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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

22
Fev18

Pergaminho dobrado em dois

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Pergaminho dobrado em dois

 

CRÓNICA #1 – Segue-se as apresentações e a tal empatia.

 

         Parte de mim enche-se de uma repleta ansiedade de poder começar a escrever coisas no mínimo desinteressantes, outra parte não se deixa comover com tal oportunidade e vê-se numa espécie de guerra fria com um possível aviltamento público.

 

         É um começo giro e respeitável e desconhecido numa areia movediça da praia do politicamente correto. Temo não tributar qualquer atenção à linha que separa, alerto assim os leitores, mas qualquer infortúnio intelectual terá o mesmo apreço que qualquer livro do Dan Brown.  

 

         Sou natural do Porto, vivi o tempo certo em Lisboa, e cheguei a Chaves como obra do destino – é giro quando se é céptico a tudo, mas ainda se é refém disso. Na verdade, sou como o Keith Richards, “ apenas feliz por estar em qualquer lugar”, talvez seja essa a única verdade que efetivamente me interessa.

 

         Posso confessar – e obviamente estou ciente que nada do que possa dizer tenha qualquer valor para os leitores, mas mesmo assim arrisco – que sou um consumidor ávido de cinematografia muda ou tudo o que seja assinado pelo Woody Allen; musica jazz dos anos 20, ouçam Cole Porter e irão perceber o que vos falo; escritores pertencentes ao período dos anos 20: E. Hemingway, Scott Fitzgerald, Gertrude Stein, T.S.Eliot, Ezra Pound, Sherwood Anderson.. Gertrude Stein carimbava-os como sendo a geração perdida, designação essa devido à adolescência vivida no período da Primeira Guerra Mundial, e na vida adulta terem assistido ao período do Roaring Twenties até a Grande Depressão. É possivelmente a única época, relativamente à arte, que mais inveja me dá de não a ter podido experienciar. Pintores como Henri Matisse ou Picasso – dessa geração – ou Velasquez ou Caravaggio fazem com que talvez muita gente que habita o mesmo planeta ou respire o semelhante oxigénio que eu tenha a mesma importância que um pingo de chuva numa tempestade. E é devido a toda essa arte e a todos estes artistas que mais nada me surpreende na vida, e viver sem a esperança de ter alguma surpresa é um trago amargo, confesso. Ler, ver, e ouvir estas maravilhas faz-nos descer ao mais remoto lugar da vida. Somos tão pequenos e tão insignificantes.

 

         A minha estadia, efémera quanto a vida, em Chaves já dura quase quatro anos, e não há beleza que não deva ser contemplada em estilo grego quanto esta – ver com os olhos da alma. É-me impossível ser indiferente a esta cidade, por tudo o que me deu e por tudo aquilo que ainda, certamente, me vai dar.

 

         Vou ter muito tempo para falar do amor que sinto por esta cidade, e do amor que esta cidade me deu. Estou em falta para com ela, admito.

 

 

Deixo-vos umas recomendações culturais, no meu ponto de vista, mais ou menos egrégias:

 

- La casa de Papel: agora em exclusivo na Netflix e só tenho a dizer bem. Para além do trama maravilhoso, e umas pequenas falhas nos plot holes, uma crítica perspicaz à guerra de uma vida entre o Capitalismo e o Comunismo. Maravilhoso, recomendável e útil.

 

- Madame Bovary de Gustave Flaubert: Estou mesmo quase acabar e é das melhores coisas que já li. Fica assim porque não quero correr o risco de ser spoiler.

Herman JC

 

 

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