O Barroso aqui tão perto...

É a geografia que desenha os rostos e as ruas, os telhados e as varandas das casas, os muros do cadastro, os caminhos, as cancelas dos quintais; e é a geografia que define os ritmos e as tradições, o modo como as pessoas se juntam ou afastam, como escolhem ou procuram conjurar os medos. Tudo vem de trás. Tudo vem de um tempo que esculpiu ou talhou a pedra, abriu um vale, ergueu um monte. Tudo vem dessa mistura de espaço e tempo. Por isso acreditamos no destino. Porque sabemos que já foi o que haverá de ser. Porque tudo está escrito há muito num livro: os amores que perdemos ou encontramos, a sombra, a luz que nos guia durante o Inverno.
José Carlos Barros, in “Um amigo para o Inverno” – Cap- IX

Padornelos - Montalegre
A geografia fechou pessoas dentro de casas, levou-as ao escuro das igrejas, tapou os rostos das mulheres com lenços e xailes erguidos dos ombros, desenhou uma sombra para o efémero tempo dos incêndios, acendeu um lume para que as famílias partilhassem uma mesa e um escano. E escondeu tudo o que pertencia ao desejo: com vestidos de chita, mantilhas de lã, saias até ao chão dos pátios, corações e códigos, segredos desvendados num vão da escada, burel, saragoça. Praticamente só existia o que podia ocultar-se, o que podia fazer-se no escuro: fosse o amor, a ternura ou um crime.
José Carlos Barros, in “Um amigo para o Inverno” – Cap- XI

Vilarinho Seco - Boticas


