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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

21
Mai15

O Factor Humano


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Anuncia-se a construção de novas barragens.

Faço parte do grupo dos que estão frontalmente contra.

Aproxima-se um novo acampamento no rio Mente.

Estou completamente a favor.

 

Há muitos anos, falou-se de uma barragem no rio Mente, numa zona que afectaria o sítio onde costumávamos acampar e pescar.

Nessa altura, escrevi um texto com a ambição, até hoje não concretizada, de ser transformado em livro. Reencontrei-o recentemente e achei que fazia sentido a publicação neste blogue.

 

Prólogo (ou epílogo)

Pela primeira vez sentia-se impotente para aguentar toda a tensão acumulada. Ao fim de horas de voltas e revoltas no travesseiro, levantou-se, desceu a escada e entrou na cozinha. Encheu um copo de água fresca e tomou o primeiro indutor de sono da sua vida. Aliás, por mor das dúvidas, tomou dois.

 

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Capitulo I

As águas subiam lentamente e tinham já começado a engolir as ruinas da casa do João Moleiro. Primeiro cada degrau, de baixo para cima, talvez ainda mais lentamente do que o fazia a tia Marquinhas, quando os pés, pesados como o vinho, insistiam em desajudar na subida. (vistas à distância, pareciam gaguejar numa ironia triste)

 

Finalmente entraram pela grossa frincha debaixo da porta e foram céleres apagar as cinzas geladas da lareira. Mas quando tentaram sair pela varanda, aquela de onde quase se podia pescar, encontraram-se com outras águas que, chegando atrasadas, tinham atalhado por esta entrada. Na casa, de tão pobre e há tanto abandonada, nada havia para ficar a flutuar. Só as cinzas que rapidamente se dissolveram.

 

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Capitulo II

Mas não foi a conquista da casa de João Moleiro que deteve a ambição das águas. Antes disso ainda, tinham-se dividido em dois grupos que julgavam que jamais se voltariam a encontrar, dado conhecerem mal a orografia do terreno. O primeiro, menos ambicioso, atacou o leito do Mousse e dois dias depois invadia a capela do São Gonçalo. A apatia de todos era tanta, que o Santo de madeira foi boiando até ao tecto da capela por cima da porta, sem nunca se aproximar do Cristo, igualmente de madeira, que também ficou comprimido contra as telhas, boca abaixo e sentindo como nunca o peso da cruz. O outro movimento das águas, de mais fôlego, foi desmentindo o nosso rio, sem piedade. Calculámos que demoraria um mês a chegar à cabana. Era o tempo que tínhamos para as despedidas; seria como um lento suicídio, à medida que as águas iam engolindo o seu rio, que era a nossa vida. O retorno das águas na busca das nascentes pode ser também uma coisa muito triste.

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Capitulo III

 

Faltavam poucos dias para o fim das férias da Páscoa. Na altura eramos só quatro e ainda hoje nos parece impossível como coubemos todos no Volkswagen cinzento: nós, as tendas e as roupas, o pote, as comidas, as bebidas, as botas, as canas e os cacifos. Estávamos em oitenta e sete, éramos todos estudantes e solteiros e ainda coube um baralho de cartas.

 

Dizem que a primeira vez é sempre a melhor; de qualquer maneira aquele primeiro acampamento para pescar foi muito bom. Fazíamos equipas de dois, uns pescavam menos tempo e cozinhavam, os outros pescavam mais tempo e depois lavavam a loiça. O vinho acabou depressa, porque só cabia um “petroleiro” no carro do povo, como nós então lhe chamávamos. Na pesca houve uma vitória tangencial do pescador mais combativo. Nas cartas a conversa foi outra, até porque a sueca é jogo de dois. Foi o único acampamento em que apareceu uma mulher. Vinha em missão de paz, trazia um pão centeio, um salpicão real e outro “petroleiro”. A Dona A. nunca soube que foi a única mulher a ir a um dos nossos acampamentos. Na altura salvou-nos da sede e não sei se alguma vez lhe agradecemos devidamente.

 

Julgo que ficámos duas noites. Nessa época, a vinha de Pejas ainda era trabalhada e não me recordo se foi nesse acampamento, ou melhor no fim dele, que visitámos o velho M.A.. Também não tenho a certeza se o vinho que nos deu, tinha origem nessa vinha. Aliás, na altura já era vinagre e mesmo assim conseguimos tragá-lo com um sorriso.

 

Com um estranho efeito dominó, todos casámos em poucos meses e durante quatro ou cinco anos não houve mais acampamentos. O Volkswagen desapareceu, a vinha de Pejas começou a morrer e todos tivemos filhos.

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Capitulo IV

 

Os anos sem acampamentos serão por nós recordados por isso mesmo. Para o resto do mundo, foi o tempo da Perestroika, da queda do muro de Berlim, do fim da História. Não sei se foi só por isso que nos voltou uma imperiosa necessidade de nos juntarmos novamente; nem ninguém está certo de quem partiu a ideia de voltar a Pejas. O que recordo é que o Luís foi eleito presidente e mais tarde quando foi bom ampliar o grupo, ficou bem estabelecido que havia um núcleo duro inicial.

 

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Capitulo V

 

Estava terminado o trabalho de equipa, os outros dois afastaram-se e ele ficou sozinho a empurrar a pequena esfera na direcção da toca, para guarda-la junto com todas as outras. Todos lhe chamavam o escaravelho da caca e ninguém sabia o seu verdadeiro nome.

 

Concentrado no esforço, não se apercebeu da chegada das águas. Uma primeira onda separou-o do seu troféu e ficaram os dois a flutuar naquela zona de transição que se movia lenta e implacavelmente à medida que a as águas iam sepultando tudo. Depois misturaram-se com o pó, as palhinhas do restolho e até com um grupo de processionárias. A pequena esfera dissolveu-se pouco a pouco, mas o cadáver do escaravelho resistiu muitos dias, sempre em movimento na orla da barragem em expansão.

 

Manuel Cunha

 

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