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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Quem conta um ponto...

14.11.16 | Fer.Ribeiro

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315 - Pérolas e diamantes: Ele e os políticos… ou a viagem da carcaça

 

Como diria Pedro Marta Santos (Os Dez Livros de Santiago Boccanegra) neste “país ao centro dos Mapas da Tristeza Chamado Portugal”, o que por aqui se passa oscila entre o dececionante e o deprimente, poucas vezes conseguindo ultrapassar o banal. Quase tudo o que por aqui acontece sugere sempre um bacanal de mediocridade.

 

Já não existe por cá daquele tipo de gente que, nos anos sessenta ou setenta, era desregrada e que não media a consequência dos seus atos, conhecidas, e reconhecidas atualmente, como pessoas de carácter.

 

Antigamente ainda se debatia a obra de Soljenitsin. Hoje prevalece a cultura do croquete e da flute de champanhe, dos livros de autoajuda e dos que prometem escandaleira e depois são ainda mais pífios do que um debate cultural promovido pelo Correio da Manhã, versão TV, com música de fundo de Quim Barreiros, Malhoa, Marco Paulo ou Tony Carreira.

 

Falo-vos do pífio e pretensamente tonitruante livro Eu e os Políticos desse senhor que dá pelo nome de José António Saraiva. O que por ali mais há são fait-divers irremediavelmente irrelevantes, textos que demonstram de forma lamentável, a alta consideração que o autor tem por si mesmo, uma espécie de megalomania invertida, tentando criar no leitor a impressão de que é portador de uma enorme intuição e de uma capacidade de premonição invejáveis. Pena foi que só o tivesse revelado a posteriori.

 

No fundo, o livro parece um ajuste de contas com a história, que o deixou de lado. A ele, que se julgava um génio. Apelidaram o livro de chocante, perverso e até amoral. Eu, depois de o ler, considero-o apenas lamentável. Não vale a pena.

 

Querem uma prova, ora então aí vai. Lá para o meio do livro confidencia-nos que um ministro, numa viagem ao estrangeiro, lhe confidenciou: “Quando se viaja com mulher, gasta-se mais e fode-se menos”. Esta é, asseguro-vos, uma das pérolas da obra. Não é em vão que o senhor Saraiva diz que pretende ganhar o Nobel da Literatura. Ao Bob Dylan poderá suceder o JAS. A coisa promete.

 

Mas existem outras notas de interesse, nas quais o livro se revela essencial. Com ele ficamos todos a saber que Pinto Balsemão é “doente pelo golfe”, que Alberto João Jardim “fala torrencialmente” e que escreve com uma “letra indescritível, correspondente a uma 3º classe mal tirada”, que no Expresso havia espiões e que “sair do poder nunca é fácil”.  

Informa-nos que Álvaro Cunhal era conhecido como o “Salazar Vermelho” e de uma fidelidade total a Moscovo. Revela uma suposta fragilidade emocional de Paulo Portas através de outra inconfidência de Ângelo Correia. Dá ao mundo a novidade de que Marcelo Rebelo de Sousa gosta da intriga e que é muito bom a espalhar rumores pouco críveis que lhe chegam aos ouvidos.

 

Para nos evidenciar a sua importância internacional, conta que o Presidente de Angola “esteve 3 minutos e 47 segundos” a falar com ele, o que comprovava o seu prestígio, pois em Angola a importância das pessoas mede-se pelo tempo que os poderosos lhes dispensam. Pelo menos foi isso o que um seu amigo angolano lhe disse… “E não deixava de ter razão.”

 

Repõe algumas verdades e desfaz alguns mitos. Por exemplo, perguntou a Cavaco o que ele lia e ele respondeu-lhe: “A Lusa, duas vezes por dia, a Economist (a melhor revista do mundo que leio desde os 17 anos), o Financial Times, o El País e o Le Monde.”Ou seja, Cavaco Silva afinal lia jornais, e dos bons, o que não lia era a escória dos pasquins portugueses, tais como, por exemplo, o Expresso.

Revela ainda coisas essenciais à compreensão do poder e aos seus protagonistas. Por exemplo, a mãe de António Costa tratava-o por Babouche, o pm “José Sócrates mentia descaradamente e desmentia as nossas notícias”, que Guterres lhe confidenciou “que a maior parte dos problemas se resolvem por si próprios. Sem ser preciso fazer nada”. Que Mário Soares achava que o problema de Guterres era a “falta de tomates”, acrescentando que “sem tomates não se vai a lado nenhum”. Que Guterres considerava Jorge Sampaio “um hipócrita”.

 

Revela ainda que conduziu bêbado, que Medina Carreira, ao abrir inadvertidamente a porta de um gabinete, viu um ministro a baixar as calças para lhe aplicarem uma injeção e que, “em estado de choque”, logo depois de lhe passar o susto, não se coibia de confidenciar em privado: “Eu vi o rabo ao ministro. Eu vi o rabo ao ministro.”

 

Mas a cereja no topo do bolo é esta frase que tem tudo, e mais alguma coisa, de literário e que não resisto a transcrevê-la. Eu, que até não sou mau leitor, tive de a ler três ou quatro vezes para atingir o seu pleno sentido e, sobretudo, a sua indesmentível pertinência e a sua objetiva profundidade.

 

Passa-se durante um pequeno-almoço com Cavaco Silva na época do famoso tabu. Ei-la: “A dada altura pousa metade da carcaça que está a comer em cima da toalha branca, e à medida que fala vai-a afastando com a mão; às tantas, a carcaça já vai quase a meio da mesa redonda…”

 

É com estas pequenas migalhas de prosa que se ganham Nobéis.

 

João Madureira