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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Pergaminho dobrado em dois

10.06.18 | Fer.Ribeiro

pergaminho

 

Pouco mais, pouco menos, pouco muito.

 

Faltam aproximadamente sete dias e... Antes disso deixem-me dizer... O Homem é um animal muito parecido com a barata em que a única diferença é o poder que tem em olhá-la de cima, digo isto porque é verdade, porque vejo o meu planeta inundado por humanos avarentos de sentimentos lúgubres, vejo o erro que é ser-se Homem. Isto não foi feito para nós, a terra a água as flores os animais.

 

Faltam aproximadamente sete dias e algumas horas e uma sucessão de minutos conturbados para voltar a encontrar-me de novo, para cortar a meta com os abraços apontados para Deus, e isso é só um bocadinho para as horas de sono perdidas, as dores de cabeça, a barriga doente, o desespero sem pausa.

 

Acredito que posso conseguir porque não me deixei dormir até tarde nem adormeci a meio, talvez consiga, é a única coisa que posso garantir. As estrelas continuam sempre no mesmo lugar a olhar para mim com uma esperança nos olhos como nunca vi e eu não as quero desapontar, nem às paredes mudas do meu quarto que me vigilavam noites a fio, nem à mesa de madeira velha que sustenta o computador no qual escrevo estas palavras que precisam de ser ditas. O homem é um tanto cobarde quando enfrentado pelo desespero de uma eventual falha própria, reage mal com o insucesso, não percebe que falhar é fundamental na existência, e vencer, porra, vencer é falhar devagarinho e bem, tentar outra vez falhar outra vez falhar melhor, dizia Beckett. A vida é uma falha constante, vejo isto porque rasgo sempre os primeiros parágrafos quando escrevo, porque é assim, porque faz parte, porque reescrever, porque voltar de novo, porque regressar, porque não desistir é viver, é beliscar na pele de galinha e sofrer a dor, estou vivo que bom.  Volta e meia a gente percebe que estamos a viver numa corda segura, num amparo de algodão macio, e uns continuam por lá porque se perderam ou porque a segurança é superior à felicidade outros saem fora e procuram a felicidade como forma de nunca estar seguro, eu saio, saio sempre que posso, porque ignorar a segurança é correr floresta fora, é caminhar com dois amigos até o sol se pôr, é ser-se livre e gritar numa euforia semelhante a um quadro de Munch.

 

Eu sempre fui um camaleão disposto a adquirir todas as cores, não as quero todas por enquanto, estou a conseguir ser o que quero aos poucos, ler tudo, impossível, mas ler o bastante Dante, Hamsun, Homero, Niezsche, outros tantos ouvir Bach, Debussy, Chopin, Sinatra, Einaudi e ver, testemunhar, e fitar o possível e o impossível, ao vivo e a cores, quadros de Velasquez, Caravaggio, Monet, não obstante será que uma vida é suficiente para dar o uso completo dos nossos sentidos, entretanto acabo Lobo Antunes e sigo para norte.

 

A vida é muito curta para ser pequena, dizia Benjamin Disraeli, e dizia tão sabiamente como o sol sabe que a função dele é iluminar o coração mais enfermo, eu quero continuar a querer continuar, a perceber que não sou nada, nem a querer ser nada e a ter todos os sonhos do mundo, abraçando agora a saudade e a esperança num golpe de asas sem contar.

 

O jardim recheado de flores lá fora está tão bonito, embora esteja escuro e a luz do candeeiro continue a iluminar o suficiente para que da janela as possa ver sorrir, brotando umas morrendo outras, que espelho da humanidade, somos tão parecidos com as flores, terrivelmente frágeis.

 

O dia está prestes a chegar, tenho medo mas continuo a querer isso mais do que tudo e depois desapareço por uns tempos, vou festejar beber uns copos libertar-me desta droga, vício ou lá como se chama, uns dizem monotonia outros acomodação, não importa, vou livrar-me disto, vou fazê-la desaparecer como as horas de trabalho, as conversas inúteis, o boa tarde e o adeus volte sempre e agora estas palavras, palavras estas de uma elegância voluptuosa, observem observem observ... obse... obs... ob... o...

 

Herman JC