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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

10
Mar18

Ocasionais

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Filosofia das Couves no Liceu Fernão Magalhães

 

Em 1984, quando fui para o 10º ano do liceu, disseram-me que ia ter uma disciplina muito interessante onde iria aprender a pensar e ganhar conhecimentos fascinantes. Fiquei desconfiado! Para mim, pensar é como respirar, um gajo está sempre a pensar, é uma coisa natural, até em sonhos. Ir aprender a pensar era como se alguém me dissesse que agora ia aprender a respirar... Pessoas que me dizem cenas destas, mando-as logo para o carvalho (Carvalho sem letra V, entenda-se). Lá fui, curioso e ainda com expectativas positivas. Achei a professora uma generala. Rígida, ríspida, e com um vocabulário demasiado erudito para um parolo de Boticas, que achava um disparate haver três palavras para dizer a mesma coisa. Recusei sempre usar a palavra “algibeira” depois de ter aprendido que era “bolso”, essa chegava-me bem, era estranho haver duas, um desperdício. Comigo, os dicionários iam para um quarto da grossura e o alfabeto ia para 15 letras. Começamos a aprender filosofia com coisas dos gregos antigos, uns primitivos que pensavam que as coisas resultavam duma mistura dos 4 elementos: terra, ar, fogo e água. Disse cá para mim “É isto que vamos aprender?! Andamos a gastar tempo a aprender físico-química, já sabemos como são as coisas, os átomos e as moléculas, e agora temos que perder tempo com estes chanfrados? Se vamos perder tempo com todos os burros como estes, não saímos do sítio. Quem é o tolo que não sabe que se se misturar água e terra, só dá lama? Água apaga o fogo, nada mais, não dá ouro nem prata”. Durante todo o ano, achei que só aprendemos disparates, no final nem sabia que só sabia que nada sabia daquilo. Detestei a disciplina, tirei várias negativas, e no final do ano fiquei espantado de passar com 10. Eu mal percebia as perguntas dos testes, ainda menos as de desenvolvimento, sobre assuntos como os 4 elementos, que sabia não haver nada para desenvolver.

 

No 11º, fui de pé atrás mas animei-me ao saber que íamos dar filosofia moderna. O profe era o Couves, um profe mais simpático. Começámos com o grande Descartes e com a genial descoberta dele “Penso, logo existo”. Cogitei imediatamente “Ó que carvalho, olha que novidade, se estivesses morto é que podias ter a certeza que não pensavas! Isto é alguma merda?! Isto é alguma novidade, alguma descoberta?! Vou ter que aturar mais merdas destas durante um ano?!”. Fiquei desanimado e quando descobri que o Couves não se importava com o tempo que os alunos passavam no WC, decorridos 5 minutos das aulas, pedia para sair e nunca mais lá punha os pés, em quase todas as aulas. No primeiro teste, tirei o caderno para cima da carteira para ver se copiava alguma frase que encaixasse com as perguntas que mal compreendia. O Couves era muito distraído, passava ao lado e nada, resolvi tirar também o livro. Na altura, achava que copiar não era desonesto, antes mostrava coragem e inteligência, porque eramos nós contra eles, quem não copiassem era porque não tinha habilidade ou era cagão. Quando foi da entrega dos testes, o Couves mandava-nos ao quadro para ler os testes enquanto ia pontuando as respostas. Nunca tinha visto tal! Tive nega mas fiz uma descoberta espectacular. Nos testes seguintes, já não copiei, escrevia algo. Depois, fazia o teste em casa e levava-o dentro do casaco quando ia lê-lo ao quadro. Com o Couves, trocar um teste pelo outro era de caras para um copiador de primeira classe como eu. Sabeis que nota tirei no final do ano? 18 ou 19?! Chamemos-lhe assim: um espantoso e honesto 11.

 

(O escrevinhador escreve segundo o velho e o novo acordo ortográfico, conforme o gosto. Nada de estranho porque os dois acordos continuam por aí em vigor)

 

Luís de Boticas

 

 

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