Pecados e picardias
Prosmeiras
Era um tempo de maledicência
Da ousadia do moralismo
que se atrevia
A condenar sem perdão
a inocência
que escorregava
pelo abismo
como quem morria,
por detrás da janela
pelas nesgas da cortina,
a velha, sem ser velha, escurecia,
espreitava a desgraça
pra contar em surdina
às beatas doentes de bulimia
de engolir e vomitar dos outros, a chalaça…
de manhã sorrateiras
encontros na padaria
lançam farpas
à vizinha
com filha ainda solteira
aludem ao como foi
aludem ao como seria
desafinam em notas falsas
e rumores de coitadinha
terem visto
desde as trevas
e ou do estado de soneira
a rapariga manceba
em suspiros de rameira
nas escadas dando abebas
ao rapaz a quem se entrega…
nisto a vizinha enfadada
queima com olhar aceso
sai pela porta destrambelhada
chama à velha mal amada
à beata encalhada
a ambas invejosas e sedentas de peso..
olham-se ambas admiradas
mas que bicho lhe mordeu
querem lá ver que era ela nas escadas
para mais tarde dar cornadas
no marido camafeu?!…
Afiam a língua sem barreiras
Cumprimentam de vénia, as prosmeiras…
Isabel Seixas



