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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

O Factor Humano

18.08.17 | Fer.Ribeiro

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10 contos de reis – sem notas - 8

 

" Sabe doutor, tive hoje uma óptima notícia, disseram-me que posso morrer aqui." contou-me, ao mesmo tempo que me sorria com uma tristeza serena  ", não imagina como é importante sabermos que temos um sítio  onde morrer", concluiu.

 

Não era habitual a abordagem este tema entre um doente e o seu médico, enfrentando uma questão que se  tornou  tabu, a da morte, na sua envolvência concreta.

 

M. foi um dos poucos doentes que consultei no seu domicílio, em respeito à sua idade muito avançada e às suas dificuldades em deslocar-se.

 

Vivia numa espécie de residência, com quartos individuais, quase um hotel. Serviam-lhe as refeições no quarto, no início numa pequena mesa , em frente a uma estante recheada de bons livros e algumas fotografias que documentavam  os dias de glória. Mais tarde, já numa engenhosa mesa que lhe colocavam no leito, facilitando -lhe uma refeição que era um dos poucos prazeres que lhe restavam, sempre acompanhada por uma modesta dose do melhor vinho generoso.

 

A posição da cama era estratégica , mesmo defronte à janela. Quando visitara pela primeira vez o local, tinha logo seleccionado esse quarto, exactamente por isso. Através dessa janela, mesmo deitado, viam-se as traseiras da rua principal. Uma canelha estreita e degradada, ladeada à esquerda pelas retaguardas pobres das velhas casa da rua direita da vila.

 

"Daqui posso olhar, mesmo que só veja duas velhas janelas , já sem vidros, as ruínas daquela varanda vermelha e restos de telhados desdentados. Às vezes senta-se lá um gato a lamber as patas e a apanhar sol. Em raras ocasiões pousa uma pomba. São os meus únicos contactos com a vida lá de fora", disse-me na última visita antes de ser internado no hospital, levado pelo INEM.

 

Como a maioria dos portugueses nos tempos actuais, lá morreu, sozinho, sem pomba nem gato.

 

Afinal foi esse o seu sítio para morrer.

 

Manuel Cunha ( pité)