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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

17
Fev20

O Barrosão e o seu feitio

BARROSO

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No último domingo não deixei aqui nada sobre o Barroso e justifiquei essa falta com estas palavras: “(…) desculpas a quem ontem veio ao blog à procura de um post sobre o Barroso, que era minha intenção publicar, mas como o assunto a tratar é importante demais para ser tratado de forma leviana, acabei por gastar todo o meu tempo em pesquisas e a documentar-me (…)”. Pois hoje ia correndo o mesmo risco. Desvendando um bocadinho do mistério, se é que há mistério, acontece que para terminar a minha abordagem ao Barroso de Montalegre, apenas me falta trazer aqui as aldeias dos colonos, Vilar de Perdizes e a Vila de Montalegre, os restantes lugares e aldeias do concelho de Montalegre já foram abordadas. As aldeias dos colonos irão ter um post especial, em preparação. Quanto a Vilar de Perdizes, nunca cheguei a completar o levantamento fotográfico da aldeia e a Vila de Montalegre irá ter uma abordagem diferente daquilo que vem sendo habitual.

 

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Assim, está na hora de avançar para o restante Barroso, o de Boticas. Inicialmente pensava que o Barroso se completava aí, com os concelhos de Montalegre e Boticas, mas com o tempo vim a saber, pela “Toponímia de Barroso”, que havia também algumas aldeias do Concelho de Vieira do Minho e de Ribeira de Pena que pertenciam ao Barroso. Como sempre gostei de saber o porquê das coisas, fui à procura dos limites históricos do Barroso, e aí, tudo começou tcomplicar-se, aliás a única coisa que até agora dou como garantida sobre a origem de Barroso, são as palavras de João Soares Tavares que debruçando-se sobre o mesmo tema, diz logo no início da sua abordagem: “Sobre a origem da Terra de Barroso não se conhece um documento fidedigno. Teorias existem. É por certo uma região muito antiga.” E o resto são cantigas… a única coisa que se vai apontando como fidedigno é a vila de Montalegre ser apresentada sempre como cabeça do território de Barroso. Quanto ao Barroso da “Toponímia de Barroso”, não é mais que o antigo território do concelho de Montalegre, existente até 1836, e que na sua divisão dá origem ao concelho de Boticas, perdendo uma freguesia para Vieira do Minho, e “perdendo-se” também o Couto Misto. Posteriormente a freguesia de Canedo é também desanexada do concelho de Boticas. Portanto o território de Barroso, para a “Toponímia de Barroso” é o território do concelho de Montalegre tal como ele era até 1836, no entanto, aprofundando mais a investigação sobre o assunto, as coisas não são bem assim, e é por essa razão que o tal post sobre o “Barroso” demora tanto a ser parido. Mas no entretanto, deparei-me com as características do BARROSÃO, ou seja, do povo que povoa o Barroso, e esse sim, dou como validado aquilo que o Padre Lourenço Fontes nos deixa na Etnografia Transmontana I – Crenças e Tradições de Barroso.   

 

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Desenho do Território de Barroso constante na capa (interior) da Etnografia Transmontana I do Padre Lourenço Fontes

 

Tal como disse no parágrafo anterior, ficam as características do povo Barrosão, a transcrição do que consta na Etnografia Transmontana I do Padre Lourenço Fontes, mas acrescento desde já uma nota, o que aqui vai ficar foi escrito (publicado) em 1974, já lá vão quase 50 anos, e nestes 50 anos muita coisa mudou, saímos de uma ditadura, entrámos numa democracia, a globalização ganhou terreno e a educação obrigatória começou a ser uma realidade, mas, pelo menos, essa caracterização do Barrosão que nos é dada pelo Padre Loureço Fonte dá para ficar a conhecer o que era o Barroso e o Barrosão até essa altura.

 

Ao longo desta transcrição vão ficando algumas fotografias nossas sobre o Barroso.

 

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Padre lourenço Fontes no alto da Serra do Larouco

O BARROSÃO E O SEU FEITIO

 

Acolhido nos refegos da serra, ganha robustez, e é de espírito fatalista, a pactuar com o meio em que vive. Sofre grande influência da mulher. «A mulher é terra, o homem o hóspede dela». O Barrosão é de uma passividade procriadora, enorme. Inconformado com a sedentariedade, luta pela sobrevivência.

 

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Nota-se a imposição do mais forte, embora todo o Barrosão tenha grande potencial energético e forte capacidade de vencer, pela força. É agressivo, mas acalmado pela mulher ou amigos. É dotado de muito orgulho, e forte amor à terra e aos antepassados. O torrão Natal, a sua casinha, o seu campo santo, onde repousam os seus, trazem a morrinha e saudade, quando longe da pátria, procura o pão para os filhos.

 

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Deixou o Barrosão de fugir, de caçar, de guerrear, e refugiou-se nas montanhas dedicando-se à pastorícia, sua riqueza de sempre. Por isso o Barrosão é mais pastor, que agricultor.

 

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Houve sempre nesta terra a diferença de classes dos grandes senhores feudais, religiosos, políticos e administradores. Desconfia deles, dos poderes públicos, dos estranhos, fruto deste condicionalismo telúrico. Por ter sido explorado há muito, pelos grandes da terra, o barrosão apresenta o cenho carregado, semblante triste, ar de desconfiado, por recalcamento de desejos de vingança. Aceitou a servidão, como base da sobrevivência. Excepto alguns descendentes de grandes casais, todos iniciaram a sua vida económica servindo um, ou muitos patrões. Veste sobriamente. Pouco muda o trajo. No Inverno, mais roupa, menos no Verão. Come pouco. Deficiente alimentação está a justificar muitas doenças. A mortalidade infantil é das mais altas nesta região, não só por falta de assistência médica, mas por falta de higiene, má alimentação e pouco cuidado com os primeiros meses de vida da criança. Há muito filhos zorros, filhos da curiosidade, sem pai, dizem. No entanto as mães e filhos aceites na sociedade comum, sem diferença.

 

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Falta-lhe maturidade, senso crítico, que cria por vezes injustiças sociais, que traz ídolos e vítimas. Sente-se por vezes ludibriado; é repentista, espontâneo, violento, raramente de acções premeditadas. Sofre pressões de vário género. Encara o crime a cada passo, como uma evasão a que já está habituado, à prisão. Numas aldeias mais que noutras, é vulgaríssimo o crime, em que o Barrosão está sempre pronto a assinar a sua própria destruição. Vive numa sociedade fechada, em pequenos grupos, sem influência doutras terras. Há monotonia na vida, no comer, no amor, no trabalho, em tudo até no espírito politeísta que os domina. Tem preferências afectivas. É frequente ver louvado o erro, o crime, o mal. Os casamentos com consanguíneos e o alcoolismo provocam taras frequentes. A mulher envelhece no espírito e até no corpo, muito precocemente e trabalha no duro campo com os homens.

 

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O Barrosão solidariza-se com os da terra ou família ou clan, em face de qualquer necessidade ou conveniência. Numa festa, num barulho, num incêndio, na tropa, na guerra, na emigração, o Barrosão une-se aos Barrosões. Não se deixa dominar pela força.

 

São características as feições do Barrosão. Sua fácies típica nota-se e distingue-se. São diferentes do minhoto, do homem da ribeira.

 

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Cada terra tem até um tipo de pessoa diferente de todas. Dizemos: parece de Pitões, é de Parada, é de Ponteira, é de Salto, é de Solveira, é de Gralhas, etc. Até o dialecto é diferente. Vila da Ponte, Viade, Fervidelas, Reigoso, têm uma maneira de falar, diferente do resto do concelho de Montalegre e Boticas. Omitem vogais. Dizem alquere, era, fera, em vez de alqueire, eira, feira. Dizem médo, por medo, etc.. Vilar, Meixide, Soutelinho falam doutra forma.

 

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O nosso homem é bom pagador. Não vai para a cadeia por roubar. Antes por matar, que por ladrão. É honrado, afável no trato, tem espírito de sacrifício, muito grato ao mais leve favor, inteligente e capaz de ir longe se for promovido. Não se alheia da terra-mãe, adapta-se a qualquer arte ou ofício.

 

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Não podemos esquecer a maior das nossas virtudes: a hospitalidade. A comprovar podemos ver o paço de Vilar de Perdizes, hospital de peregrinos de Santiago de Compostela. As nossas portas estão sempre abertas, nem têm chaves, nem de dia, nem de noite. Se alguém bate à porta ouve logo: entre quem é. E franqueia-se tudo: a casa, a caneca do vinho, o presunto delicioso, o melhor que tenhamos é para quem nos visita. Tem razão o poeta Alexandre de Matos ao dizer:

 

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As terras de Trá-los-Montes

Inda que a vida vá torta,

Todos encontram poisada!

Passante que bate à porta

E brade rijo: — ó da casa! —

Ouve de dentro: — lá vai…

Sente gente por-se a pé,

Saltar do catre num ai,

Ir acender a candeia,

Ao fogo vivo da brasa…

Alçar a barra da tranca,

Abrir a porta com fé,

E convidar, em voz cheia,

Estremunhada, mas franca:

Faz favor… entre quem é…

 

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O homem transforma o ambiente, mas deixa-se impressionar por ele. Por isso há factores que determinam a maneira de ser do homem. Cada cultura dá o seu cunho próprio a cada ser humano. Um desses factores mais vincantes é a situação geográfica, cujos efeitos se estendem desde o carácter e temperamento frio ou quente, à maneira de viver. Estamos no cabo do mundo, entre montanhas, ásperas, íngremes, frias, altaneiras, verdejantes, ora fustigadas por maus ventos, ora cobertas do manto branco da noiva transmontana, a neve. Não é terra de trânsito. Quem aqui vem parar, deixa sinais de costumes e cultura. Estamos isolados, sem influências contrárias ao nosso modo de viver. Vivemos, séculos sós, esquecidos do mundo, sem luz, estradas, telefone. O analfabetismo aqui atingiu o maior grau, não há leitura. Não há avanço na técnica. O arado é o mesmo dos primeiros séculos.

 

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A influência geopsíquica é de ter em conta. O nosso Inverno, longo, enevoado, chuvoso, provoca em nós a morrinha, a saudade. As curvas dos nossos montes, ora altos, ora baixos, amoleceram o nosso temperamento, a nossa falta de decisão e melancolia. Dizemos quando alguém daqui vai para terras de fora: deu-lhe o estranho, a saudade, a melancolia, da ausência do nosso meio.

 

Vemos assim uma estreita intimidade do homem, com a terra em que vive.

 

O factor étnico, ou seja da origem das raças de que descendemos é também dos maiores.

 

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Não podemos esquecer as raças que nos formaram: semítica, céltica, romana, germânica, mourisca e judaica. Não há povos mistos. Os caracteres físicos e psíquicos misturam-se nos indivíduos, segundo os cruzamentos.

 

As nossas manifestações psíquicas são de temperamento ciclotérmico, a impressão funda, reacção lenta, afectação forte, naturalmente reservados. Nisto parecemo-nos aos celtas. A nossa reserva é de carácter introvertido, desconfiado, pela sua hipercrítica. Tende à concentração no interior, no seu lar, na sua aldeia, no seu país. O nosso emigrante barrosão, não se desliga da sua terra, das suas crenças, do seu feitio. Prende-o o culto dos seus entes queridos e oragos, e dum modo peculiar o sentimento da sua propriedade. É uma saudade, que faz gemer a feição dos poetas, é lírica.

 

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Vejamos a estrutura económica-social multicentenária, inalterável, em que se trabalha para viver, prós gastos e prá mortalha. Nada se vende; é tudo para a família e gado. A unidade e comunitarismo da paróquia, em que todos fazemos falta, em que todos somos parentes, da família de sangue e religião, torna-nos mais presos, uns aos outros.

 

O influxo histórico. O povo dos antepassados, é portador inconsciente dum passado não cristão.

 

Os mouros que povoaram a Península são causadores de tudo o resto de lendas e histórias que todos os povos nos legaram. Para o povo só há a história dos mouros e mouras.

 

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A cultura e estrutura eclesiástica, mais que milenária, com seu tipo medieval, monacal, gravou profundos sulcos na formação da nossa cultura popular. Por certo que lutou contra o paganismo das religiões anteriores, mas deixou entre nós o modo de viver e ser que hoje sentimos com feições cristãs. A igreja e o lar eram e foram, muitos séculos, as nossas escolas donde emanaram todos os conhecimentos adquiridos. O sermão da missa fazia competência, com supremacia, sobre o jornal, a escola, ou outra fonte. A igreja, como não podia deixar de ser, foi portadora para nós, de uma cultura centro-europeia.

 

O Renascimento veio divorciar a cultura popular, dos não estudados, da gente da aldeia, da cultura erudita. Acrescentemos a tudo isto a influência do séc. XIX, contrário a todos as tradições.

(…)

 

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E por hoje ficamos por aqui e a ver vamos se o tal post sobre o Barroso fica pronto para o próximo domingo, onde além de todos os Barrosos que descobri, há também o meu Barroso, nem que seja apenas uma versão romântica.

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