Pedra de Toque - Azul cor de cântaro

Azul cor de cântaro
No fim da década de 40, a década em que pela primeira vez abri meus olhos, a cidade de Chaves, já prenhe de história, era uma cidade aprazível, bonita que o Tâmega alindava.
Em termos comerciais, era a grande metrópole transmontana.
Aqui geravam-se fortunas provenientes do volfrâmio, do contrabando (a fronteira aqui tão perto…) das termas (que já atraiam aquistas) e necessariamente do próspero comércio.
As pessoas conheciam-se bem, de tal sorte que, quando aparecia uma cara nova, a curiosidade procurava satisfazer-se com a pergunta: “A quem pertence?”.
Era sereno e tranquilo o dia-a-dia na Aquae Flaviae.
Os invernos rigorosos suportavam-se com a quentura das braseiras ou com a lenha a crepitar nas lareiras.
A telefonia e os folhetins, eram opção para muitos em horas de ócio.
Os verões tórridos pediam a aragem do rio e das suas margens.
As visitas nas noites frescas até ao jardim público, onde por vezes as bandas tocavam as melodias da moda, eram programa obrigatório.
Como sabem gosto imenso de revisitar o passado.
Por isso, aqui há tempos, decidi voltar à minha cidade dessa era.
Estávamos no início da primavera.
O tempo mantinha-se mais fresco do que morno.
Caminhar na rua já era, no entanto, agradável.
Desci a Rua de Santo António.
Os comerciantes atendiam os clientes nas suas lojas, medindo a metro as peças de fazenda ou vendendo seus produtos ao litro ou ao quilo.
Vi o Sr. Lopes (Casa Lopes) à porta de sua loja de modas e confecções.
Dizia-se que levou o nome da loja tão a sério que casou 3 vezes.
Entre o Geraldes e a Casa de São João, cirandava ladino o Sr. Lila, pessoa estimada, muito popular e futebolista exímio.
Ainda vi animais de porte descerem a rua a caminho da Madalena, devidamente conduzidos pelas varas de seus donos.
A Sra. Pássara dirigia a sua carroça transportando em bojudo bidão a água das termas para levar para banhos às pensões.
Cheguei por fim ao arrabalde e dirigi-me ao quiosque onde encontrei o Sr. Morais, já de idade proveta que, cumprimentei.
Comprei então o Século do dia anterior, o diário preferido da minha avó que chegava no comboio da noite e era distribuído porta a porta pelos ardinas.
Foi então que a vi.
Com um cântaro azul-turquesa à cabeça, vinha das Caldas, levando água quente muito utilizada nas casas para a limpeza e banhos semanais.
Muitas empregadas domésticas chamadas na época criadas de servir, equilibravam o cântaro, maneando-se até à casa dos patrões.
O azul vivo dos cântaros, pegou de tal maneira que quando se via algo com aquela cor se apelidava logo de “azul de cântaro”.
O meu primeiro automóvel, um Ford Escort era conhecido na cidade por ser dos primeiros automóveis aqui vistos com a cor azul de cântaro.
Mas retomemos a “aparição” da jovem que vislumbrei proveniente das Caldas.
Era uma moçoila que devia ter pouco mais de 20 anos.
Mas a maneira graciosa, realçando as suas formas trigueiras no equilíbrio do cântaro, retiveram o meu olhar.
Ela deu conta e apreciou devolvendo-me um sorriso bonito e tímido.
Não descansei até saber onde ela trabalhava.
Uns dias depois consegui falar-lhe.
Era linda. Sorria com um rosco todo iluminado pelos olhos vivos e uns dentes que pareciam pérolas brancas.
Disse-me que era de Ribeira de Oura, região das minhas origens paternas cujas aldeias e paisagens sempre admirei.
Das poucas vezes que pude namoriscá-la, sentia-a sensível, esperta e carinhosa. Ela sabia-se atraente pelas miradas dos jovens que a apreciavam.
Numa verbena, lá para o escurinho junto ao ribeiro, no jardim público ainda a usufrui num bolero que aceitou danças comigo.
Senti o requebro do seu corpo, o mesmo que lhe equilibrava o cântaro, ao som dos “Olhos castanhos” que no coreto os Pardais tocavam.
Vi-a mais tarde, na lameira do Canto do Rio, batendo e lavando a roupa com outras colegas que se fartavam de cantar para aliviarem mágoas.
Um dia, a Ângela, era assim que se chamava, desapareceu sem deixar rasto.
Não descansei até saber o que lhe acontecera.
Descobri que rumara à grande cidade, à capital luminosa, para servir em casa de gente abastada.
Nunca mais a vi.
Disseram-me também que não voltara à sua aldeia natal.
Deixou-me, contudo, uma recordação boa, uma saudade linda que permanece. Hoje lembrei-me dela ao ver o nosso Tâmega a fumegar junto às Termas, como a água do cântaro azul-turquesa que ela transportava à cabeça maneando-se esbelta pelas ruas da cidade.
Que esteja bem, seja onde for, e que jamais perca a elegância e o sorriso que lhe iluminava o rosto.
Daqui, em tom azul-turquesa, mando-lhe o beijo que, no vão da porta, esquiva e temerosa, sempre me negou.
Graças a ela, passei a gostar muito para o resto da vida do azul-turquesa, a cor de cântaro.
António Roque



