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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Pergaminho dobrado em dois

01.07.18 | Fer.Ribeiro

pergaminho

 

Agora que me perguntam...

 

A ideia de morrer e de mudar de residência para o céu assusta-me muito mais do que morrer e não existir para sempre. É-me insuportável saber que depois da minha morte vou reaver os putos da minha turma do primeiro ao sexto ano ou só de imaginar que todas as minhas ex-namoradas agora são santas e possuem duas asas brancas de flanela, isso aflige-me tanto como quando acabado de acordar projeto o meu mindinho na esquina da cama. A morte tem hálito de Facebook e gonorreia de Instagram. Quando morrer, quero mesmo morrer, não quero morrer a brincar.

 

A morte em si, a verdadeira morte, assusta-me um bocadinho. Tem aparência de Betty Grafstein e música de Marial Leal.

 

A morte parece que anda sempre de olho em mim, durante a noite ainda cedo, antes de chegar a casa, vejo-a sempre numa janela do sétimo andar direito. Desculpem, erro meu, afinal é dona Clotilde. A morte levou toda a sua família e esqueceu-se dela. Faz amanhã o seu nonagésimo novo aniversário, e nada. A morte quase se esquecia também de Manoel de Oliveira e possivelmente – faço votos para que isso aconteça – se esqueça de mim. Nem que vá a Fátima a pé. Agora que estou a ver, essa ideia parece machucar um bocadinho e é só estúpida para quem não mora a menos de cinco metros de Fátima. É isso, dou três voltas de joelhos ao santuário enquanto salto à corda com um fio de lã. Não, esqueçam. Essas pessoas que fazem isso também pensam que quando morrerem subirão ao céu e vão estar a vigiar-nos como se fossem a raposa Swiper ou como se tudo isto fosse um espetáculo de títeres, enquanto comem pão e sardinhas na companhia de tipos com asas e sem género. Uma vez falei para um que não tinha asas nem género, pensando eu que tudo o que acreditava até então não passaria de um irremediável erro, mas vim a comprovar que afinal se tratava de uma figura tão carismática no mundo dos vivos, José Castelo Branco. Não me enganam mais. Patifes.

 

Se ainda assim não estiverem convencidos de como é a morte, pensem naquele miúdo do décimo segundo ano que só tem boas notas e só aos quarenta e três quando deparado com um poster da Juliana Paes é que finalmente descobre que existem mulheres e que afinal a historia da cegonha tinha sido uma mentira. É mais ou menos assim que se assemelha a morte.

 

Não me censurem. Admito que tenho um fraquinho pela morte. Não quer dizer que me masturbe a olhar para ela, não sou assim tão Bibi quanto pensam. É que ela às vezes dá tiros certeiros. Por exemplo, tive uma vizinha que dizia sempre ao seu cão, quando este se enrolava na sua coleira velha, “sai da minha trás” querendo dizer “sai de trás de mim”, veio um AVC e deu-lhe um valente abraço. Disponibilizou uma casa para alugar e hoje vivem duas loiras bem vistosas, solteiras e com uns deleitosos seios bicudos com os seus trinta e poucos anos.

 

(Quem sentir pena da minha vizinha é porque ainda continua a ser o imbecil do décimo segundo ano.)

 

Agora - peço um pouco de confidencialidade – dirijo-me apenas à Morte.

 

Morte, como se atreve a levar os imbecis e as boas pessoas para o mesmo lugar? Acha justo que no futuro vá comer um corneto com o Hitler com esta existência tão bonita que estou a ter? Já agora, ele ainda mantém aqueles cabelos todos a saírem do nariz ou aquilo era mesmo um bigode? E o Kim Jong-un, não o quer levar já? E o Carlos Castro, voltou a ter o (ainda bem que me interrompeu). Já agora, a Teresa Guilherme chegou bem?

 

E já que começamos a falar no destino pós-morte, quero já alertar para algumas coisas. Primeiro, perceba que quero ficar bem perto da minha mulher, dos meus pais, do meu cão e dos meus gatos. Quero um parque de diversões e peito de peru ao almoço, um quintal para brincar e uma boa moradia para receber Deus, já que ele, penso eu, me vá receber maravilhosamente bem na sua. Pode ser peito de frango. Tenho que manter um especto pujante e jovem já que a morte é para sempre. Leite, só sem lactose. Sou intolerante. Há eleições por aí? Se há, abstenho-me. Vivos e mortos, são todos iguais. E o Trump? Vão ficar com ele? Por mim, leve-o já também. Insira-o num programa de reabilitação e leve-o para a casa do Mandela como boneca insuflável.

 

As pessoas aí, ainda percebem a ironia ou são circunspectas como estas? Há censura? E homofobia? Machismo? Feminismo não pergunto porque não sou dado a modernismos. Muitos preconceitos? Bullying? Xenofobia? Existe racismo aí?

 

Responda-me. Se existe, vá se foder.  

 

Herman JC