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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

18
Jan20

Pedra de Toque

pedra de toque copy.jpg

 

                        Um amigo, companheiro da noite em tempos idos, pediu-me para republicar este texto.

Faço-o com gosto.

 

 As criaturas da noite

 

Com neblina, geada ou frio de amolgar ossos, com breu, com céu limpo ou estrelado, luarenta ou cálida, a noite é poiso de homens e mulheres que por fascínio ou ofício protelam o sono, até ao branquear da aurora.

 

São as criaturas da noite.

 

Nela movimentam-se como se o dia raiasse em cada um dos seus passos.

 

Nas fábricas complementando as máquinas, nos jornais compondo e redigindo a notícia, nos hospitais vigiando a doença, nos quartéis expectantes face ao rastilho dos fogos.

 

Nas ruas, hoje motorizadamente, outrora palmilhando-as, os agentes da autoridade velam pelo sono tranquilo da maioria, defendem os legítimos direitos sobre os bens, sobre a propriedade de cada um.

 

Dantes, o polícia agasalhado no seu pesado sobretudo escuro, nas gélidas noites deste Inverno longo, era figura carismática que ornamentava a noite da cidade.

 

Taciturno, solitário, temido e respeitado no seu enfrentamento não só com intempérie, mas também com a marginalidade, era vê-lo sempre presente nas ruas e vielas.

 

As tabernas, depois os cafés, hoje mais os pubs ou as discotecas, são sítios da noite, lugares onde se sonha, onde se esquece, onde se bebe, onde o amor se espevita.

 

A noite é pretexto de conversas férteis, de diálogos lúcidos onde a imaginação se enamora da poesia na celebração dos grandes momentos da vida.

 

As descobertas, os mistérios, a magia, a aventura, o feitiço, o ódio, a amizade, o ciúme, o amor são companheiros prediletos da noite.

 

É de noite que normalmente se nasce.

 

É de noite que habitualmente se morre.

 

A saudade bate quási sempre de noite à porta do nosso peito.

 

Se a farra, o festim, o baile são atributos da noite, a solidão fere muito mais fundo quando a noite cai.

 

Por ela trespassa o vício – a euforia do álcool, o fumo que sobe à memória e as narinas expulsam, a droga que semeia flores que num ápice murcham em mentes atormentadas.

 

Para os doentes o pôr-do-sol é prenúncio de escuridão que espreita, do sofrimento, do tempo com horas em demasia.

 

Para os amantes, a noite é sempre uma vertigem imparável e doce até ao centro da terra.

 

Quando trabalho noite dentro, escutando o silêncio envolvente, passa-me pelos olhos o mar liso e infindo, reflectindo brilhante o luar, nas margens do equador quando fiz a longa viagem para o outro continente onde vi chitas exóticas envolvendo corpos de seda e sóis irreais em louvor à natureza.

Na cabeça arrumo no sótão mais distante os problemas dos outros e, refrescado pela brisa, caminho na noite em direcção à cama.

 

Antes de adormecer pego no genial Pessoa, mais precisamente no seu amigo Álvaro Campos, breviário de há muito na minha mesa-de-cabeceira.

 

E em tom de prece, pela milésima vez, releio algumas estrofes da sua ODE À NOITE.

 

Adormeço então em paz, sereno, com o mesmo sorriso interior que aflorava quando aconchegado colocava a cabeça no colo de minha mãe.

 

António Roque

 

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