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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

11
Nov18

Pergaminho dobrado em dois

pergaminho

 

 

Um dia prometi-te um poema ao nosso amor: ei-lo.

 

 

Perdoem-me a insensatez a avulso, mas esta crónica tem a importância de um diamante em bruto encontrado por um sem-abrigo em Manhattan. São raras as vezes que me predisponho a falar de felicidade, porque tal como a doença, o sofrimento e a juventude são ocorrências efémeras, a felicidade é um termostato em declínio.

 

Perdoem-me também pela desfaçatez em abdicar de assuntos tão mais interessantes para vocês como a novela de Tancos, ou as unhas da Isabel Moreira ou até a minha pequena aposta no mercado negro como o Alexandre Frota vai ser o novo ministro da Cultura do Brasil. Permitam-me deixar isso para outra altura. Está na hora de homenagear a mulher que me salvou. Escrevo-lhe um dia depois do seu aniversário. Por falta de vocabulário para expressar exatamente o que sinto, conto com todos os colaboradores de quiosques, livrarias, etc., para que jamais se atrevam a vender o jornal desta semana à Ana Margarida Ferreira. Para quem não sabe quem é, deixo aqui alguns detalhes físicos: a mulher mais bonita do mundo.

 

Então foi assim: um dia depois de ter chegado a Chaves, observei-a de longe, sempre com o cuidado de nunca a perder de vista. Descia os degraus lá da escola. Demorei dois anos até me atrever a manifestar o meu interesse. Eu sabia que se me respondesse “eu também”, seria minha para sempre. Decidi esperar pacientemente. Vou avançar, porque há coisas mais importantes a serem ditas.

 

Estava tão bonita na noite em que a fui buscar a casa. Fomos a Verin, Espanha. O país que tem o privilégio de ter assistido ao amor entre Saramago e Pilar e agora o meu e da Margarida. Beijamo-nos na ponte enquanto chovia rios de água. Pedi-lhe em namoro como numa vénia a Deus, com os joelhos a esmagar o cordão umbilical de centenas de himenópteros e a insegurança a despoletar em foguetes amargos. Como consequência disso: salvou-me a vida. Ela viu as minhas lágrimas a cair desavergonhadamente sobre o casaco de couro desbotoado e o sorriso de cético de quem nunca acreditou em nada senão na possibilidade daquele momento se eternizar como um quadro do Da Vinci, e sorriu, como amparando um bebé de outra mãe. Foi o único momento em que tremi de verdade, porque estava frio, porque estava a chover, porque realmente nunca me tinha debruçado no ombro de alguém com a ilusão de querer ficar para sempre. E isso meteu-me medo. Uma vertigem infinita para qualquer lado que olhasse. Não tinha qualquer ambição de ir e não sabia que ela estaria disposta a continuar esse desassossego ainda desmembrado. Ainda hoje, passado quase três anos, ainda acordo contemplando o meu lado direito da cama para ter a certeza absoluta que ainda não se foi embora. O amor é querer muito ficar, seja os dois perdidos no glacial Ártico seja num salão das pessoas mais bonitas do mundo.

 

Desde então, foi sempre um jogo bonito. Eu oferecia-lhe cartas, ela deixava papeis usados com declarações de três palavras na mesinha de cabeceira, eu garantia-lhe segurança, ela continuava linda, eu segredava-lhe que queria muito um charuto Cohiba, ela comprava-mo, eu jurava ser-lhe fiel, ela ficava cada vez mais linda, eu entregava-lhe a minha vida, ela oferecia-me livros – desde de Saramago a Camus –  com pequenos escritos no seu interior: “O homem a quem ofereci este livro é o homem da minha vida”, variavas, “Que o nosso amor nunca se perca”. Coisas tão simples que dava para sentir o universo a corar de inveja. Ela sabia melhor que ninguém que tudo o que eu mais queria eram livros para poder sonhar e uma mulher para aprender a viver.

 

Isto a que as pessoas comuns chamam de amor é a coisa mais difícil do mundo, sempre foi, por isso é que só foi feita para alguns, só para aqueles que no meio da azáfama de futilidades acreditam que a existência de uma gripe alheia é o seu fim do mundo.

 

Enquanto escrevo, tu danças, tu brincas, tu cantas, tu gritas, tu, tu, tu e mais tu, eu continuo a escrever, ou a tentar, porque falar de nós é como se me atirassem para a boca de um poço.  

 

Um dia, meu amor, a corda de prata quebrar-se-á, mas antes disso não me quero despedir. Quero ir sossegado na companhia do silêncio mais próximo, e ficar lá à tua espera. Quero dizer que te amo. Quero agradecer-te por me teres salvado a vida. Mais dois segundos e eu morria. Obrigado, amor.

 

Parabéns.

Herman JC

 

 

 

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