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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Quem conta um ponto...

11.08.14 | Fer.Ribeiro

 

202 - Pérolas e diamantes: o milagre do voo seguido de apelo

 

Foi ainda antes das coisas acontecerem que um meu amigo, relativamente à futura conduta do candidato que apoiei nas últimas eleições autárquicas, me disse o seguinte: “É tão possível ele ser aquilo que tu dizes como um bezerro conseguir voar se se puser no meio do lameiro a abanar as orelhas.”

 

Eu fiz de conta que não ouvi. Por vezes a verdade pode ser cruel. Mas, mesmo assim, não deixa de ser verdade. O tempo deu-lhe razão. E por inteiro.

 

Agora rio-me tanto como quando era pequeno e a minha mãe me fazia cócegas na barriga. Eu sempre fui muito coceguento. Por isso fugia sempre que ela se preparava para me friccionar com álcool com a intenção de me aliviar de alguma maleita. Essa era uma forma de violência. A mentira é outra. E bem maior.

 

Vivemos no tempo do Homem-Fútil, do Homem-Ninguém, onde as almas já não se vendem ao Diabo, mas ao Chefe Político, ao Banqueiro ou ao Empreiteiro.

 

Como escreveu Robert Benchley, “o que conta não são tanto as pequenas coisas da vida, mas sim a pequena vida nas coisas. Quanto menos vida há num homem, mais feliz ele é”.

 

A dimensão política desta gente e a sua capacidade para resolver os problemas das populações pode resumir-se nesta pequena história que vos vou contar. Lá em casa houve necessidade de fazer umas obras. Tivemos logo dificuldade em encontrar um carpinteiro e um canalizador. Disseram-nos que só estavam disponíveis na semana seguinte ou dali a quinze dias. O operário da construção civil e o especialista do gás nem sequer se mostraram interessados. Mas conseguimos encontrar uma pequena empresa de peritos que aceitaram ir lá a casa no dia seguinte para ver o que se podia fazer.

 

Em apenas um dia ficou pronto o diagnóstico das necessidades. No entanto continuamos à espera do carpinteiro, do canalizador, do operário da construção civil e do especialista do gás.

 

Isto tudo, independentemente da gravidade da situação do desemprego.

 

Depois existe a questão da dívida da nossa autarquia. E também a do país. Bem vistas as coisas, o dinheiro não chega e, sobretudo, foi mal gasto. Mas também por cá se diz que antes de se gastar chega sempre.

 

Nós somos tão crédulos que estamos perfeitamente convencidos de que se entrarmos numa cabine de voto e pusermos uma cruz num determinado quadrado os problemas ficam logo resolvidos.

 

Transformamo-nos naquele ladrão que foi incumbido de apanhar o outro ladrão.

 

A importância do discurso destes senhores começa desta forma: “Não irei ocupar esta noite muito do vosso tempo.” E termina passado uma hora com a seguinte frase: “Mas já ocupei por demais o vosso tempo.”

 

Que me perdoem as exceções, mas a grande parte dos políticos que nos governam possuem os traços comuns do personagem Pável Vladímiritch, do romance A Família Golovliov, de Saltykov-Shchedrin: “Talvez fosse bondoso, mas não mostrava bondade por ninguém; talvez fosse sensível, mas em toda a sua vida nem uma só vez fizera qualquer bem. Era hospitaleiro, mas a ninguém dera hospitalidade; gostava de gastar dinheiro, mas isso nunca trouxe bem ou prazer a ninguém…”

 

PS – Seriamente inquieto e preocupado com o que vejo ocorrer de norte a sul de Portugal, incluindo necessariamente as ilhas, relativamente às contas autárquicas, às dos bancos e às do governo do país, venho, em nome de, pelo menos, mais de metade dos eleitores flavienses que votaram nesse sentido, solicitar ao senhor presidente António Cabeleira, e demais vereadores, que aprovem uma auditoria independente às contas da nossa autarquia. Quem não deve não teme. E à mulher de César não lhe basta ser séria, tem de parecê-lo. Assim poderemos todos dormir um pouco mais descansados.

 

Em nome da transparência das contas públicas, declaro que renovarei este meu apelo todas as semanas enquanto não for satisfeito. A isso me obriga a minha consciência e também a de todos os eleitores que votaram no projeto do MAI.

 

João Madureira