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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

O Factor Humano

16.06.17 | Fer.Ribeiro

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10 contos de reis - sem notas - 6

 

Não tinha sido feliz com o marido. Todo o encanto tinha terminado com o casamento. Não sentia mais afectos, nenhuma ternura, ausência de alegria em comum. Afastamento progressivo, até do ponto de vista físico. Mal se tocavam, excepto nas escassas vezes que acasalavam. Os beijos tinham secado. Às vezes chegava lhe quase uma repulsa.

 

Cedo percebeu que ele mantinha relacionamentos extraconjugais. No fundo, pouco lhe importava. Até agradeceu a redução, até à extinção, dos seus acasalamentos.

 

Nunca lhe tinha batido, mas a violência psíquica era crescente. Desprezo, críticas constantes, desconsiderações de cada uma das suas qualidades.

 

Nasceu nela também o ódio, silencioso, quase clandestino. Deu por si a desejar a sua morte, vendo nela a única hipótese de ser livre.

 

Naqueles tempos, ainda para mais naquela ilha, o divórcio era, para as mulheres, uma proscrição. Naquelas mentalidades, quase se confundia a divorciada com uma espécie de prostituta, em especial nas famílias pobres e humildes. Divórcio só era aceitável para uma mulher rica, das boas famílias. A essas tudo era tolerado, pelo menos nas aparências.

 

Fui construindo uma relação mais pessoal ao longo das sucessivas consultas, a que a sua doença crónica obrigava. A diferença de idades permitia-lhe abrir-se mais comigo.

 

O marido nunca esteve presente, nem quando ela foi internada por uma tentativa grave de suicídio.

 

Um dia, ao marido, foi-lhe diagnosticado um tumor avançado do esófago. Escassas perspectivas, rápida degradação.

 

A Dona A. expunha as suas perplexidades: "Sabe doutor, não sinto pena nenhuma dele, mesmo sendo ele o pai dos meus filhos".

 

Expliquei-lhe que tal era humano e natural, que não tinha de se sentir culpada de nada. Ficou mais tranquila. Depois da morte do marido, confessou-me sentir alivio.

 

Posteriormente, ficou apreensiva pela tristeza de uma das filhas, atingida fortemente pela morte do pai. Apesar dos maus tratos deste se estenderem também aos filhos, esta tinha conseguido um pouco mais de proximidade com ele. A tristeza dela foi-se agravando, angustiando a mãe, que se sentia revoltada, porque o marido mesmo depois de morto, lhe prejudicava a vida.

 

A senhora A. sentia-se finalmente livre mas suspeitava que, na tristeza da filha, estava envolvido o "espírito do marido": " Tinha encostado".

 

Sentindo-se liberta e com coragem, foi pela primeira vez visitar a campa do marido. Encontrando-se a sós, ordenou-lhe que desencosta-se da filha, porque senão ela excomungava-o. Quando me estava a confidenciar isto, disse de uma forma original: " Oh senhor doutor, que eu nem sei como é que se excomunga um morto. Mas ... de certeza que está na Internet!"

 

Tanto quanto sei, a filha vive hoje feliz.

Manuel Cunha (Pité)