Quem conta um ponto

226 - Pérolas e diamantes: da possibilidade de mudança
O jurista João Taborda da Gama escreveu no DN que “Todo o político é um mentiroso. Se não fosse mentiroso era cientista. Ou conservador do registo predial. As relações entre a política e a realidade são complicadas.”
Eu não sei se acompanho o jurista em conclusão tão absoluta. Prefiro antes solidarizar-me com Vatal Nagaraj, presidente de um partido local indiano da cidade de Bangalore, que resolveu no passado mês condecorar os seus dois burros pelo trabalho prestado e pela sua lealdade.
Rosseau dizia que somos prisioneiros das nossas necessidades. Agora sabemos que também já somos prisioneiros dos nossos políticos de pacotilha.
A sociedade portuguesa está cada vez mais pobre e exaurida. As pessoas estão tolhidas pelo medo, pela necessidade, pela crise e pelo desespero.
Na nossa cidade passa-se o mesmo.
A imagem que tenho da gestão política da autarquia flaviense é que ela é carrancuda e obscura como se fosse uma fotografia desfocada. Cansa-se e esgota-se em pequenas guerras de bastidores, anima e manobra exíguas intrigas entre instituições e associações. Fica mal no retrato.
No nosso concelho não se conseguem levar por diante projetos de qualidade porque a Câmara está dividida entre os que são do PSD e os que pertencem ao PS. E esta gente detesta-se uma à outra.
A política define-se como a defesa do bem comum. Mas por cá tal não existe. A política está reduzida ao formalismo.
Os que defendem que a política formal é a que resolve tudo, sabem perfeitamente que essa é a forma perfeita de que ninguém faça aquilo que tem de fazer.
Existe cada vez mais a sensação de que a política se centra apenas em jogos de conquista do Estado e do poder autárquico.
Não é por acaso que a palavra escolhida pelos portugueses para definir a gramática política portuguesa tenha sido “corrupção”.
Apesar disso, penso que o nosso problema é mais de qualidade política do que de corrupção. Na prática política dos nossos dirigentes não existe coerência.
A política deste governo e desta maioria é má porque procura mobilizar o medo e o desespero.
A maioria dos nossos ministros nunca trabalhou. Eles não conhecem, nem querem conhecer, a realidade. E isso é mau.
Grande parte da diferença política que defendemos tem a ver com a capacidade de afrontar as forças do BCI (Bloco Central dos Interesses formado pelo PSD, CDS e PS), que se mexem nas areias movediças da corrupção e da prepotência. Daí a necessidade de novos protagonistas e de novos partidos. Os tradicionais já deram aquilo que tinham a dar.
A promiscuidade entre o poder económico e o poder político deu nisto. As ideologias já nem sequer existem. O que é triste. Em Portugal não temos democracia cristã, nem social-democracia e muito menos socialismo.
Mas a verdade é que as pessoas continuam a ter as suas alegrias, a tirar prazer das pequenas vitórias do dia-a-dia e a exercer o seu direito à vida.
As pessoas têm dificuldades, mas as dificuldades não impedem as lutas, o convívio e a solidariedade.
A mudança é possível. Ainda há futuro… no futuro.
PS – Péricles escreveu: O segredo da felicidade é a liberdade; o segredo da liberdade é a coragem. Por isso, senhor presidente da CMC, mais uma vez o incitamos, a si e aos seus distintos vereadores, a aprovarem uma auditoria independente às contas da nossa autarquia, pois quem não deve não teme e à mulher de César não lhe basta ser séria, tem de parecê-lo. Com esse seu ato de audácia, com toda a certeza que passaríamos todos a dormir um pouquinho mais tranquilos.
PS 2 – E, já agora senhor presidente, talvez fosse boa ideia aprovar conjuntamente uma auditoria externa às contas da JF de Santa Maria Maior, da qual foi digno presidente, até 2013, o gracioso vereador João Neves (ex-MAI e atualmente do PSD), pois quem não deve não teme; certos de que aquele que tão corajosamente reivindicou, durante toda a campanha eleitoral, uma auditoria às contas da Câmara de Chaves, com toda a certeza verá com bons olhos, e até louvará expressivamente, uma auditoria realizada às contas do seu virtuoso mandato.


