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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Pecados e Picardias

04.09.16 | Fer.Ribeiro

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À Boleia

 

Sabe menina…

Gostava de lhe contar uma passagem…

 

Eu precisava de ir à cidade naquele dia e o meu vizinho que tem carro passou por mim na estrada como se eu fosse um cão, sabe fez de conta que não me viu e olhe naquele tempo não havia quase caminetes  de modo que lá fui, naquele dia, sabe, fez-me diferença, tinha-me dado jeito, oh e outros dias se seguiram na mesma e olhe que eu ando sempre limpo não ando a meter nojo a ninguém…

 

Eu trabalho umas terras ali prós lados do… e vai daí naquele dia ouço uns gemidos ,fui ver o que se passava lá num terreno perto vejo um homem debaixo de uma carroça quase sem sentidos ,ó menina o que eu lá puxei pro tirar, não havia por ali mais ninguém a égua tinha metido a carroça por um rego e torceu, caíram por ali abaixo, oh se não fosse eu passar por ali o homem ficava ali como um condenado, sabe menina?!Era o tal do meu vizinho que passava por mim como se eu fosse um cão, que nunca me via, olhe lá fiz das tripas coração e pronto lá o ajudei, isto para lhe dizer que somos uns pros outros, obrigado menina pela boleia , já me deu bem jeito, deus lho acrescente…

 

Onde é que a senhora quer ficar?

-Fico-me ali pelo hospital, hospital … é como é quem diz pelo matadouro, há lá cada um …

E as enfermeiras?...

-Bo, jeitosas também essas…

Afinal vou parar aqui.

-Olha-me esta, para me deixar aqui nem valia a pena ter parado, há cada douda, alguma enfermeira do matadouro cum carago…

 

Olhe eu cá não tenho queixa dos serviços de saúde, sempre me trataram muito bem, acho que há lá muito bons profissionais, já fui lá operado duas vezes e ando lá em tratamentos e em consultas, faz-nos muita falta o nosso hospital.

 

Não sei se o conhece ele é meio “esgroviado” tem a mania, daqueles que acham que todos lhe devem e ninguém lhes paga que não botam uma mão a ninguém, mas comigo sei lá bem porquê sempre teve consideração, guarda-me respeito, uma vez estava a ser malcriado chamei-o à atenção e foi por ali abaixo a falar sozinho, “escope-se” todo… sabe menina é o vinho…Pode-me deixar por aqui, vou à feira, obrigadinha.

 

Sabe ,  até que agora nem estou mal, nos tempos difíceis da minha infância  trabalhava muito e o meu pai era um carrasco, batia-nos à lambada e ao pontapé e a minha mãe comeu o pão que o diabo amassou só … que sou sozinho desde que a minha mulher morreu, a gente sem uma mulher não é nada…se deus me levasse…inda há gente boa…

 

Isabel seixas