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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

20
Jul20

O Barroso aqui tão perto - Cerdedo

Aldeias de Barroso - Concelho de Boticas - Portugal

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CERDEDO 

 

A descoberta de Cerdedo é recente. A primeira vez que lá fui, foi pela mão do Luís de Boticas, um botiquense amante do seu Barroso e também colaborador deste blog. Estávamos na festa do São Sebastião da Vila Grande, Dornelas. edição de 2016, e falou-nos desta aldeia, que tínhamos de ir lá, e lá fomos, antes de fazemos a passagem do São Sebastião da Vila Grande para o São Sebastião das Alturas do Barroso. O mesmo santo, ambas festas comunitárias, mas bem diferentes na forma de as fazer. Já agora, o Cerdedo também celebra o São Sebastião, também com uma festa comunitária, logo pela manhã, ainda antes de começar a da Vila Grande, mas sobre isso, falaremos mais à frente.

 

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Pois mal chegámos à aldeia, quer-se dizer, mal parámos na estrada ER311 e lançamos um olhar sobre a aldeia, ficámos logo apaixonados por ela. Como era possível por entre montanhas despidas ou vestidas tons avermelhados e acastanhados escuros, existir tanto verde. Parecia coisa artificial, uma tela pintada por um artista naturalista de paisagens que tinha abusado e exagerado na exuberância verde, apenas quebrado pelo recortar dos muros de pedras e do casario que se vai dispersando no meio de tanto verde, mas tudo aquilo era real e estava ali mesmo à minha frente. Mas dessa vez ficámos apenas pelas vistas desde a estrada, mas Cerdedo ficou debaixo de olho para as próximas passagens e para uma visita com descida à aldeia, nas calmas.

 

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E assim foi durante os 2 anos seguintes até maio de 2018 em que decidimos fazer a descida à aldeia para o nosso levantamento fotográfico e algumas conversas, aliás muitas conversas, pois Cerdedo é uma terra com gente nas ruas que gosta de conversar e de alguns lamentos. Contam-nos estórias, falam-nos nos filhos que estão fora a lutar pela vida, da vida na aldeia, do “trabalhar de estrela a estrela” como me dizia o Sr. Arlindo e a D. Alda, falam-nos na falta de gente na aldeia e nas aldeias vizinhas, “antigamente bastava um realejo e fazia-se logo um baile na rua, agora não há ninguém” três, filhos, todos fora, “a mais nova vive no Algarve” dizia-nos a D. Alda enquanto nos mostrava a cozinha velhas e a adega onde faziam vinho , a bold e sublinhado pois fazer vinho no Barroso é obra, mas agora já não se faz, “as pipas estão todas esbardalhadas” e se não fosse termos uma agenda a cumprir, ainda hoje lá estávamos à conversa.

 

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Estas entradas nas aldeias do Barroso têm de ser feitas sempre como mandam as regras, primeiro com respeito por tudo e por todos, depois convém fazer as apresentações, dizer ao que vamos, quem somos, de onde vimos, para onde vamos, depois vem a conversa, saber ouvir é importante, muito importante, primeiro porque aprendemos sempre alguma coisa, depois porque nos dão dados preciosos para o conhecimento e pordemos fazer um pouco da história destas aldeias, e tivéssemos mais tempo, não fosse uma “visita de médico” para recolher imagens, e acabávamos à mesa com uns nacos de presunto, linguiças e bom vinho (este das terras onde o há do bem), tudo do genuíno, tal é a pureza e hospitalidade deste povo barrosão. Mas atenção, isto é para quem vai por bem e com boas intenções, e eles sabem quando assim é, pois para os que vão de má fé e são descobertos, o mais provável é levarem umas estadulhadas no lombo ou na cabeça, que os arruma logo, mas como agora os estadulhos já não estão à mão,  um zagalote também serve, perde-se talvez uma perdiz ou um coelho, mas não são levados por lorpas.    

 

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Quanto à aldeia, já fora das vistas desde a ER311, agora já na sua intimidade, tem um povoamento disperso ao longo de todos os cainhos, mas com dois pequenos núcleos mais consolidados. A aldeia cabe dentro de um circulo com perto de 900 metros de diâmetro, e no seus tempos em que a população abundava, a freguesia chegou a ter 508 habitantes (Censo de 1960), mas nos últimos Censos (2011) a freguesia só já tinha 145 habitantes e Cerdedo, segundo informações colhidas na aldeia, agora tinha à volta de 70 pessoas, mesmo assim, ainda é uma aldeia com vida.

 

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A aldeia implanta-se numa baixa entre montanhas, não em vale, mas em terras com pouca inclinação, mesmo assim a construção que se encontra no ponto mais alto da aldeia está implantada quase a uma cota de 1000 metros de altitude, enquanto que o ponto mais baixo, já junto ao rio, anda na cota dos 800 metros. Terras altas e de invernos rigorosos, mas sem a força de quebrar ou queimar o verde das pastagens cuja exuberância domina a cor da aldeia.

 

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Para mim, ou seja a opinião é pessoal, se me pedissem para indicar 10 aldeias do Barroso de visita obrigatória, não hesitaria nem um segundo em indicar Cerdedo, não por ser uma aldeia típica do Barroso, mas pelo seu todo e pelo domínio e exuberância do seu verde.

 

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E como se chega lá!? Pois é muito fácil. Para nós que saímos sempre da cidade de Chaves, basta apanhar a EN103 (estrada de Braga) até Sapiãos, depois Boticas e aqui apanhamos a ER311 em direção a Salto, depois ´se seguir sempre pela ER311 até chegar a Cerdedo. Atenção às placas de entrada na aldeia, pois embora as melhores vistas sobre Cerdedo sejam desde a ER311, indo de carro e desde o seu interior, a aldeia não é muito visível, é necessário estarmos bem na berma da estrada para a ver como deve ser. Depois de apreciá-la lá desde cima, desde a ER311, uma descida à aldeia é obrigatório, e não se preocupe se deixou a entrada da aldeia para trás, pois como a aldeia tem 4 entradas, pode apanhar a última e assim vai vendo a aldeia de vários ângulos, qual deles o mais interessante. Para ajudar um pouco na localização, fica o nosso mapa.

 

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Para ver com mais atenção, recomenda-se uma visita à igreja do cemitério e também as vistas que desde aí se alcançam para a aldeia, mais uma vista interessante e diferente de todas as outras. Os dois pequenos núcleos de construções, também são interessantes, e uma descida ao rio, também é de não perder.

 

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Falta-nos conhecer com mais pormenor a Festa do São Sebastião, que tal como as outras do Barroso se celebra todos os anos a 20 de janeiro. Este ano fomos lá, mas chegamos em má hora para as nossas pretensões, que seria antes ou depois da missa, mas quando chegámos estava a missa a decorrer, e como na nossa agenda estava também chegar a horas à Vila Grande, adiámos para uma próxima edição, talvez na próxima edição, isto se o raio do bicho do Covid-19 o permitir, vamos esperar que até lá tudo fique resolvido com este problema que tanto nos afeta a normalidade dos dias, das festas e do convívio onde as pessoas de ajuntam. 

 

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Mas vejamos o que diz a monografia de Boticas – Preservação dos Hábitos Comunitários nas Aldeias de Boticas.

 

Festa de S. Sebastião em Cerdedo

 

A Festa em honra de S. Sebastião, a 20 de Janeiro, em Cerdedo, é muito antiga, como o certifica o Abade em 1758, e caracteriza-se pela sua dimensão intimista. Mantém as características genuínas de uma manifestação religiosa comunitária onde praticamente só os moradores da freguesia e alguns dos seus “filhos” emigrados que por essa altura vêm à terra venerar o Santo e cumprir com os seus votos, se juntam pelas oito da manhã na igreja em torno do pároco para celebrar a missa da festa. Após esta, parte em cortejo processional em direcção à casa do Juiz. Este, com o Santo no regaço, segue atrás da cruz, acompanhado por todos. O pároco, uma vez chegado, benze e abençoa sucessivamente o pão, a carne e o vinho, delicadamente expostos em cestos e tabuleiros, sob a presença do Santo venerado.

 

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E continua a monografia:

 

Cá fora, no logradouro da casa ou na eira, dispõe-se a mesa coberta com toalha branca e na cabeceira, numa outra mesa pequena, coloca-se o São Sebastião que vai presidir à refeição comunitária. A mulher do mordomo aparece com tabuleiros de pão cortado em fatias, logo atrás surgem as vizinhas com travessas de carne de porco (peito) cortada em bocados. E, num movimento rápido e partilhado, um traz o vinho, outro os copos, outro os guardanapos de papel. Entretanto os devotos iniciam a refeição. Equipados com uma navalha ou uma faca pegam numa fatia de pão centeio, um pedaço de carne e vão degustando enquanto se trocam opiniões sobre o quotidiano da aldeia. Um ou outro vai entretanto pagar a esmola ao Santo que, alheio a tal burburinho, vela pelos seus devotos. Animam-se os comensais e vai-se terminando a refeição com um pouco de aguardente ou vinho do Porto, mimos com que o mordomo não deixa de presentear os seus concidadãos e amigos. Ao lado de grandes cestos de carvalho é doado a cada romeiro um quarto de broa (cerca de um quilo) que, em casa, será partilhado por toda a família e até animais. O pão santo – a mezinha – ajudará a proteger todos aqueles que o comem.

 

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E ainda:

É hora do Leilão e o Sr. Gomes, que ambiciona ter quem lhe suceda em tarefa tão nobre e também tão alegre, lá sobe as escadas até ao pátio para do alto “cantar” o lanço mais alto para um peito de porco, uma orelheira ou meia dúzia de chouriças. Faz isto há Festa de S. Sebastião em Cerdedo mais de vinte anos. As broas de centeio, enormes, são licitadas avidamente, com alegres escaramuças, pela cerca de meia centena de convivas e devotos, todos irmanados no continuar da tradição.

 

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Festa do São Sebastião com muita tradição no Barroso, no entanto a Orago de Cerdedo é o São Tiago, mas fazem festa ao Santo António e São Lourenço no terceiro domingo de agosto e em 8 de setembro à Srª do Monte, esta num pequeno santuário isolado no meio da Serra do Barroso.

 

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Srª do Monte

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Quanto a património religioso e comunitário da aldeia, tem a capela da Srª do Monte, a Igreja Paroquial de São Tiago e o forno do povo.

 

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Igreja Paroquial e antigo cemitério

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Ainda sobre Cerdedo apurámos que foi abadia da casa de Bragança. Em 1839, pertencia ao concelho de Montalegre e judicialmente à comarca de Chaves. Em 1852 passou a pertencer ao concelho de Boticas e judicialmente à comarca de Montalegre. Segundo informação veiculada através das cartas paroquiais de 1758, nasceu e viveu neste lugar um famoso poeta popular conhecido por Pantoja, cuja obra infelizmente se perdeu no tempo

 

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A respeito deste poeta popular Pantoja, num documento de 1758, um inquérito que Marques de Pombal mandou para resposta de todas a paróquias do Reino de Portugal, o então Abade de Cerdedo, o Abade Vicente Ferreira de Alcantra, diz o seguinte:

“ Neste sobredito lugar cresceu aquele insigne Pantoja muito conhecido pelas suas trovas, que fazia cantigas e sátiras que inventava não tendo mais ciência do que a enxada e o arado com que o pobre vivia, como tal acabou imitando os poetas e por tal ao clamado pelos moradores do lugar. Deste não ficou sucessão, nem as sua obras editadas, só ficou na memória de alguns alguma coisa burlesca.”

 

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Ainda neste inquérito de 1758, o mesmo Abade Ferreira, dizia sobre Cerdedo:

“Tem trinta e seis fogos ou vizinhos e pessoas de sacramento cento e quarenta. Está situada em montes ásperos, a maior parte dela, donde se avistam várias montanhas como a montanha do Gerês, bem nomeada pela sua aspereza e os arredores de Montalegre, tudo para a parte do norte. Para a parte de nascente vêem-se vários montes como é o Alvão, e outros que vão correndo per de fronte a ribeira de pena, rio Tâmega, que vem da vila de Chaves para Amarante, cuja ribeira dista daqui três léguas e do Gerês três. E quanto ao eclesiástico está sujeita à Vila de Chaves, onde existe o Doutor Vigário Geral da dita comarca, a qual dista daqui seis léguas para a parte.

Tem esta freguesia cinco lugares: Cerdedo, Covelo, Coimbró, Serra e Virtelo. O primeiro tem doze vizinhos, o segundo quatro, o terceiro onze, o quarto três e o quinto dois e uma pobre e outra na do Cerdedo."

 

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As montanhas a nascente, mencionadas pelo Abade Ferreira no inquérito de 1758

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E na ausência de mais informação sobre Cerdedo, vamos caminhando para o final deste já longo post, apenas nos falta o vídeo com todas as fotografias publicadas até hoje neste blog. Espero que gostem:

 

 

E quanto a aldeias de Barroso, despedimo-nos até a próxima sexta-feira com uma aldeia do Barroso do concelho de Montalegre, Lamachã, e no próximo domingo com uma aldeia do concelho de Boticas, Coimbró.

 

BIBLIOGRAFIA

CÂMARA MUNICIPAL DE BOTICAS, Preservação dos Hábitos Comunitários nas Aldeias do Concelho de Boticas - Câmara Municipal de Boticas, Boticas, 2006

 

WEBGRAFIA

http://www.cm-boticas.pt/

 

 

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