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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Pergaminho dobrado em dois

03.06.18 | Fer.Ribeiro

pergaminho-este.jpg

 

Ser tudo em papel.

 

Não sou disciplinado nem organizado. No fundo, a minha vida tem um aspeto de atelier de Francis Bacon. E de repente estou a escrever este texto que muitos lhe chamam crónica em cima da hora. Já o devia ter entregue e estou aqui. Escrevo sempre que me lembro que tenho um prazo. Escrever é levantar o braço para a solidão e dizer dança comigo. É girar todas as vezes que se começa trezentos e sessenta graus o comboio de corda. A disciplina incomoda-me, bloqueia-me como duas algemas de arame, prefiro escrever quando eu quiser às horas que quiser, isso acontece-me normalmente todos os dias por volta da meia-noite.

 

Escrevo sempre de noite, prefiro observar pela janela o silêncio amargo e lúgubre dos vaga-lumes e ouvir a noite escura de passos vagarosos como quem entra em casa de madrugada sem querer incomodar alguém do que o barulho ensurdecedor de uma cidade repleta de distrações. De dia leio de noite escrevo, é tudo. Escrever é um ofício trabalhoso, quem acha fácil é porque nunca tentou escrever uma linha. Escrever é sobretudo tentar chegar perto de Deus, entenda-se Deus como perfeição. Escrever é a definição de Sócrates sobre filosofia, é um treino de morrer e estar morto. Escrever é um ofício como outro, como servir dois copos de gin num bar ou construir uma casa de pedra algures no Ribatejo. Que a vaidade nunca suba à cabeça de quem escreve. A diferença entre um escritor e outra pessoa qualquer é não existir diferença, mas sim um degrau do mesmo tamanho onde a igualdade impera e um dia a existência cessa.

 

Sobre a dificuldade de escrever é muita. Dizem que Flaubert escrevia por vezes uma linha por dia, ou demorava um dia para escrever duas ou três palavras. É isso, se o homem que escreveu a maravilha Madame Bovary e a levou para junto da eternidade como podemos nós, comuns mortais, proferir qualquer tipo de afirmação que indique que escrever é ato de pura simplicidade.

 

Bukowsky dizia que escrever é uma brincadeira bastante engraçada, mas não só, faltava-lhe dizer que exige de quem escreve uma solidão pretendida e louca, onde à medida que o papel em branco se enche de contínuos desenhos, formando palavras que se convertem naquilo que queremos, encontra-se a felicidade. Nunca é fácil transformar o nada em algo que a gente pretende logo à primeira. Todos os grandes escritores possuíam um caixote do lixo gigantesco. Gabriel García Marques, no seu livro autobiográfico, O Aroma de Goiaba, no qual pouca gente conhece, dizia que gastava no mínimo quinhentas folhas por dia, Lobo Antunes afirmava que para se escrever uma página tinha que se eliminar outras tantas, Hemingway, numa entrevista à Paris Review, contou que para escrever a última página do seu livro, Adeus às Armas, reescreveu trinta e nove vezes, Mário Sérgio Cortella filósofo, professor e escritor brasileiro disse um dia que para escrever os seus trinta e poucos livros teve que ler mais de dois mil, riscar outros tantos. Na casa de um escritor existem mil livros escritos e dois publicados.

 

Em tempos, quando estudava em Lisboa, um professor de Desenho perguntou-me o que afinal queria ser

 

- Quero ser tudo, professor

 

Tal era a minha inocência que ainda hoje responder-lhe-ia igual.

 

Herman JC