Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

15
Jul18

Pergaminho dobrado em dois

pergaminho

 

O barco do amor desfez-se com a repetição monótona da vida

 

 

Aquando miúdo a vida inteira ainda um mar de sonhos possíveis, o cheiro a amora do quintal do Sr. Domingos ou o cheiro da terra molhada que cheirando ainda era a melhor coisa do mundo, a casa da minha avó onde morei onze anos da minha vida num suplicio gritante de choro de alegria e onde o pátio e os vasos com girassóis jacintos se vergavam perante a circunspeção da minha avó quando em dias de falta de pão fresco na mesa ela se mostrava desolada criando logo alternativas, aquele molete do dia anterior transformado em tosta mista era a melhor coisa da existência, aí que saudades dos melhores momentos da vida, depois de passar anos a gente recorda como se fossem ontem, a vóvó a gritar

 

                 aí meu netinho sai daí que ainda te vais aleijar

 

quando eu em cima de uma árvore buscava o fruto impossível e algumas nêsperas perdidas, maduras, bem laranjinhas que já se podiam comer com agrado gosto

 

                avó achei meia dúzia que ainda estão boas para comer

 

e ela perdida em mil sorrisos e agarrada à parede que segurava a porta da entrada abanando a cabeça ficando com tonturas de orgulho por me ver, seu neto, a ter uma infância, a vóvó a dizer-me baixinho

 

                pega este docinho mas não digas à tua mãe

 

e eu logo consentia, abanava a cabeça como um soldado ao capitão e então corria para os braços da minha mãe perguntando-lhe se podia comer e obviamente não podia, a minha mãe para mim

 

                isto não é bom para os dentinhos filho

 

e eu acreditando como se eu também possuísse os poderes dos desenhos animados que via quando acordado de manhã

 

                eu também tenho aqueles poderes mamã

 

e ela dizia-me que tinha esses e muitos mais numa voz que ainda recordo esboçando uma saudade baça defronte dos meus olhos espelhados agora, no final

 

                mãe eu sou diferente de todos

 

e corria logo para os vários cadernos deitados no chão como se me estivessem esperando e escrevia ao mesmo tempo que tocava na sala Sinatra, o homem da vida da minha avó, e o que escrevia deitava sempre ao lixo tal como agora esperando a minha Memória de Elefante do António que apareça e comece a escrever-se sozinha e eu olhando imaginando eu pequeno, de pés sujos de terra e mãos pintadas devido à caneta permanente do meu pai, escrevendo escrevendo e sem que ninguém soubesse imaginando futuros para mim e eu já certo que isto seria tudo o quanto desperdiçaria a minha vida, escrevendo escrevendo, o meu pai para mim

 

                ainda vais ser um Ronaldo

 

e todos os pais querem que os filhos sejam imortais, eu para o meu pai

 

                não quero ser nenhum Ronaldo quero apenas morrer como o Sr. Domingos

 

e o Sr. Domingos que morrera de velhice já com os seus noventa e dois anos, uma vida repleta de dicotomias já distante agora, quero apenas morrer como o Sr. Domingos ter pouca gente na despedida tal como tive na vida porque a vida e a morte são parentes próximos mais do que cada um imagina, a minha avó morreu como o Sr. Domingos num anonimato conhecido por pouca gente pois nunca se morre de verdade no coração de quem julga ser eterno, eu para o meu pai

 

                quero viver muitos anos mas ter poucos amigos

 

já sabendo naquela idade que a quantidade manipula a qualidade, e nisto resumia-me à Catarina vizinha mais velha o primeiro beijo foi a ela atrás do campo de hortaliças da minha avó, rápido e molhado, um gosto distante e próprio daquela idade, e na minha lápide uma frase de Maiakovski:

 

              O barco do amor desfez-se com a repetição monótona da vida

 

enquanto roubo as amoras ao Sr. Domingos e fujo para o nosso pátio que agora é terra molhada e desprezada por todos aqueles que a pisam como se nunca tivesse existido um neto e uma avó.

 

Herman JC

 

 

Sobre mim

foto do autor

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

Olhares de sempre

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    • Joaquim Ferreira

      Tantos anos passados, tantos sonhos por realizar.Q...

    • Anónimo

      Tantos anos passados, tantos sonhos por realizar.Q...

    • Anónimo

      conheço, sou da familia dos MACHADOS, francisc...

    • Fer.Ribeiro

      Caro Amiel Bragança, obrigado pelo seu comentário....

    • Amiel Bragança

      Caro Fernando Ribeiro,Tenho estado atento às suas ...