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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

10
Fev19

O Barroso aqui tão perto - Codeçoso da Venda Nova

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Nesta nossa peregrinação pelo Barroso hoje vamos até Codessoso ou talvez Codeçoso ou ainda Codessoso do Arco, ou mesmo Codessoso da Venda Nova, pois sinceramente não sei qual é o topónimo correto, dependendo da fonte onde for beber, o topónimo aparece grafado nestas quatro formas. Para mim é Codessoso da Venda Nova, isto por conveniência e para distinguir a aldeia de outras da proximidade que adotaram o mesmo topónimo, como é o caso de Codessoso da União de freguesias de Meixedo e Padornelos também do concelho de Montalegre, ou Codessoso do concelho de Boticas ou ainda Codessoso de Celorico de Basto. No entanto, no que resta do post, para não estar sempre a escrever Codessoso da Venda Nova, vou ficar-me só por Codessoso.

 

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Também esta aldeia tem direito ao seu merecido post aqui no blog, mas, para ser sincero, esteve para não acontecer assim, pois inicialmente tinha programa que esta aldeia entrasse em conjunto com a Venda Nova e Padrões, pela simples razão que não tinha fotos suficientes da aldeia para justificar uma publicação isolada. Tal como já tive oportunidade de o dizer aqui noutras ocasiões, às vezes o cansaço, as condições meteorológicas e a falta de inspiração, tolhem-nos ou toldam-nos um levantamento fotográfico como deve de ser, sobretudo quando tal acontece durante o período da tarde, que cada vez mais me convenço que as tardes não são amigas da fotografia, exceção para a hora doirada do entardecer.

 

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A primeira vez que fui a Codessoso com intenção de a fotografar, aconteceu em junho de 2017, recordo que foi um dia de muito calor. Dei uma volta pela aldeia que se localiza mais junto à barragem, fiz os registos que me atraíram e depois atravessei a estrada e entrei na restante aldeia, de onde saí sem nenhuma foto. Já depois de ter decidido que Codessoso não estaria aqui sozinha, numa descida para a Venda Nova vindo de Salto,  o meu olhar foi atraído pelo conjunto da aldeia que se via ao longe. Chegado a casa, revi novamente as fotos que tinha em arquivo de Codessoso e verifiquei que talvez estivesse a ser injusto com esta aldeia. Aí ficou decidido que faria nova passagem por lá para ver o que me tinha escapado.

 

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No dia 29 de dezembro passado fui propositadamente a Codessoso, e aí sim, não só tomei alguns registos dentro da aldeia, como subi novamente ao lugar da Venda Nova desde onde a aldeia se poderia ver no seu todo e dei-me conta que seria imperdoável não ter feito estes novos registos, com realce para o conjunto que se vê desde esse local e para a composição que desde aí se conseguia em, numa imagem apenas, dar a conhecer a magia que o Barroso tem. Refiro-me à composição da primeira imagem que abre este post   que mostra algumas das singularidades do Barroso verde e agreste, da água, rios e albufeiras, do endeusamento das suas serras, no caso a Serra do Gerês que se vê em último plano, da pequena península onde mora o tal Codessoso junto à barragem. Uma imagem que mostra bem esta pérola do Reino Maravilhoso.

 

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Como diz Torga, “Reinos Maravilhosos (…) O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração”, vou fazendo o exercício de não esquecer estas palavras de Torga, mas tal como disse no início, às vezes, por cansaço, falta de inspiração ou mesmo até desleixo, perdemos essa tal virgindade original do nosso olhar, e para o Barroso temos que ir sempre puros, virgens, senão corremos o risco de nos passar ao lado e perdemos “a magnificência da dádiva”.

 

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Pintado assim o Barroso como uma pérola do Reino Maravilhoso quase somos levados a crer que é o paraíso, e até poderia ser, mas não o é. É terra difícil de se viver,  de tão ingrata que é, chega a doer, não só viver nela como ainda o é mais ser obrigado deixá-la para trás, pela necessidade que fala mais alto, e tudo poderia ser diferente, se o sol, como dizem, nascesse para todos, mas não!

 

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Sem ignorar o que atrás disse, passemos à frente, pois existe sempre a esperança de que um dia se faça justiça, afinal de contas esta sina já não é de hoje e tal como como os de lá de baixo dizem que nós já estamos habituados ao rigor dos nossos invernos também vamos estando habituados ao resto, que até pode ser mentira, mas pelo menos alimenta o nosso orgulho… e por mim, antes orgulhoso do que conformista.

 

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Vamos então até ao Barroso aqui tão perto, pois vamos esquecendo que este blog é feito a partir da cidade de Chaves e que estas incursões no Barroso, não são mais que um convite a uma visita à descoberta das belezas barrosãs, que essas ninguém lhas tira.

 

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Pois então vamos lá, até Codessoso da Venda Nova e a melhor referência é mesmo a Barragem da Venda Nova, que como já referimos Codessoso em parte, é mesmo uma península que entra pela barragem adentro, mesmo antes de se chegar à Venda Nova.

 

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Quanto ao itinerário a seguir, o mais convidativo para lá chegarmos bem e depressa é mesmo a Estrada Nacional 103 Chaves-Braga, mas como para estes passeios não devemos ir com pressas, eu recomendo mesmo uma das outras alternativas.

 

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Desta vez e de modo a podemos desfrutar da imagem de boas-vindas à aldeia de Codessoso com o postal que se vê desde o alto da Aldeia da Venda Nova, proponho o itinerário via Boticas e Salto. Com saída de Chaves pela EN103 até Sapiãos e aí rumamos em direção a Boticas, tomamos depois a R311 em direção a Salto, sem entrar em Salto, pois antes deveremos tomar a estrada que nos levará à Venda Nova e de regresso à EN103. Chegados à Venda Nova, viramos em direção a Chaves e logo a seguir, quase junta à Venda Nova temos Codessoso. Para o regresso a Chaves, aí, poderá vir sempre pela EN103. Mas fica o nosso habitual mapa para melhor orientação.

 

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E vamos ver o que os documentos, livros e outros dizem sobre Codessoso, começando pelo livro Montalegre que nos leva par “O último enforcado em Montalegre”. Como o texto é longo, se quiser retome o post após a citação, mas recomendo a leitura, pois é história é interessante:

 

O último enforcado em Montalegre

 

Diz-se que quem conta um conto aumenta um ponto. Hoje, o conto não pára por aí. Há quem, ao recontar o conto e até a história, lhe aumente meia dúzia de pontos.

Todavia, o último enforcado em Montalegre constitui um facto histórico graças ao meu inolvidável amigo, José Jorge Álvares Pereira, que em boa hora decidiu resgatar às garras do mito e da lenda, atendo-se aos documentos escritos duma testemunha contemporânia e que assistiu à execução da pena.

O texto que aparece entre aspas é fruto da tradição, o que vai em itálico é do Padre José Adão dos Santos Álvares, que o publica na Revista Universal Lisbonense, tomo II, página 142-144, e que Álvares Pereira consultou.

Há apenas duas coisas que o próprio tribunal não dilucidou e que o pobre criminoso (como em toda a matéria acusatória) não se importou em esclarecer: é o nome oficial do criminoso e a confissão dos crimes de que foi acusado.

Na povoação de Codessoso do Arco (é este o verdadeiro topónimo) “nasceu, em 1815, José Fernandes, filho natural de Senhorinha Fernandes. Tinha uma irmã, igualmente filha de pai incógnito e a que a história não recorda o nome”. Estes Fernandes eram conhecidos pela alcunha de “Gaios de Codessoso” que, entre nós, as famílias também podem ter alcunhas.

Como o rapaz não se dedicasse a nenhum ofício e andasse sempre de vago, puseram-lhe a alcunha de “Bagueiro”. Aliás, é termo muito ofensivo, que se dá também aos burros e que o resto do país mal conhece enquanto tal. Os nossos dicionaristas ignoram-no por completo com tal sentido. Não admira pois que o próprio correspondente da revista, mas não o tribunal, lhe juntasse ao nome a alcunha “Begueiro”, pronunciada (e escrita) à moda do Minho. A verdade é que o homem, de  22 anos, de relações cortadas com o trabalho e sem rendimentos teria de arranjar meio de subsistir. “Roubava”.

Encontrando-se um dia na taberna das Alturas, viu ali entrarem para comer dois viajantes de Braga: a “viúva Inácia Joaquina e o menor Francisco Baptista”.

 “Diz-se que tinham ido a Chaves buscar uns magros tostões que dois canteiros seus familiares ganhavam na reconstrução das muralhas. Comida a bucha, a mulher pagou e disse ao taberneiro: Graças a Deus que ainda aqui levo trinta reis! Saíram mas foram logo seguidos pelo Bagueiro que lhes apareceu, fora do povo, oferecendo-se para lhes indicar o melhor caminho para Braga. Quando chegaram ao descampado enorme, onde mora a Senhora do Monte, o Bagueiro pediu à mulher os trinta mil reis! Quando a viúva lhe ia a dizer que só tinha trinta reis, já caíra morta. O mesmo aconteceu ao rapaz logo a seguir. Foi preso, um mês depois, na taberna de Codessoso. Conduzido à Senhora do Monte, onde ainda estavam os cadáveres, confessou apenas que os tinha acompanhado. Foi julgado, quase quatro anos após o crime e condenado à pena de morte na forca. A execução da pena demorou mais um ano e meio; aconteceu a 17 de Setembro de 1844, devido ao pedido de clemência dirigido à rainha D. Maria II. Pedido rejeitado.

Corre entre nós a versão ridícula de que o condenado, já no patíbulo, terá pedido a presença da mãe para se despedir. Então, em vez do beijo de despedida, ter-lhe-ia cortado o nariz com uma feroz dentada. Episódio inventado e torpe.

A sentença resume-se ao seguinte: É acusado o réu José Fernandes, solteiro, trabalhador… primeiro, de ter num dos dias do mês de Abril de 1838, na serra das Alturas, assassinado e roubado a Inácia Joaquina… e Francisco Baptista…; segundo, havendo-os previamente enganado… e fazendo-lhes crer que havia passagem de tropas nas Alturas (sic) e que deviam evitá-las; terceiro, de ter, na ocasião em que foi preso, em uma taberna do lugar de Codessoso da Venda Nova, no dia 21 de Maio 1838, sido encontrado com um pau de chuço, uma choupa e uma faca de ponta aguda.

Circunstâncias agravantes apontadas no libelo:

 … ao se encontrar junto aos cadáveres dos assassinados um chapéu velho pertencente ao réu;

… se ter visto a este nos últimos dias do mês de Abril um capote velho cor de pinhão que algumas pessoas asseveraram tê-lo visto ao falecido Francisco Baptista;

… sendo conduzido o réu ao lugar em que se achavam os cadáveres… já meios consumidos e devorados, ali confessou ter acompanhado os referidos indivíduos assassinados por caminhos transversais;

… finalmente, … o réu padece notas de opinião de ladrão, salteador e assassino.

Alusão do juiz à defesa do réu:

- Defende-se o réu alegando que é um cidadão bem comportado, que ganha a sua vida honestamente por meio do trabalho e que nunca padeceu notas de ladrão, salteador ou assassino e que nunca usara de armas defesas e que as que foram encontradas na casa em que foi preso não eram suas.

- Portanto, pelo que dos autos consta em vista da decisão do júri e os princípios de direito criminal em que me fundo, condeno o réu José Fernandes, solteiro e jornaleiro do lugar de Codeçoso da Venda Nova, a morrer morte natural para sempre, levantando-se para esse fim uma forca no lugar do Toural desta Vila. Pague o mesmo réu as custas dos autos.

Audiência geral em Montalegre, 21de Janeiro de 1842.

João Carlos de Oliveira Pimentel

O autor do relato desta execução é o padre José Adão dos Santos Álvares que também se assinava José Adão dos Santos Moura. Foi filho do médico José dos Santos Dias, ambos naturais do Cortiço, freguesia de Cervos. O Padre, ao tempo, paroquiava São Vicente da Chã e era correspondente de várias publicações além da Revista Universal Lisbonense. Ao enviar a notícia 3502 à Revista prestou-nos um excelente serviço enquanto barrosões e cidadãos. Contudo, comete pequenos lapsos exclusivamente devidos ao isolamento em que as povoações viviam. E parece que soou a hora de relatarmos apenas o que realmente é, sem ofensa para ninguém, nem receio de dizer a verdade.

O réu chamava-se José Fernandes, por alcunha o Vagueiro, filho de Senhorinha Fernandes, da casa dos Fernandes, por alcunha os Gaios, de Codessoso do Arco, antiga freguesia de São Simão e, agora, lugar da freguesia de São Pedro da Venda Nova. O vocábulo Begueiro foi importado do Minho. Os Barrosões, querendo significar o animal de carga, o burro, dizem vagueiro, ou melhor Bagueiro . E era assim que chamavam ao José, dos Gaios de Codeçoso – o Bagueiro!

Veio o réu da cadeia da Relação, no Porto, (onde alguns anos depois foi cair o célebre romancista Camilo mais a sua paixão). Trazia uma escolta de cinquenta soldados de Infantaria nº2 e foi despedir-se de sua mãe e da irmã a Codeçoso continuando em direcção à Capelinha da Senhora do Monte. “Consta que a sua infeliz mãe, uma desgraçadinha viúva o seguiu longo tempo na mais viva consternação e que obrigada a tornar para trás, caiu de cama onde se conserva”. Assim se rejeita a tradicional cena do beijo uma vez que a mãe não assistiu à execução. 

O Bagueiro chegou a Montalegre, “no dia 13 de Setembro de 1844, pelas 10 horas e entra logo na prisão. Fuma constantemente e bebe água”.

Dia 1, ao meio-dia, chegam os executores; ele vê-os das grades da prisão e deixa a meio a refeição. Prestam-lhe apoio religioso (e psicológico) quatro padres, revezando-se ao longo do dia.

 “No dia 16 ouve três missas e comungou. A seguir deita-se e perde quase todo o alento de que vinha dando mostras. Para o fim do dia revela extremo abatimento; mostra-se compungido mas resignado; recita jaculatórias e beija repetidamente um crucifixo; não come, só bebe água. Enquanto batem as horas, conta-as e faz saber o tempo que lhe resta de vida. Reconcilia-se várias vezes porque quer morrer como cristão”.

“Diz-se que, de madrugada, as sentinelas adormeceram e ele veio ao Toural ver o patíbulo onde seria executado. Regressado à prisão acordou as sentinelas e disse-lhes que não fugira porque queria pagar os seus erros e ser recebido no paraíso”.

No dia 17 voltou a confessar-se. “São onze e meia; chega a irmandade da misericórdia e os executores com alva e corda entram; não desanima; vestem-no, cingem-lhe o baraço; ele se presta com toda a resignação e ajuda a acomodar as voltas da corda na prisão das mãos; saem para a praça do Toural, a pequena distância, a misericórdia com o painel de Nossa Senhora, um minorista com um crucifixo voltado para o padecente; segue-se este caminhando a pé acompanhado dos eclesiásticos… e os dois executores de casaco e calça preta… Chegam à Capela de São Sebastião, na dita praça onde o capelão da misericórdia celebra o santo sacrifício da missa; aqui o padre Manuel Caetano faz uma alocução ao réu e ao povo toda de sentimento e compunção… Dirigem-se para o centro da praça onde se ergue o patíbulo… o padre reza e exorta a uma forte confiança na protecção da Senhora e com breves e patéticas orações o anima a subir. Simões, o executor mais novo, o esperava já no cimo do patíbulo. O padecente pede novamente água, e depois ele próprio, com voz sonora e inteligível pede perdão a todos: dá adeus ao mundo, implora a protecção de Maria Santíssima… cede custosamente o crucifixo; lança-lhe o algoz o capuz.

… num choro geral e extraordinários alaridos dos espectadores anunciaram que tudo estava consumado. A execução diz-se que fora pronta; mas não tanto quanto por ventura o pede a humanidade.

O cadáver foi pela Irmandade da Misericórdia conduzido ao cemitério da Matriz”. A tudo isto assistiu, às carrachuchas de seu pai, uma criança de sete anos que foi meu avô. Dizia ele que a administração concelhia envidava esforços no sentido de que cada família se fizesse representar nas execuções das penas de morte “pela cabeça de casal” e o seu herdeiro mais jovem mas “em idade de razão”. Fica assim justificada uma assistência de cinco mil pessoas, o que constituía um terço da população residente no concelho de Montalegre por esse tempo.

A título de nota marginal, cumpre saber que estiveram presentes dois executores, vulgo carrascos. Um deles era o carrasco oficial e legal, natural de Capeludos de Aguiar, de seu nome Luís Negro. Foi um facínora abominável e soldado dos dragões de Chaves. Condenado à morte na forca viu a sua pena comutada em prisão perpétua ao aceitar, com paga por cabeça, o ofício de carrasco no funcionalismo dos tribunais. Mas, afinal, o Negro não tinha a alma tão negra como o pintavam! O padre José Adão não quis ver a execução toda mas nós sabemos que quem lançou o capuz ao réu foi o Simões (figura sinistra que pensamos ter sido um tal José Ramos Simões, assassino confesso e condenado à pena máxima. Foi-lhe também comutada a pena por ter aceitado ser executor de Alta Justiça. Era ele a quem o Negro pagava para lhe fazer o serviço e, pelos vistos, fazia-o bem por ser de avantajada estatura. Lançou-se, abraçado ao condenado, para que com o seu peso a morte lhe chegasse mais depressa. O Luís Negro, carrasco legal, pagava portanto do seu bolso a quem fizesse tal serviço e desse o fatal abraço ao condenado! É o que diz o Visconde de Ouguela no seu trabalho “O último carrasco”; o Camilo, nas “Noites de Insónia”, o dá a entender e o padre José Adão na sua notícia para a revista e eu aprendi de meu pai e tios.

De todo o modo, o Luís Negro não levou muito trabalho, desse dia em diante, com execuções, a norte do Mondego. Com efeito, só pagou e recebeu estipêndio em mais duas execuções: a do Manuel Pires, natural da Rua, concelho de Sernacelhe, salteador e assassino conhecido por Russo da Rua, enforcado a 8 de Maio de 1845. O último acto rancoroso do comportamento ferino do Russo deu-se “quando já pendente nos ares e cavalgado do verdugo, mordê-lo rijamente na perna esquerda!” Dessa dentada safou-se o Luís Negro! Finalmente, a 19 de Setembro de 1845, no Largo do Tabulado, em Chaves, assistiu à execução de José Maria, o Calças. Andava, por esse tempo, muito acesa a luta contra a pena de morte. Para crimes políticos somos nós os pioneiros pois abolimo-la, em 1852 e para os crimes civis, em 1867.

Todavia, após a Patuleia foram rareando as condenações à pena capital e essas eram comutadas em penas perpétuas ou de degredo para as costas de África.

Mas Luís António Alves, por alcunha o Negro, executor de Alta Justiça, cumpriu integralmente a sua pena pois morreu na cadeia do Limoeiro, na primavera de 1874, vinte anos depois do Vagueiro de Codessoso. Paz às suas almas.

 

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Só a titulo de curiosidade, refere-se no documento que atrás fica transcrito o último enforcamento em Chaves, o de José Maria, o Calças, em 19 de setembro de 1845, que ao que consta por cá (em Chaves), era natural da aldeia de Faiões, que muitas vezes, erradamente, também se diz ter sido o último enforcado em Portugal. Mas não, o último condenado à morte em Portugal e último enforcamento, foi o de José Joaquim Grande e aconteceu em 22 de abril de 1846. A pena de morte para crimes civis só seria abolida em 1 de julho de 1867, no entanto o código de justiça militar em Portugal manteve a pena de morte, que só seria abolida no pós 25 de abril, mais precisamente em 1976.

 

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Por falar em mortes e mesmo sem haver pena de morte para tal, o facto é que o comunitarismo barrosão nas suas várias formas em que existia, também está condenado à morte, esta natural, vítima da modernidade, mas também do despovoamento rural. Boi do povo, por exemplo, penso que já não existe nenhum, fornos do povo ainda vão existindo, alguns ainda utilizados esporadicamente, vezeiras, a única que vi nos últimos tempos foi em Santo André, não sei se existirão mais. O que caiu em desuso quase total foram os tanques e lavadouros coletivos, hoje secos, sem água, apenas servindo para algumas expressões de “arte de rua”, revolta ou denúncias…

 

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Até a natureza parece, ou está mesmo a ser vitima da modernidade, pelo menos em algumas irregularidades relacionadas com o tempo meteorológico, contudo, continua fiel a si própria quando nos surpreende com os seus fenómenos naturais, como os seus arco-íris, as suas auroras boreais, os seus reflexos (como o da última imagem), autênticas obras de arte, mas também aqui, principalmente nestas últimas, para as ver,  também é preciso “que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração”. Pois essas manifestações de arte estão lá, só não as vê quem não quer ou quem não pode.    

 

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Continuemos ainda com a documentação disponível sobre Codessoso, agora com aquilo que diz a “Toponímia de Barroso”:

 

Codessoso do Arco

 

Atenção à grafia do topónimo: As formas intermédias constitutivas não autorizam o uso do ç.

Era e é uma família toponímica abundante, com derivações e flexões e significa um local de codessos, planta semelhante à giesta. Do latino cutissu (originalmente do grego cytissu) > codesso.

Este Codessoso já se chamou do Arco (e foi sede de freguesia, sob o orago de São Simão) devido à célebre Ponte Romana. Com Argote foi elevado à categoria de Praesidium, mansione da via prima, por manifesto erro de contagem das milhas romanas que aquele arqueólogo cometeu no que foi imitado por vários outros que o seguiram de olhos fechados como José Pinheiro e mais uma dúzia deles os tais que não vão às fontes!

 

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Aqui volto de novo à questão da forma como o topónimo desta aldeia é grafado, e eu até sou do que vai às fontes, aos tanques, às minas e até torneira e chego a esta altura do campeonato completamente baralhado. A mim tanto me faz que seja Codessoso como Codeçoso, é-me indiferente, gostaria mesmo de saber é qual deles é o correto  O Autor da “Toponímia de Barroso” é perentório quando a respeito desta aldeia afirma (o sublinhado e realce é meu):  Atenção à grafia do topónimo: As formas intermédias constitutivas não autorizam o uso do ç.

 

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O mesmo autor, no livro Montalegre reforça esta mesma ideia quando a respeito do “O último enforcado em Montalegre”, artigo que neste post transcrevemos atrás na integra, afirma (o sublinhado e realce é meu) : “Na povoação de Codessoso do Arco (é este o verdadeiro topónimo) “ . No entanto a bota não dá com a perdigota, nesse mesmo artigo do enforcado o autor escreve 6 vezes Codessoso com SS e 3 vezes Codeçoso com Ç. Mas no mesmo livro, ao todo, Codessoso com SS aparece 12 vezes, com Ç aparece 6 vezes, duas das quais, quando aborda a freguesia da Venda Nova, onde se afirma Os sublinhados e realces são meus): “ Lugares da freguesia: (4) Codeçoso, Padrões, Venda Nova e Sanguinhedo.” E logo a seguir, no texto:

“A nova sede de freguesia substitui o lugar de S. Simão de Codeçoso de Arco e passou a chamar-se São Pedro de Venda Nova, tendo andado anexa a Santa Marinha de Ferral. A antiga igreja que fora transferida do vale da igreja para Venda Nova acabou por ser afogada, como toda a povoação e o cemitério pelas águas da barragem que foi inaugurada em 1950, com pompa e circunstância e onde, no desfazer da festa, afogaram dez pessoas!”

 

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Ainda o Codeçoso ou Codessoso, se fizermos um exercício e formos diretos à caixa de pesquisa na página oficial do Município de Montalegre, Codessoso com SS aparece-nos 2 vezes enquanto que Codeçoso com Ç aparece-nos mais de uma centena de vezes, sobretudo em documentos oficiais, como atas e outros. Ora, agora que estou a finalizar este post, caio na realidade e dou o dito por não dito, pedindo desculpas pela minha falta de coerência. Assim, no texto que é de minha autoria, onde escrevi Codessoso com SS deveria ter escrito Codeçoso com Ç, e este é definitivo: CODEÇOSO .

 

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 E ficamos por aqui. Ficam ainda as habituais referências às nossas consultas e dizer-vos que as abordagens que já fizemos às aldeias e temas de Barroso estão agora no menu do topo do blog, mas também nos links da barra lateral. Se a sua aldeia não está lá, em breve passará por aqui, num domingo próximo, e se não tem muito tempo para verificar se o blog tem alguma coisa de interesse, basta deixar o seu mail na caixa lateral do blog onde diz “Subscrever por e-mail”, que o SAPO encarregar-se-á de lhe mandar um mail por dia com o resumo das publicações, com toda a confidencialidade possível, pois nem nós teremos acesso à vossa identidade e mail.

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

BAPTISTA, José Dias, Montalegre. Montalegre: Município de Montalegre, 2006.

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014.

 

WEBGRAFIA

- https://www.cm-montalegre.pt/ (Consultado em 10-02-2019)

 

 

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