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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

27
Nov22

O Barroso aqui tão perto... Freguesia de Boticas e Granja

Freguesias do Concelho de Boticas


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Tal como vem sendo habitual na abordagem que este blog tem feito ao concelho de Boticas, após passarem por aqui todas as aldeias de cada freguesia, fazemos um resumo para essa mesma freguesia. Hoje chegou a vez de fazermos o resumo da última freguesia do concelho de Boticas, que por sinal é a freguesia de Boticas e Granja.

 

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Boticas e Granja que até há relativamente pouco tempo eram duas freguesias distintas, a primeira composta por Boticas, Eiró e Sangunhedo, e a segunda composta pela Granja e Ventuzelos. Ora já a pensar no post de hoje, isto para ele não ficasse tão longo e maçudo,  na abordagem que fizemos à aldeia da Granja, a mesma foi feita como se a Granja ainda se tratasse de uma freguesia, deixando lá toda a informação que tínhamos disponível sobre a aldeia e a antiga freguesia. Assim hoje, embora a nível de imagens seja o resumo da atual freguesia de Boticas e Granja, ao nível da abordagem histórica será apenas abordada a antiga freguesia de Boticas, mesmo porque dada a juventude desta nova freguesia, a história que prevalece é a das duas freguesias separadas.

 

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Também com este resumo da freguesia de Boticas e Granja pomos ponto final à abordagem das aldeias do concelho de Boticas, pois já todas passaram por este blog, mas embora a freguesia tenha hoje aqui o seu post e encerremos a abordagem das aldeias e freguesias do concelho, falta ainda o post dedicado à vila de Boticas, tal como faltou o da vila de Montalegre, isto porque queremos fazer essa abordagem a ambas as sedes de concelho quando terminarmos a abordagem de todas as aldeias do Barroso, e pese o facto de as aldeias de ambas as vilas já terem sido aqui abordadas, falta ainda abordar as aldeias barrosãs que pertencem ao concelho de Vieira do Minho e Ribeira que farão aqui entrada a partir do próximo domingo.

 

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Vamos então ao resumo da freguesia de Boticas e Granja cuja abordagem histórica será feita com base naquilo que está expresso no caderno da freguesia de Boticas da monografia da “Preservação dos hábitos comunitários nas aldeias do concelho de Boticas” que desde já fica o aviso de que se trata de uma publicação datada de maio de 2006, pelo que alguns dados sobre a população, economia e sociedade poderão não corresponder à realidade atual.

 

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E sem mais rodeios passamos já áquilo que se diz na “Preservação dos hábitos comunitários nas aldeias do concelho de Boticas”  mais precisamente no Caderno da freguesia de Boticas.  As imagens que vão ficando ao longo do texto resultam de uma seleção das que foram publicadas nas respetivas abordagens das aldeias da freguesia, para as quais ficará no final deste post um link para cada uma dessas abordagens.

 

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A FREGUESIA DE BOTICAS: GEOGRAFIA E PERSPECTIVA HISTÓRICA

 

A freguesia de Boticas é constituída pela vila de Boticas, sede do concelho, à qual deu o nome, e as aldeias de Eiró e Sangunhedo.

 

Eiró e Sangunhedo encontram-se dispostas na encosta da serra do Leiranco, Boticas, encontra-se localizada na zona do vale. Confronta com quatro freguesias: a Norte com Cervos, do concelho de Montalegre, a Este com a Granja, a Sul com Pinho e a Sudoeste com Beça, todas do concelho de Boticas. Ocupa uma área total de 13,9 km”.

 

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Eiró

1 – POPULAÇÃO, ECONOMIA E SOCIEDADE

Num concelho em que a evolução da população, nas diversas freguesias, se caracteriza por uma diminuição progressiva, com uma pirâmide etária invertida, onde os grupos etários mais baixos são diminutos e a população envelhecida aumenta, Boticas é a freguesia mais densamente povoada, actualmente conta com cerca de 1065 residentes, e aquela que ao longo dos últimos 40 anos menos população residente perdeu (apenas 1,5%).

 

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Granja

Esta freguesia, em especial a vila de Boticas enquanto sede do concelho, afirma-se cada vez mais como um pólo urbano centralizador, concentrando serviços e investimentos. Funciona simultaneamente como pólo de atracção, quer em termos de investimentos públicos e privados, quer em termos de mão-de-obra das freguesias, atraída pelas oportunidades de emprego que esses investimentos suscitaram, captando assim uma parte significativa dos recursos humanos qualificados.

 

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Criaram-se assim as condições propicias para que esta freguesia conseguisse manter a sua população, salvo O decréscimo que se registou nos anos 80 devido à intensificação dos fluxos migratórios. Nas décadas seguintes, contrariando a tendência regressiva da população, assistiu-se ao crescimento e manutenção da população, em parte devido a fixação de nova população atraída pelas ofertas de emprego, dado que grande parte das pessoas que trabalham nesta freguesia, especialmente as das aldeias mais distantes, optam por comprar casa nesta freguesia ou nas freguesias limítrofes, como por exemplo Beça.

 

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No que se refere à idade dos residentes, esta freguesia, apesar de também registar uma gradual tendência para o envelhecimento, é aquela que concentra a maior percentagem de indivíduos em idade activa, 50% dos 1065 residentes têm 25 e 64 anos, e a mais baixa percentagem de idosos (22%). Relativamente aos níveis de instrução desta população, Boticas apresenta diferenças relativamente à generalidade das freguesias do concelho, registando uma menor taxa de residentes sem qualquer nível de instrução (14%), constituida essencialmente por idosos, bem como uma maior percentagem de pessoas com ensino universitário (8%), dados que indiciam uma cultura mais cosmopolita. Quando comparada com as restantes freguesias nota-se um claro investimento na educação.

 

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Eiró

No que se refere à área de actividade económica da população local, esta divide-se entre o urbano, ao centro (na vila de Boticas) e o rural das localidades que lhe são periféricas (Eiró e Sangunhedo). Na vila de Boticas, as actividades económicas são predominantemente a área dos serviços, comércio e cafetaria e restauração, concentrando um grande número de mão-de-obra. A agricultura desempenha um papel secundário, como complemento para as economias familiares. Em Eiró e Sangunhedo, anexas à vila de Boticas, a população, beneficiando dessa proximidade, encontrou aí novas oportunidades de emprego. Todavia, uma parte da população local continua a dedicar-se à agricultura e à pecuária. Algumas famílias continuam a actividade tradicional de criação de gado, produção de batata, milho, e algum centeio, os produtos que melhor se desenvolvem e produzem nesta região de Barroso, com elevados níveis de qualidade e sabor. Também a produção artesanal de mel e fumeiro se encontra em franco desenvolvimento, funcionando como um complemento no rendimento das famílias. Esta freguesia é também conhecida pela produção do famoso “Vinho dos Mortos”, para o qual está a ser construído um repositório (em Granja), onde os visitantes poderão conhecer melhor a história deste afamado vinho.

 

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Granja

Todavia, a tendência aponta para a evolução do sector secundário e terciário. A concentração dos serviços públicos (Câmara Municipal, Escola EB 2/3, Cartório Notarial, Tribunal, Finanças, Centro de Saúde, RESAT, entre outros) e o crescente investimento privado na área da indústria (EURONETE, S.A.), serviços, comércio e restauração, tem desempenhado um papel preponderante nesta dinâmica. Assiste-se simultaneamente ao gradual abandono da agricultura como principal fonte de subsistência dos agregados familiares, passando a ser praticada a tempo parcial, cultivando-se pequenas parcelas, as que se encontra mais perto das localidades (hortas e nabais), como complemento de subsistência.

 

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No que se refere à sociedade, esta comunidade caracteriza-se pela existência de alguns contrastes. A par das famílias de lavradores e pequenos proprietários de terras que (ainda) desenvolvem actividades agro-pecuárias, existem famílias de empresários, gestores, comerciantes e quadros médios que exercem actividade no ensino e na vida administrativa local.

 

Em termos associativos existem na freguesia de Boticas múltiplas e variadas associações, tais como: a Associação Recreativa e Cultural “Fórum Boticas”, à qual pertence o Grupo de Danças e Cantares Regionais de Boticas e a Rádio Fórum Boticas, o Agrupamento de Escuteiros 1148 Boticas e o Grupo Desportivo de Boticas.

 

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Sangunhedo

A vila de Boticas dispõe dos mais diversos equipamentos culturais, educacionais e recreativos, entre os quais se destacam os seguintes: Auditório Municipal Dr. José S. Fernandes, Biblioteca Municipal, Museu Rural de Boticas, Escola Municipal de Educação Rodoviária, Complexo de Piscinas Municipais. Para além destes espaços, possui também os parques de lazer do Noro e da Presa do Padre Pedro.

 

Os visitantes dispõem ainda de uma variedade de espaços onde ficar. Dependendo dos gostos a oferta vai desde o Turismo Rural (TR), às residenciais e ao parque de campismo para os mais aventureiros, um parque bem equipado que para além dos espaços para as tendas e roulottes dispõe também de cinco Bungalows capazes de proporcionarem todo o conforto e comodidade, indispensáveis a umas agradáveis e reconfortantes férias.

 

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Ventuzelos

Com o Verão, vêm as férias e os emigrantes e a vida das comunidades ganha um novo fulgor. As noites quentes convidam ao lazer e são vários os eventos culturais promovidos pela autarquia durante esta época. De Julho a Agosto decorrem as “Quintas-feiras Culturais” a cujo palco sobem os mais variados espectáculos, com especial destaque para o folclore e os cantares tradicionais, a cargo dos grupos culturais e recreativos do Concelho, o teatro, o fado e os arraiais populares.

 

Paralelamente, nas primeiras semanas de Agosto decorre também o Boticas Rock, no âmbito do qual se organizam múltiplos e variados espectáculos como o concurso de karaoke, música ao ar livre, animação de rua, desportos radicais, entre outros.

 

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Granja

Mensalmente realizam-se duas feiras em Boticas, nos dias 10 e 20, excepto quando estes dias coincidem com o fimde-semana ou feriado, passando então a realizar-se no dia útil imediatamente a seguir. Existe um espaço criado para o efeito, localmente designado como “Campo da Feira”, de fáceis acessos e com variados locais de estacionamento nas zonas envolventes.

 

Para além das feiras mensais, realiza-se todos os anos, no dia 10 de Novembro, em Boticas, a Feira dos Santos. Esta é a maior feira do ano, quer em termos do número de comerciantes/vendedores que nela participam, quer em termos de afluência de pessoas.

 

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Eiró

2 - MARCAS DO SEU PASSADO

 

Como já atrás referimos, muitas das aldeias e povoados do Norte de Portugal e também desta região de Barroso, tiveram origem muito antiga, como os inúmeros castros conhecidos o testemunham. Os castros de que hoje apenas encontramos vestígios de ruínas, são vulgarmente conhecidos por citânias, mas também castelos, cercas e cividades. É o caso do castro de Giestosa que é também conhecido e identificado como cividade da Giestosa.

 

Os castros conhecidos nesta região indicam ser do tempo da II Idade do Ferro isto é pelos séculos III e II antes de Cristo. Muitos deles foram abandonados com a invasão dos povos romanos sobretudo os feitos de uma nova civilização e desenvolvimento técnico.

 

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Sangunhedo

São estes vestígios arqueológicos associados a coutos de mineração como é o caso bem conhecido do poço das Freitas que informam da presença de outras civilizações muito antigas. Sabemos que estes castros foram abandonados, mas é provável que a presença humana, designadamente a partir da invasão dos romanos tenha continuado. Certo é que, a partir da fundação de Portugal se dá um movimento de ocupação e povoamento como as inúmeras cartas de povoamento o revelam[i] .

 

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Granja

2.1 - EIRÓ/BOTICAS NAS ORIGENS DO CONCELHO

 

Boticas ou Boticas de Barroso, era no passado, até há pelo menos 150 anos atrás, uma humilde povoação da paróquia de Eiró. Em 1530, no numeramento de D. João III, O seu topónimo nem aparece, talvez porque a aldeia ainda não existisse enquanto tal. De facto, neste documento que enumera todas as povoações de Barroso com os seus moradores, apenas Eiró e Sangunhedo vêm referidas com 32 moradores, cabeças de casal, isto é, perto de 130 pessoas. Mais tarde, no ano de 1758, já Boticas aparece no conjunto das três aldeias que compõem a paróquia de Eiró.

 

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Ventuzelos

Ao tempo, a paróquia era conhecida por Eiró ou São Salvador de Eiró. Efectivamente, a igreja matriz encontrava-se dentro do lugar de Eiró, constituindo por isso a paróquia e dando nome ao conjunto das três povoações que a compunham - Eiró, Sangunhedo e Boticas de Barroso. A partir de 1836, com a constituição do concelho de Boticas a partir da desanexação de freguesias do concelho de Montalegre, da extinção do Couto de Dornelas e ainda de uma freguesia do concelho de Chaves, a freguesia de Eiró passou a designar-se por freguesia de Boticas, que deu o nome ao concelho, passando por isso a ser vila e sede do concelho de Boticas.

 

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Granja

O concelho de Boticas é uma criação do Liberalismo Português do século XIX, surgindo no âmbito da reforma Liberal de 1836, na sequência das grandes reformas da administração e da divisão territorial portuguesa, delineadas por Mouzinho da Silveira, desencadeadas na chamada Segunda Revolução Liberal de 1832.

 

A reforma da administração local e municipal portuguesa é uma matéria que atravessa profundamente a Sociedade Portuguesa da última etapa da Monarquia absoluta e apresenta-se como uma forte aspiração dos administrados — descontentes e agravados com as instituições existentes — mas também de largos sectores da nossa administração pública e política, entre elas a própria Coroa que, como se referiu em 1790, desencadeia um programa de estudos com vista à reforma administrativa do reino[ii].

 

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Boticas e Sangunhedo vistas desde Eiró

Tais estudos não resultaram na reforma pensada, ainda que aqui e acolá algumas propostas feitas para a reforma da divisão das novas comarcas e da nova carta de concelhos tivesse algum acolhimento e na prática fossem adoptadas algumas das medidas propostas pelos Juízes nomeados para essa tarefa, a nova demarcação das comarcas e concelhos.

 

A Revolução Liberal de 24 de Agosto de 1820 inscreverá como um dos seus principais objectivos à reforma administrativa, através da qual ela se propunha realizar o projecto político e social da instauração do novo governo, das novas instituições e da nova sociedade liberal.

 

Efectivamente, a Constituição de 1822 e a Carta Constitucional de 1826 inscrevem nos seus textos a necessidade de reformar a administração vinda do Antigo Regime, assim como promover um novo desenho dos concelhos.

 

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Granja

Esta ideia de reforma do Estado não foi levada a cabo logo com a revolução de 1820 devido à forte movimentação e agitação política e social local e nacional em volta da instalação dos novos poderes das instituições e autoridades.

 

Foi mesmo interrompida e suspensa, anulando-se algumas das medidas com a reacção absolutista conduzida por D. Miguel desde 1823 instaladas as autoridades e as leis do Absolutismo em definitivo com o governo absolutista de D. Miguel desde 1826, após a morte de D. João VI, que suspende todo o ordenamento liberal e constitucional e a Constituição de 1822 e a Carta Constitucional de 1826.

 

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Só no quadro da 2ª Revolução Liberal e da vitória definitiva do liberalismo sobre a Usurpação absolutista — D. Pedro contra D. Miguel — é que foi possível realizar com mais desenvolvimento e sem retomo a reforma da administração portuguesa, suas Instituições e carta territorial.

 

Após a tentativa de reforma seguindo o chamado modelo francês, aliás, de curta vigência, logo em 1833, Rodrigo da Fonseca Magalhães, introduz uma nova remodelação nesta organização administrativa, criando os Distritos, levando a cabo a mais drástica amputação dos concelhos portugueses que reduz a cerca de metade. É nesse contexto que virá a surgir o concelho de Boticas.

 

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Sangunhedo

A reforma da carta concelhia e com ela a redefinição das áreas e limites dos concelhos reformados, extinção de muitos, cerca de metade das unidades existentes e criação de algumas novas unidades foi, de facto, uma decisão muito arrojada e a sua implementação revelar-se-ia, obviamente, muito difícil e penosa.

 

Na Província Transmontana, a nova legislação criará os Distritos de Vila Real e Bragança, divisão que em grande parte assume em termos territoriais o do ordenamento espacial que no Antigo Regime era desempenhado pelas comarcas.

 

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Ventuzelos

A proposta de Columbano, de 1790, de criar uma nova comarca para à região presidida por Chaves — que corresponde, em grande medida, à parte ocidental da comarca de Bragança — não vingaria naquela proposta de reforma e também não vingará na criação de um distrito para Chaves, embora esta reivindicação estivesse então também presente e tivesse eco. Esta região transmontana ocidental viria a ser integrada no distrito de Vila Real.

 

Do ponto de vista da divisão concelhia, o facto mais assinalável na reformulação da casta dos concelhos desta banda da Província é, sem dúvida,  a criação e institucionalização do concelho de Boticas, que vem no elenco do decreto de 6 de Novembro de 1536.

 

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Eiró

Trata-se, em grande medica, de uma criação inesperada, pelo menos a quem acompanha a documentação e os projectos de reformas anteriores para esta orla transmontana. Com efeito, de um modo geral, a criação de novos concelhos em 1835/36 após o resultado de uma longa luta de reivindicação autonómica, assente em fundamentos que os mentores da criação sempre vão apresentando aos poderes políticos e assentes muitas vezes em actos de rebeldia mais ou menos activas ou positivas relativamente às unidades administrativas de que se querem separar. Nela emergirá o concelho de Boticas, com todas as instituições, poderes e competências que agora compõem e são entregues aos concelhos integrados no quadro das instituições distritais instituídas pela nova legislação e ordenamento administrativo, este sim destinado a ter uma larga longevidade.

 

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Granja

Nos termos do novo mapa, Boticas integrar-se-á no recém-criado Distrito de Vila Real. O decreto de 6 de Novembro de 1836 que cria o concelho de Boticas integraria então as seguintes 17 paróquias: Eiró, Granja, Cervos, Anelhe, Pinho, Bobadela, Ardãos, Sapiãos, Beça, Vilar de Porro, Canedo, Codeçoso, Curros, Covas, Alturas, Dornelas e Cerdedo.

 

Depois disso muito mudou com a passagem de paróquias para outros concelhos e a criação de outras freguesias.

 

Actualmente, o concelho tem 16 freguesias, das quais se destacam Fiães do Tâmega e S. S. de Viveiro, a primeira criada em 1834 que pertenceu por um tempo ao concelho de Ribeira de Pena e a segunda apenas criada em 28 de Janeiro de 1967.

 

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Sangunhedo

2.2 - UM DOCUMENTO DE 1758

 

No ano de 1758 o Rei D. José, através do seu ministro Marquês de Pombal, desenvolveu um inquérito a todas as paróquias do Reino de Portugal continental que hoje se encontram no IAN/TT.

 

Este inquérito que foi respondido pelos párocos das freguesias era composto de três partes: a primeira respeitante à paróquia onde se tratava de saber da sua história, produções agrícolas, população, instituições locais, igreja e capelas com suas devoções e romagens, a segunda tratava dos rios e ribeiros que nela existissem, assim como das levadas e represas, moinhos e pisões, e a terceira perguntava pela serra e por todas as suas características, se tinha lagoas e nascentes, monumentos, capelas, caça e árvores.

 

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Ventuzelos

É graças a este inquérito que se pode obter uma visão mais ou menos completa de como era a freguesia de Eiró, nos meados do século XVIII como abaixo se vê. Para uma melhor compreensão o português foi actualizado e foi introduzida alguma pontuação.

 

Satisfazendo uma ordem que me foi enviada pelo muito Reverendo Senhor Doutor Vigário Geral, que aceitei com o devido respeito que se lhe deve, fiz diligência cuja resposta dos interrogatórios é a seguinte:

 

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Granja vista desde Ventuzelos

No que respeita à terra:

  1. É província de Trás-os-Montes, comarca de Chaves, termo da vila de Montalegre, arcebispado de Braga Primaz das Hespanhas. É freguesia de São Salvador de Eiró.
  2. É comenda do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Marquês de Marialva.
  3. Tem cento e dois fogos ou vizinhos e trezentas e trinta e três pessoas pouco mais ou menos.
  4. Está situada a igreja no lugar do Eiró, a ela pertencente em lajes quase todas fimes. Nela se não descobre povoação alguma.
  5. Termo tem só o que ocupa a mesma freguesia.
  6. A paróquia está dentro do mesmo lugar de Eiró. Tem esta freguesia mais dois lugares que lhe pertencem: o lugar de Sangunhedo e o das Boticas de Barroso.
  7. É orago o São Salvador do Eiró. [A igreja] tem três altares: o altar-mor onde está encerrado o Santíssimo Sacramento no Sacrário e dois colaterais, o da parte direita da invocação de Nossa Senhora das Candeias e o da parte esquerda do Santo Menino Deus. Não tem naves, a dita igreja, nem irmandades.
  8. O pároco é vigário colado, é aprezentação in solidum do Reverendo Reitor de São Pedro de Sapiãos. Poderá render anualmente oitenta e tal mil réis.
  9. Não tem beneficiado algum.
  10. Não tem conventos alguns.
  11. Não tem hospital nenhum.
  12. Não tem casa de Misericórdia.
  1. Tem esta freguesia três ermidas: uma no lugar de Sangunhedo dessa freguesia, tem a invocação de Santo Aleixo e é administrada pelos moradores do mesmo povo; outra nas Boticas, invocação de São Francisco, é particular, do Doutor João Batista e é administrada por ele. Outra no Eiró invocação de Nossa Senhora das Necessidades, é particular, de João Careiro Vieira é administrada por ele. Todas estão dentro dos ditos povos.
  2. São romagens de pouca continuação excepto nos seus dias e [peracidens] em alguns mais dias festivos.
  3. Os frutos que dá a terra são: centeio, milho, vinho verde, castanhas e centeio em mais abundância.
  4. Tem somente juiz espadanio, que govena a mesma freguesia e está sob a alçada do juiz de fora e câmara da vila de Montalegre.
  5. Não é couto, nem cabeça de concelho.
  6. Não há memória de que nesta freguesia haja ou houvesse, homens com as qualidades que diz o interrogatório.
  7. Não se faz nesta freguesia feira alguma.
  8. Não há correio, servem-se do correio da vila de Chaves, que dista desta freguesia três léguas.
  9. Dista esta freguesia da cidade de Lisboa, setenta e duas.
  10. Tem esta freguesia o privilégio de reguengueiros.
  1. Não há fonte nem lagoa célebre.
  2. Não é porto marítimo.
  3. Não é murada.
  4. Não sofreu nenhuma ruína no terramto do ano de 1755.
  5. Não há coisa alguma a que se possa fazer menção.

 

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 Sangunhedo

No que se respeita à serra é o seguinte:

  1. Chama-se a serra do Fontão. Terá de comprimento três quartos de légua.
  2. Em comprido no que pertence ao termo da freguesia, que a dita serra começa num lugar a que chamam Castelãos, da freguesia de Calvão onde se divide a Estremadura de Portugal e Galiza que é continuada; compreendendo várias freguesias que lhe ficam no circuito até chegar ao Douro ocupará uma extensão até vinte léguas.
  3. Os nomes da dita serra, mais conhecidos, no termo desta freguesia são Fontão e as Escadas de baixo e de cima.
  4. Dentro do circuito desta freguesia não nasce rio algum, apenas alguns regatos que vêm de fontes pequenas e todas juntas desaguam num rio chamado Terva, que passa pelo termo desta freguesia por onde discorre quase um quarto de légua.
  5. Não há vila nem lugares na dita serra nem ao longo dela além dos da freguesia já nomeados.
  6. Não há fonte alguma de propriedades especiais na área da dita serra.
  7. Não há memória de que na dita serra tenha havido minas, nem canteiros de pedra, nem de outros materiais de que se possa fazer menção.
  8. O fruto da dita serra são umas cepas que as suas plantas são urzes de que ela é bem povoada. Não consta que tenha ervas com virtudes particulares.
  9. A dita serra não contém em si mosteiro, igreja de romagem nem imagens milagrosas.
  10. A qualidade da sua temperatura é frigidíssima de tal maneira que este ano teve neve mais de trinta dias sem derreter.
  11. Não há nela criação de gados, apenas algum que os mesmos moradores levam a pastar nela, tomando conta deles por temerem os lobos que nela muitas vezes se criam. Criam-se também nela coelhos, perdizes e raposas.
  12. Não há na dita serra lagoa nem nenhum fojo notável.
  13. Não tem mais coisa alguma de que se possa fazer memória.

 

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Ventuzelos

 

No que respeita aos rios, é o seguinte:

  1. O rio que discorre por esta freguesia chama-se rio Terva. É pequeno o sítio da sua origem, na freguesia de Calvão.
  2. As suas nascentes são fontezinhas pequenas, corre todo o ano mas no Verão em pouca quantidade.
  3. Não desagua nele nenhum rio até chegar ao sítio desta freguesia, apenas alguns regatozinhos sem importância.
  4. Não é navegável, nem tem embarcações algumas.
  5. Corre manso e pacificamente excepto em algumas cheias.
  6. Corre do Norte para o Sul.
  7. Criam-se nele peixes a que chamam trutas e outra espécie deles a que chamam bogas e também alguns eirozes, tudo em pequena quantidade.
  8. Não há pescarias nele.
  9. Não há pescarias no dito rio nem também senhorio delas.
  10. Não tem margens que hajam de se cultivar. Tem algum arvoredo e em partes alguns castanheiros e outras silvestres.
  11. Não consta que as suas águas tenham virtude alguma.
  12. Tem conservado e conserva sempre o mesmo nome.
  13. Desagua este rio no rio chamado Tâmega e nele se mete no termo de Mosteirão.
  14. Não há nele cachoeira, represa nem levada, apenas alguns açudes de alguns moinhos, que nele há, que estas lhe embarace o ser navegável por não ser capaz disso.
  15. Em todo este rio não há mais que uma ponte de cantaria que fica no distrito do lugar de Sapelos, na freguesia de São Pedro de Sapiãos, chamada a ponte Pedrinha e no distrito desta freguesia tem uma [ponte] de pau a que chamam Requeixo.
  16. Não tem lagar de azeite, pisão, nem nora. Apenas alguns moinhos.
  17. Não consta que em tempo algum se tirasse ouro das suas áreas.
  18. Não me consta que esta freguesia, nem os povos que a ela comarcãos se sirvam das águas deste rio para a cultura dos seus campos.
  19. Poderá ter o dito rio desde o seu nascente até onde finaliza mais de quatro léguas. É o seu curso por onde passe atravessando a freguesia de Alvão, Ardãos, Bobadela, Sapiãos e Granja, até criar nesta minha e dela para baixo a freguesia de Beça, Curros e Pinho.
  20. Não há coisa mais notável de que se possa fazer apresentação que pertença à este interrogatório.

Muito Reverendo Senhor Doutor Vigário Geral em cumprimento da ordem de vossemecê que aceitei com todo O devido respeito, fiz diligência respondendo aos interrogatórios que me mandava, para o que ainda perguntei algumas advertências a várias pessoas desta freguesia, que não sabia para melhor me capacitar. O que vai e tudo na verdade sem breve nem coisa que divida faça, o que juro in verbo sacerdotis e por verdade assino e o Reverendo Domingos Gonçalves, Reitor de São Pedro de Sapiãos e o Reverendo João Gonçalves Vigário de Santa Maria da Granja. Eiró, 11 de Março de 1758.

Reitor de Sapiãos Domingos Gonçalves

O Vigário João Gonçalves

O Vigário padre Manuel Diogo

 

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Granja

 E estamos a chegar ao final deste post, só falta mesmo deixar o vídeo resumo deste post com as imagens de hoje e mais algumas, após o qual deixaremos um link para todas as aldeias da freguesia cada uma também com o seu vídeo. Vídeos que também pode ver no nossa canal de MeoKanal e do YouTube, também com link no final do post .

 

Aqui fica o vídeo, espero que gostem:

 

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Links para as aldeias da freguesia de Boticas e Granja

EIRÓ  

GRANJA

SANGUNHEDO

VENTUZELOS  

 

No próximo domingo vamos até uma aldeia do Barroso do concelho de Vieira do Minho.

 

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[i] Ver BARREIROS, Fernando, 1919, Monumentos Históricos de Barroso, I, Montalegre, Tipografia Santos & Morais.

[ii] É neste âmbito que se deve observar o projecto de descrição de Trás-os-Montes nos finais do século XVIII levado a cabo pelo magistrado régio Columbano Pinto Ribeiro de Castro em 1796 onde faz um retrato da provícia transmontana nas suas vertentes económica, social e administrativa culminando com uma proposta de reforma territorial e administrativa onde se propõe a extinção de inúmeros concelhos e a reorganização territorial dos existentes com a consequente criação de outros. Ver José Maria Amado Mendes, Trás-os-Montes nos fins do séc. XVIII segundo um manuscrito de 1796, INIC, Coimbra, 1995, (2ª ed.)

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