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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

16
Jan14

O Homem Sem Memória - 186

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

186- Com a difusão do panfleto, a raiva e a revoltam cresceram. O José transformou-se num dos mais revolucionários anticomunistas de que há memória no país. E fazia-o com calma e descontração, muito ao modo dos alentejanos.

 

Entretanto, a UCP passou a ser a principal tapada de caça dos camaradas dirigentes. Os políticos, vá-se lá saber porquê, gostam muito de caçar. Sentem-se bem de arma na mão a disparar sobre bichos assustados. Isso dá-lhes prazer. E também gostam de exibir os seus troféus de caça.

 

Curioso é que cada um dos camaradas dirigentes caçava de acordo com a sua posição na estrutura partidária. Parecia milagre, mas cada um abatia caça conforme a sua posição na hierarquia. Os membros indistintos do Comité Central nunca conseguiam caçar mais ou sequer o mesmo número de peças de caça do que, por exemplo, um membro do secretariado ou da comissão política. Tudo ali estava devidamente controlado. Muitos animais vinham expressamente de outros lados do país para satisfazer os caprichos predadores dos chefes comunistas.

 

O quartel-general, se assim podemos dizer, situava-se numa casa isolada que serviu também de pouso e ponto de apoio ao antigo presidente da República Américo Tomás e até ao rei D. Carlos, quando iam para o Alentejo caçar perdizes, coelhos e javalis. Os símbolos e os vícios do poder são eternos.

 

O José, por muito porfiar e também por muito ver, ouvir e calar, conseguiu que o nomeassem coordenador do campo de caça. E ele levou a nomeação a peito. Conseguiu em pouco tempo organizar uma coutada que era o orgulho do Partido e, sobretudo, do camarada capataz. A opinião sobre a UCP passou a ser tão favorável que o dirigente da UCP já se via como membro do Comité Central ou mesmo ministro da Agricultura. O José passou de inimigo encoberto a amigo declarado.

 

A produção agrícola de cereais podia ser medíocre mas a caça proliferava a olhos vistos. Os fins-de-semana na herdade do camarada capataz passaram a ser cobiçados e até motivo de disputas e invejas. Um convite do camarada Alberto Punhal para o acompanharem na caça era sinónimo de apreço e de futura promoção partidária e social. Era também na UCP onde o Partido recebia os camaradas dirigentes estrangeiros de visita ao país. Aquilo tornou-se viciante. Os camaradas dirigentes, cansados das tarefas partidárias e políticas, tudo faziam para receberem um convite do camarada secretário-geral. Os candidatos eram muitos, mas os eleitos eram poucos.

 

Está claro que o José se tornou íntimo de muitos dos comunistas mais importantes da República Popular do Sul. Ele era afável, modesto e extremamente eficiente. Conseguia até programar o número de peças de caça que cada um imaginava caçar e mesmo os seus animais preferidos. Dava-lhes indicações sobre onde ir, que montes escolher, as armas que deviam escolher, os cartuchos mais apropriados, as rotas mais agradáveis e os sítios onde podiam encontrar-se com Alberto Punhal sem serem anunciados. De uma coisa sabiam todos os que paravam na herdade, era expressamente proibido falar de política durante as caçadas. Ali ou se estava calado, ou se falava do tempo ou da caça.

 

O camarada Alberto Punhal gostava de caçar um pouco de tudo. E até possuía boa pontaria e uma eficaz rapidez no manuseio da arma. O que tinha aprendido na Guerra Civil de Espanha ainda lhe era útil. Mas a sua caça predileta era ao javali. Dizia, com um sorriso nos lábios, que os javalis se assemelhavam muito aos reacionários, na sua força bruta, no seu primarismo e na sua mais absoluta insensibilidade. Comiam de tudo, chafurdavam na terra e tinham especial apetência por se banharem na lama. O seu focinho trazia-lhe sempre à memória os rostos adiposos dos burgueses com os seus dentes afiados como facas sempre prontos a alimentaram-se da carne e do sangue dos proletários.

 

Comentava com os seus convidados que matar aves e roedores era uma forma de arte rápida e instintiva. Já matar javalis era telúrico. Fazia-o sentir-se como os homens primitivos em busca do sustento para a família. Matar caça pequena era um ato individual, quase burguês. Já matar javalis era um ato comunista, pois exigia organização, trabalho coletivo, coragem e decisão no momento do disparo. Um javali ferido é um animal perigosíssimo. Até nesse aspeto é parecido com os burgueses e os capitalistas, pois quando estão feridos e desesperados tornam-se extremamente perigosos.

 

“Quando abato um javali é como se tivesse aniquilado um fascista. Aprecio matar javalis, mas não os consigo comer. Agonio-me só de sentir o cheiro da sua carne a cozinhar. No entanto, apesar de matar perdizes e coelhos com uma certa indiferença, aprecio comer a sua carne”, verbalizou o camarada Punhal.

 

O José acompanhava sempre o camarada secretário-geral nas suas jornadas de caça. Era o seu melhor confidente. Ouvia e calava. Um dia Alberto Punhal perguntou-lhe se era mudo. Ele respondeu que era apenas educado. Punhal riu-se e entregou-lhe uma arma novinha em folha de fabrico soviético. O José agradeceu mas disse que não apreciava disparar sobre animais indefesos. Punhal disse-lhe que então atirasse às árvores. E, já que era educado, que ficasse com a arma. Ninguém, e muito menos um comunista da envergadura de Alberto Punhal, gosta de ser criticado por ter o vício burguês da caça. José, vendo-se mais uma vez traído pela sinceridade, deu de repente volta ao texto e argumentou com a realidade. “Bem, camarada Punhal, a verdade é que estou determinantemente proibido de tocar em armas, especialmente de caça.” “E quem te proibiu?” “O camarada capataz.” “E porquê?” “Pois porque sou um preso político.” “De direita ou de esquerda.” “Sou um antigo militante do Norte condenado a uma pena de reeducação.” “Ainda és comunista?” “Gostaria de ser mas está visto que não consigo.” “Tu és esperto. Mas neste mundo ou se caça ou se é caçado.”

 

 

O camarada Alberto Punhal acabou com a conversa no preciso momento em que uma perdiz apareceu no radar dos seus olhos. Foi tiro e queda. O José, para desviar as atenções, correu no encalço da ave, conseguindo mesmo chegar primeiro do que o cão perdigueiro.

 

187 – Quando o José entregou a peça de caça ao camarada Punhal pensou seriamente...

 

(continua)

 

 

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