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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

03
Mar14

Quem conta um ponto...

 

Pérolas e diamantes (77): o triunfo dos cucos

 

Nascer em Portugal é uma condição que pesa muito a cada um de nós. Claro que a uns mais do que a outros. No entanto…

 

No entanto cá estamos e penamos, para mal dos nossos pecados. 

 

Sempre que me deprimo, chego à conclusão que, se não tivesse nascido aqui, talvez vivesse um pouco melhor. Mas também penso que se tivesse nascido noutro sítio me deprimia identicamente. Por isso é que ainda por aqui estou e daqui já não consigo sair.

 

E cá estou eu como um pardal, em equilíbrio instável, esticando as minhas patas finas, procurando espaço para pousar exatamente onde quero.

 

Naquele ponto de equilíbrio em que, como apregoava Nietzsche, nem o tumulto do mundo nem a calma dos distantes céus nos tolhe a visão clara.

 

No fundo, sou um cético. E vejo-me constantemente dentro de um paradoxo. Reconheço, e reconheço-me, como tendo sempre uma expectativa e, ao mesmo tempo, possuindo também uma certeza, a de que nunca poderei satisfazer a sede de justiça ou ultrapassar a angústia da morte.

 

Apesar disso, ou por isso mesmo, persigo e defendo o princípio da realidade. E a realidade diz-nos que os regimes democráticos estão banalizados. Mesmo conservando ainda o fator essencial das liberdades públicas.

 

O poder político democrático atual é muito frágil, porque está subalternizado, o que é fator de satisfação para todos aqueles que nunca foram democratas. E, o que é ainda mais grave, está sujeito a outros poderes mais fortes que o manipulam.

 

Quer queiramos, quer não, são as possibilidades que não podemos aceitar aquelas que vão determinar o nosso destino.

 

Aprendi com Camus que nunca se chega à liberdade plena nem se escapa à ideologia. Mas também sei que procurar pensar pela própria cabeça, estar informado e procurar saber, são sinais de independência e autonomia. 

 

A dificuldade, como dizia Julien Brenda, está na resistência à tentação de traição. Devemos, isso sim, esforçar-nos por não nos atolarmos na ideologia e, por vezes, libertar-nos dela.

 

Todos sabemos que as ideologias são sempre redutoras. Não lhes reconheço já nenhuma vantagem. Toda a ideologia, como afirmava Augusto Gil, é sempre uma viseira baixada sobre os olhos.

 

Eis-nos chegados ao tempo do triunfo dos cucos. No PSD, os pássaros novos expulsam do ninho os fundadores do partido.

 

António Capucho tem razão, esta deriva da caça às bruxas por parte de Pedro Passos Coelho, transformou o PSD num partido neoliberal e radicalmente conservador.

 

O excomungado fundador do PSD vai mesmo mais longe ao afirmar que “o PSD ultrapassou pela direita o CDS-PP, que, apesar de tudo, ainda tem alguns valores democrata-cristãos que são respeitáveis”.

 

Pela mão do cuco, lá estamos a voltar à ética, e poética, salazarista de pobretes mas alegretes. A missão superior deste executivo neoliberal consiste na imposição da pobreza, não só como estado de alma, mas também como realidade. E até como moral social.

 

Passos Coelho, com aquele seu sorrisinho de raposa manhosa, lá nos vai mentalizando explicando que Portugal está a viver agora segundo as suas possibilidades. Esta é a sua esperança e o seu horizonte político.

 

De uma coisa se pode gabar o primeiro-ministro. Segundo um estudo da Santa Casa, há uma percentagem significativa de licenciados a viver como sem-abrigo em Lisboa. Esta é a sua vitória e a grande conquista do Governo.

 

Passos Coelho também diz que ficámos mais competitivos. E tem razão, atualmente somos a mão-de-obra mais barata da União Europeia e estamos a aproximar-nos a passos largos da China e dos países do Terceiro Mundo. Esta foi a sua grande reforma, baixar os custos do trabalho como fator de competitividade.

 

E a tão propalada reforma do Estado é outra ficção deste Governo. Portugal chega ao fim do programa de ajustamento sem ter transformado nada de estruturante e significativo. A única realidade visível é o empobrecimento do país e dos portugueses, a destruição da classe média, devastada por uma enxurrada de impostos selvagens, o nivelamento por baixo de tudo quanto é serviço público e o convite à emigração por parte dos nossos jovens.

 

Passos Coelho apenas acredita nos mercados e nas suas leis. Os mercados são o seu Deus e as suas leis a Bíblia que lhe inspira o caminho da destruição do país.

 

Manuel João Vieira definiu bem o que se passa em Portugal. “Hoje, os governos são uma espécie de Circo Cardinali, constituído para ser um interface entre o poder económico e as pessoas, para fazer de conta que as pessoas ainda podem modificar alguma coisa através dos partidos.”

 

Desta vez vou terminar com a poesia de Luís Filipe Castro, do livro “A Misericórdia dos Mercados”: “Os Mercados são simultaneamente o criador e a própria criação / Nós é que não fazemos falta.”

 

João Madureira

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