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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Pergaminho dobrado em dois

29.07.18 | Fer.Ribeiro

pergaminho

 

Quanto vale um chavascal.

 

Meus respeitáveis leitores, não fiquem indignados.

 

Muitas das vezes – e são inúmeras – que me sento num banco de jardim e começo a contemplar a lua, dá-me uma vontade imensa de ser poeta, sentir tudo de todas as maneiras, fingir-me de dor e banhar-me de nalguedos bons e eruditos de burguesas ociosas, esperando – como um bom guardador de rabanhos espera - pacientemente a sua compaixão ao meu recatado operário. Perguntam-me vocês: só gostas se forem burguesas? Responder-vos-ei que sim. O proletariado já sofreu o bastante para que o meu marsápo indígena recaia sobre eles. Para além do mais, Marx enquanto escrevia o capital de ceroulas e cachimbo experimentava, nos pequenos intervalos, o prazer mais jocundo na aberta greta da sua burguesinha.

 

Para quem tem a perceção do descalabre – e assim alerto ao leitor – que existe neste momento na sociedade, onde o capitalismo se ergue mais que um tarolo africano em dias de orgia, deixo aqui um repto de esperança: façamos ainda mais a atividade fodangal em cima das filhas dos vermes capitalistas fazendo-as olhar para o proletariado de trás e obrigando-as a ler o primeiro volume do capital enquanto encetamos valentes bofetadas nas dobradiças de ouro ao mesmo tempo que gritamos “encontrei a minha pátria” seguido de um “aí que rica propriedade privada a ser invadida pelo meu comuna”, e assim podemos assistir a um momento histórico na luta de classes.

 

E vocês, novamente, teimosos como só vocês sabem ser: ah e tal, és contra a exploração do proletariado, mas a ti só te interessam as burguesas. Bom argumento, mas fácil de arrebata-lo. Então é assim: as burguesas são alimentadas à base de um cardápio exigente, umas boas horas de ginásio, outras tantas sem fazer nenhum e as restantes em partilhar o pequeno-almoço no Instagram, são leitoras assíduas de livros do Gustavo Santos, vestem jeans e proclamam-se influencers. Quem não gosta de um bom chavascal immundo com fidalgas que possuem milhares de seguidores? E digam-me lá se não gostavam de enraber les burgeois como se fossem o Karl Marx da festa rija. Não obstante, o proletariado baseia a sua insignificância em digerir alimentos do Mac Donalds, assistir ao Você na TV e ouvir músicas do Marante e Diapasão enquanto toma banho com o cão na cave do burguês, e isso tem tanto de interesse como o meu pífaro em dias de maior neblina.

 

Posto isto, só me resta desejar-vos um bom domingo repleto de baldes e baldes de felicidade. Até para a semana.

 

Herman JC