O Factor Humano - A luz dos museus

A luz dos museus
Os dias em Portugal correm pesados. O processo de empobrecimento vai-se aprofundando e, infelizmente, parece ter vindo para ficar.
O interior do país já vinha a sentir os efeitos deste processo há muito tempo. Despovoamento como consequência da migração para o litoral e da diminuição da natalidade. Incapacidade de fixar população: não ficam os que estão e muito poucos se sentem atraídos para vir. Encerramento de serviços, desde a extinção de freguesias até ao fim das escolas básicas. Afastamento dos cuidados de saúde e, mais recentemente, desqualificação e encerramento de tribunais. Todo o peso da extinção de postos dos CTT, em especial para os mais idosos.
Mais recentemente a emigração, por falta de emprego, mas também por falta de condições de trabalho, péssimos salários, pouca dignidade para quem trabalha por conta de outrem.

É neste pano de fundo tão sombrio, que surgem em Chaves duas novidades. A primeira, enterrada há quase dois mil anos, confirma a importância da cidade, das suas águas e da sua posição geográfica, já no tempo dos romanos. Fiz recentemente uma visita inicial aos balneários romanos, postos à luz do dia, no “Arrabalde” da nossa cidade. Grandiosos, harmoniosos, engenhosos e de uma modernidade que perturba. Constituem um desafio para todos nós, em especial para os responsáveis autárquicos. Tem sido desenvolvido um importante trabalho arqueológico e científico, com vista a identificar, catalogar, preservar e expor aquele que é também um nosso património. A importância deste achado pode obrigar, talvez, a um envolvimento internacional alargado, que permita optimizar todo o potencial que temos à nossa disposição.
Permito-me não estar satisfeito com a solução arquitectónica encontrada. Parece-me pobre em imaginação e em enquadramento com o ambiente que a rodeia. Tanta delicadeza e beleza há dois mil anos e tão escassa capacidade de a envolver nos tempos actuais. Esta questão não é a essencial, mas deveria ter merecido uma atenção mais cuidada. No entanto, tal não invalida a importância da descoberta e o impacto que ela pode ter para o desenvolvimento da região.

A segunda novidade é o museu de arte contemporânea Nadir Afonso. A obra do arquitecto Siza Vieira, implanta-se nas proximidades do rio Tâmega e, tal como era de prever, ele não perdeu a oportunidade de a enquadrar com mestria. A mim, pareceu-me que está concebida privilegiando quem está dentro do museu. Nada foi deixado ao acaso. Atrevo-me a dizer que tudo é bonito. A luz, a madeira, os espaços, o mobiliário. Mas é nas vistas que o génio de Siza nos consegue emocionar. É possível olhar pelas várias janelas e só ver o que é bonito, em quadros sucessivos de paisagem. Se é fácil a solução para o lado do rio, tem que se fazer uma vénia à orientação das janelas que dão para a malha urbana. Tudo o que é feio na nossa cidade se torna invisível para quem olha. Parece magia, como se os mamarrachos das torres de apartamentos se eclipsassem. É bom poder agradecer a alguém, que nos ajuda a ver uma cidade mais bonita.

Posso dizer que tive o privilégio de visitar o futuro museu, ainda sem qualquer obra de arte do mestre Nadir. Percorri todas as áreas, sendo certo que muitas delas serão inacessíveis para o visitante comum, quando o museu for inaugurado. Também foi uma sorte ver o museu nu. Fica uma tentação grande de o ver recheado.
É certo que estes dois museus são uma luz nova para a cidade e para a região. Também é certo que, em conjunto e integrados no património da região, vão possibilitar um impulso cultural e turístico para Chaves.

Dito isto, é bom reafirmar que nem só de cultura e de turismo vive uma cidade ou uma região. Precisamos de pôr a região a produzir, nas suas capacidades e nas suas tradições. Temos de recuperar a nossa agricultura e associá-la a uma agro-indústria que possibilite o aproveitamento de todo o nosso potencial. Só assim nos poderemos orgulhar da luz dos nossos museus.
Manuel Cunha (Pité)


