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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

06
Mai18

O Barroso aqui tão perto - Póvoa

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Finalmente chegamos à Póvoa, a nossa aldeia de hoje no “Barroso aqui tão perto”, há muito prometida esta abordagem, mas que só hoje calhou em sortes. Abordagem um bocadinho diferente daquelas que costumámos fazer, pois hoje, a bem dizer, este post é feito a meias com o Vítor Bruno, um povoense que fez chegar até nós alguma informação sobre a aldeia e uma preciosa estória que deixaremos mais à frente. Para já vamos à localização e itinerário para chegarmos até esta aldeia do Barroso verde.

 

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Aldeia da Póvoa que fica na freguesia de Salto, concelho de Montalegre, já no limite do concelho, do distrito de Vila Real e da província de Trás-os-Montes, ficando apenas a 2.5km do concelho de Cabeceiras de Basto, tantos como a distância à sede de freguesia (Salto) e a 5,5Km do concelho de Vieira do Minho já no Alto Minho. Em termos de distância, a mais curta dentre os itinerários possíveis desde a cidade de Chaves, é de 54.3Km, quase tantos como até a cidade de Braga.

 

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Quanto ao itinerário com partida desde a cidade de Chaves, hoje só recomendamos um, embora pelos outros dois do costume (via estrada do S.Caetano/Montalegre ou N103) também se chegue à Póvoa, mas por ambos são aproximadamente mais 20km. Assim recomendamos mesmo apanhar a N311 que liga Boticas a Salto. Claro que para tal teremos que apanhar primeiro a N103 até Sapiãos, aí vira-se para Boticas onde, aí sim, se apanha a N311 em direção a Salto, que se terá de atravessar de uma ponta à outra, mas sempre pela N311. Em Salto o melhor é seguir as placas indicativas que apontem para Reboreda, Tabuadela, Lodeiro de Arque, Carvalho, Beçós, Seara e claro Póvoa. De Salto à Póvoa, tal como já referimos, são apenas 5,5 km, na prática, duas retas e uma curva e está-se lá, a aldeia desenvolve-se ao lado, em paralelo à N311, numa cota mais baixa. Apenas é necessário fazer um ligeiro desvio da estrada principal, desvio esse que depois de atravessar a aldeia, volta a entrar na N311.

 

mapa-povoa.jpg

 

Para além do nosso mapa que fica atrás, sejamos ainda mais precisos quanto à localização, principalmente para aqueles que gostam da exatidão das coordenadas. Pois aqui ficam elas:

41º 36’ 57.50” N

07º 56’ 02.45” O

Altitude: entre os 893 e 921m

 

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Quanto à aldeia da Póvoa, estamos na freguesia de Salto, quer isto dizer que estamos em terras altas, mas onde o verde predomina, principalmente de pastagens e outras culturas como o milho, manchas com algum arvoredo autóctone e junto às aldeias algumas árvores de fruto onde a videira também já está presente. Afinal de contas estamos no limite do Barroso já com muitos ares do Minho.

 

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Trata-se de uma pequena aldeia que se desenvolve ao longo da estrada nacional, mas apenas de um lado e a uma cota mais baixa. Segundo informações do nosso colaborador neste post (Vitor) “O Lugar é constituído por 11 casas habitadas e conta com 26 habitantes.” Pequena mas agricolamente rica, isto a julgar pelo número e dimensões dos canastros, todos com 3, 4 e 5 módulos, quando na grande maioria os canastros têm apenas dois módulos ou mesmo só um[i].

 

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Quanto ao casario, por aqui é maioritariamente em granito amarelo à vista, algum com junta seca e pedra de pequenas dimensões e outro assente com argamassa com pedra de granito cortado e próximo do perpianho, mas sem camadas (fiadas) regulares. Pelo meio algumas intervenções mais recentes, poucas, mas já com alguma idade, talvez anos 70 do séc. passado. Os canastros impõem-se visualmente, descobrimos por lá duas alminhas e, pelo menos, um tanque aparentemente utilizado para rega, com uma curiosa estrutura de condutas em granito e fontanário incluído, uma pequena capela, simples, em perpianho irregular à vista, telhado de duas águas e torre sineira simples sobre cumeeira à face do alçado principal virado para o largo de entrada na aldeia. Estamos numa aldeia portuguesa, com certeza.

 

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É em terras da Póvoa que termina o vale de Salto para onde a aldeia lança as suas vistas, vale que aqui estreita, ficando com cerca de 500 metros de largura até se perder nas encostas das montanhas, com abertura para Salto encontrando pelo meio ainda as aldeias de Reboreda e Cerdeira, o que proporciona uma paisagem com vistas dignas de se verem e que se prolongam até à Serra do Gerês onde o azul da serra se começa a confundir com o azul do céu.

 

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 Tempo agora de irmos espreitar o que diz a “Toponímia de Barroso”.

 

Póvoa

Vem do nome comum latino POPULA > POBULA > POBUA > PÓVOA.

- 1258  « Revoreda et villa de Popula sunt Johannis Suerii Conelio et sorarum suarum».

Deste topónimo conhece-se apenas a forma latina; julgo que isso se deve ao facto de ter mudado de nome. A Póvoa chamou-se de Fernando Pelegrim, criatura que se ligou pelo matrimónio aos descendentes de Egas Moniz e aos Coelhos e que já estudei na “Linhagem dos Barrosos”, Nas INQ. Aparece “poboacionem”.

 

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Sobre o topónimo ainda quero acrescentar mais alguma coisa, mas uma vez que estamos na “Toponímia de Barroso”, vamos ver o que diz a “Toponímia Alegre”:

 

Apelidos de Salto

 

Pomar da Rainha nem pão nem farinha,

Pereira fome lazeira,

Amiar fome de rachar.

Borralha saco de palha,

Linharelhos tripas de coelhos,

Caniçó arca de pó,

Paredes armadores de redes.

Corveirinhos são de Corva

Lagarteiros do Amial

Bagulhão muita água pouco grão,

Lodeiro de Arque

arcas vazias sem pão.

Tontinhos da Póvoa

Sarilhotos do Carvalho

Dobadouras de Beçós

Toucinheiros da Seara

Cavalos de Tabuadela;

Tornadores de água da Reboreda

Demadistas da Cerdeira

Escorricha-odres de Salto.

 

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Pois o conteúdo na “Toponímia de Barroso” sobre a Póvoa soube-me a pouco, muito latim, origem da palavra, mas nada sobre o porquê de Póvoa ser Póvoa. Penso que posso mandar mais algumas achas para a fogueira, indo ao significado do termo/topónimo comum “Póvoa”, que  na infopédia aparece assim descrito: “Do português arcaico póvoa, 'terra entregue para ser povoada' (do baixo-latim popula). Aparece na Galiza como Poboa e no resto de Espanha como Puebla ou Pobla. É comum usar-se em compostos como Póvoa da Atalaia, Póvoa do Forno, Póvoa de Santa Iria, etc. Tem os derivados Pova, Povela, Poverais, Povinha, Povoação, Povoada, Povoadura, Póvoas, Povoença, Povoinhas e Povoral.”.  Ou no dicionário Priberam assim: “pó·vo·a (origem controversa) – substantivo feminino - Pequena povoação. = CASAL”. Ou ainda este visto em cacia.pt: “O topónimo Póvoa é derivado do verbo latino popūlare, que significava «encher com pessoas, estabelecer-se, etc.» (LANG, 1974: 211) e aparece no norte da Península Ibérica, sobretudo «em zonas de reconquista relativamente temporã (séculos IX e X)» (op. cit.: 215). É particularmente comum em Portugal, (…). Designa, quase sempre, uma pequena localidade ou casario (ibid).

 

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E agora vamos às estórias da aldeia e mais alguns dados, só possíveis com a ajuda do Vítor Bruno que também nos informou a existência de uma página, dedicada à aldeia, no facebook. Fica aqui o link, e de seguida passamos à estória: https://www.facebook.com/PovoaVillage/

 

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Uma estória real que deu origem a uns motes engraçados que fizeram para as pessoas de renome da aldeia, foi a seguinte:



- Em dias de Verão uma rapariga de nome Maria Rosa com os seus 14-15 anos ia mudar as vacas da Casa do Barroso dum campo para outro para pernoitarem e deixou a burra atada a uma carvalha perto duma borda, a burra gostava muito das vacas e não queria ali ficar atirou-se pela borda acabando por morrer esganada.

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Sabendo do sucedido, um senhor de nome Francisco da aldeia vizinha Lodeiro d'Arque fez os ditos motes:

 

A Ana do Canas foi às couves à horta, e disse, não posso comer mais carne de burra senão não caibo na porta. 

O Ti Lixandre do Canas por ser o mais habilidoso, foi buscar a pele da burra pra fazer um casaco comprido à patroa do Barroso. 

A Caneda do Barroso disse: eu cá nos vizinhos não me finto, botai cá um bocado de carne de burra pra levar ao Dr. Costa Pinto (advogado). 

O Lázaro por ser o mais bonito, foi buscar o cú da burra pra fazer um assubito. 

O Constantino do Canas estava a fazer meia, mandou trazer os olhos da burra pra lhe servir de candeia. 

O Ti Lixandre do Canas foi logo à carreira, comeu tanta carne de burra, que andou três dias de caganeira. 

A Ti Senhorinha da Portela por ser a mais aproveitada, foi buscar as tripas da burra pra fazer a chouriçada. 

O Ti Manuel do Bento passou e disse bom dia, ofereceram-lhe carne da burra mas a Luisinha num na cria. 

A Glória do Machado assim que soube desatou a chorar, não sabia s'ia à carne ou continuava a costurar. 

A Senhorinha do Canas por ser a mais asada, disse que não comia mais carne porque já estava corada. 

 

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Reza a lenda que D. Nuno Álvares Pereira recrutou e levou 12 homens do Lugar da Póvoa consigo para a batalha de Aljubarrota, na qual só um deles retornou, chamado Delgado. 

 

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Outra curiosidade, numa região de monte entre a Póvoa e Reboreda chamada de 'Brangadoiro' foi onde D. Nuno reuniu e treinou as suas tropas recrutadas nestas terras, para depois partirem para Aljubarrota.


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Uma outra lenda antiga dos Mouros, sobre os castelos da Póvoa (região mais alta do lugar situada na floresta) diziam os antigos que eles se tinham estabelecido e abrigado temporariamente nesse local, abrigando-se debaixo das fendas das rochas. Nessa altura provavelmente ainda não haveria a aldeia e usavam um sítio chamado de 'Cabeço do Toijo' como miradouro para o vale do Lugar da Póvoa que se estende até Salto. 

 

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Mesmo sendo a Póvoa uma pequena aldeia, pela certa que fica ainda muito por dizer, mas já fica alguma coisa. Mais uma vez quero agradecer ao Vítor Bruno pelos dados e estória que me enviou, que sem qualquer dúvida enriqueceram o post de hoje. E ficamos por aqui, mas antes ainda deixamos, como sempre, as referências às nossas consultas. Quanto aos links para as anteriores abordagens às aldeias e temas de Barroso, estão na barra lateral deste blog. Se a sua aldeia ou a aldeia que procura não está na listagem, é porque ainda não passou por aqui, mas em breve passará. Mas há mais, as aldeias de Barroso também passaram a estar no menu do topo do blog, onde diz “Barroso”.

 

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BIBLIOGRAFIA

 

BAPTISTA, José Dias, Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso, 2014

 

WEBGRAFIA

 

- Póvoa in Dicionário infopédia de Toponímia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2018. [consult. 2018-05-06 21:39:02]. Disponível na Internet: 

https://www.infopedia.pt/dicionarios/toponimia/Póvoa

 

- "póvoa", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013,

 https://www.priberam.pt/dlpo/p%C3%B3voa [consultado em 06-05-2018].

 

http://cacia.pt/toponimia/

 

 

 

 

 

[i] Esta dos módulos é uma definição minha, pois nunca a vi descrita por outros, e chamo em módulo a cada espaço com painel ripado de madeira entre pilares de pedra, módulo este que sem medida definida são maioritariamente de medidas semelhantes. Ou seja, um módulo terá um ripado de madeira e dois pilares em granito em cada alçado lateral, um na frente e outro no fim do canastro. Dois módulos são dois conjuntos de ripado e três pilares, 3 módulos são três ripados de madeira e 4 pilares em granito e por aí fora. Os maiores que vi, no Barroso, chegam a ter 8 módulos (há um em Vila da Ponte, por exemplo).

 

 

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