como um doido, para dar resposta aos sonhos que tinha projectado, muito acima do seu limite de sobrevivência. Naquela noite tinha, provavelmente, atendido já centenas de pacientes e agora, exausto, em vez de pedir a um colega que o viesse substituir, levava para além do limite humano a capacidade de trabalho, que achava que tinha.

 

“Sequelas irreversíveis”! De irreversível havia a morte e o meu amigo tinha escapado a ela, fosse por milagre ou pelo que raio fosse, nem me parecia nada que tivesse sido por isso. Foi porque era quem era, com uma força interior inabalável, com uma determinação vincada, com uma assertividade invejável e uma personalidade voluntariosa, solícita.

Apostaria que, naqueles 15 minutos de anoxia, a morte lhe tinha aparecido à frente e ele a tinha, literalmente, mandado à merda! E ela foi, como íamos todos, sempre que ele fazia isso connosco. Nem melhor nem pior, tal e qual.

 

É claro que não pude deixar de ser assaltado pela dúvida de se estaria a ser egoísta, por ser o único a ter conhecimento do que tinha acontecido. Mas o que é que, exactamente, tinha acontecido? Alguém sabia?

Dúvida tirada.

 

Nos meses que se seguiram, e porque eu estava atento, apercebi-me de algumas situações pontuais em que poderia identificar uma falha, se assim posso falar, nas atitudes ou no comportamento do meu amigo. Imediatamente as ultrapassava, fazendo-o perceber de que acontecia a toda a gente. E não lhe estava a mentir, acontecia a muitos e com muita frequência, a única diferença é que os outros não tinham um diagnóstico médico. Haveria ele, por ter esse privilégio, de se sentir menos capaz?

Quantas anoxias cerebrais teria o médico tido ao longo da sua vida, enquanto dormia? Ninguém estava lá para ver, para testemunhar e devia ser adepto da frase “eu só vejo quando acreditar”. Ora aí está, tal como eu, quando olhava para o meu amigo não acreditava em nada do que o médico me tinha dito. Ver o quê?

Cristina Pizarro