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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

20
Mai18

Pergaminho dobrado em dois

pergaminho.jpg

 

 

Qualquer bocadito acrescenta, declarou o rato, e fez chichi no mar.

 

 

Li, numa das crónicas do António Lobo Antunes, precisamente o que vem no título: “qualquer bocadito acrescenta, declarou o rato, e fez chichi no mar”, retirada de uma frase húngara.

 

Que bonita é a frase.

 

Eu vou fazendo exatamente o que o rato faz, acrescentar um bocadito que seja a cada palavra formando um plural de palavras que me vão levar da introdução à conclusão da crónica. Que me vão levar ao inicio e ao fim do livro. Que me vão levar do principio ao fim da vida.

 

E que magia tem a essa frase.

 

A cada bocadinho, a cada pequeno resto sou outro, sou alguém que nunca fui, descobrindo-me aos poucos, acabando por ser tão diferente daquilo que tinha sido durante uma vida.

 

O maior crime é uma pessoa de cinquenta anos cometer os mesmos erros que cometia quando tinha vinte, dizia o meu inteligentíssimo avô.

 

O pequeno sonho e ilusão e desconforto de ser jogador de futebol levou-me, e isto pode parecer paradoxal, a ter um amor gigante pela literatura. Muitas vezes encontrava-me a devorar livros para tentar compreender a maldade, a inveja, a hipocrisia, a ilusão, a ignorância em que vivia, para tentar encontrar uma explicação sobre a condição humana, tentar perceber como um miúdo de quinze anos tem um mar imenso de maldade incutida pela ferocidade do pai que despoleta no filho o seu sonho, o seu fracasso, que leva à destruição de sonhos de outros miúdos que desejam aquilo mais do que ele, de treinadores possuírem o mesmo quociente de inteligência de um marsupial não tendo competência para treinar ou serem chamados de treinadores, de serem do tamanho de uma pedra, de pais que fazem de tudo para que o filho seja “grande” para que depois vivam o êxito do mesmo em carros de luxo ou viagens à Grécia num belo iate a motor de cruzeiro com flybridge fechado e com casco de deslocamento só porque podem.

 

Esta lixeira toda fazia-me questionar sobre o meu futuro, sobre o sofrimento de um dia olhar para trás e perceber que fui absorvido por uma ilusão, de morrer vazio, então percebi que se fosse para sofrer, que sofresse perto das palavras, encontrei um conforto inesperado, um apego aos livros, que mudou a minha vida para sempre. Uma das coisas que aprendi, e quase nenhum jogador de futebol ou qualquer figura mediática, ou simplesmente alguém com muito dinheiro sabe é que somos mortais. Só isto, já valeu a pena trocar o barulho de um golo por um silêncio no papel.   

 

 

Camus fez o mesmo – foi guarda-redes – e talvez foi a minha inspiração durante muitos anos em continuar a lutar pelas duas coisas ao mesmo tempo. Iludia-me com esse facto, de que pudesse ser jogador de futebol e escritor em simultâneo, e continuava a chutar a bola e a defender as palavras. Um dia percebi que isso tinha que acabar, foi o dia em que conclui que estar perante as palavras me faz sentir alguém realizado, mesmo estando tudo por realizar, tudo por fazer, e a emoção de pisar uma relva, que foi sonho durante muitos anos, deixou de ter para mim o valor que tinha.

 

Escolhi as palavras para viver numa corda de lã

 

Nunca ninguém soube da minha vontade de escrever. Lembro-me de escrever poesia em papeis degradados e soltos na escola, depois rasgava-os antes que alguém os descobrisse, ou roubava a caneta de bico de pena do meu pai e escrevia uma dúzia de páginas que igualmente deitava ao lixo. Só há pouco tempo para cá é que comecei a ter coragem de revelar algumas coisas, sempre com uma vergonha imensa, porque escrever é pior que dar duas voltas ao mundo em pedais de ceda.

“Qualquer bocadito acrescenta, declarou o rato, e fez chichi no mar”

 

Eu digo: vou mijando, vou mijando.

 

 

Voltamos às recomendações culturais, no meu ponto de vista, mais ou menos egrégias:

 

- Livro – O Aroma de Goiaba, de Gabriel Garcia Márquez Um livro para quem gosta do oficio de escrever. Tudo sobre o autor do vertiginoso romance Cem Anos de Solidão.

 

- Cinema / Serie – Zelig, de Woody Allen  Um filme de 1983 que já tinha visto e voltei a revê-lo. Aconselho vivamente.

 

Herman JC

 

 

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