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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Quem conta um ponto...

05.12.16 | Fer.Ribeiro

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318 - Pérolas e diamantes: o caminho

 

Quando um tolo pratica um ato de que se envergonha declara sempre que fez o seu dever. No fundo, a banalidade da parvoíce resiste, persiste e recomenda-se.

 

John Le Carré inseriu num seu prefácio a inverosimilhante história de uns túneis paralelos que conduziam admiravelmente à orla do mar. Neles eram inseridos pombos vivos que tinham sido criados e guardados em várias armadilhas nos telhados de um casino.

 

A tarefa dos pombos resumia-se a esvoaçar pelo túnel sombrio até saírem para o lado do céu azul onde eram os alvos de desportistas bem nutridos que se encontravam de pé ou esparramados em terra à espera de disparar chumbo com as suas espingardas. Os pombos que falhavam, ou apenas feriam na asa, faziam então aquilo que os pombos sabem fazer: regressavam ao local do seu nascimento no telhado do casino, onde as mesmas armadilhas os esperavam.

 

Afinal de onde vêm as bruxas, ou os bruxos, que agora se designam de sondagens? Acho que são geradas pelo nosso desejo de acreditar em milagres. De acreditar não na realidade mas nas nossas expectativas. Acreditamos nas fotografias que nos tiram os amigos e os apaniguados e nas entrevistas mais ou menos encomendadas que nos fazem. As páginas repletas de razões pré-fabricadas lá virão encher o olho a quem quer antever a realidade que se fabrica.

 

Se a verdade e a fé no futuro abandonam o homem, na sua alma instala-se o medo. 

 

Fora da nossa cidade, ou da realidade, pois para o caso tanto monta, julgamos ver junto das estradas espantalhos ou vacas a pastar embrulhadas em papel celofane. Mas convém lembrar que a qualidade da nossa vida em sociedade não se compadece nem com a intrujice, nem com a premeditação ignóbil da conspiração e muito menos com a bebedeira de princípios, valores e atitudes.

 

Os fins, para os homens de boa vontade, e para todos aqueles que acreditam na liberdade como um princípio sagrado, nunca conseguirão justificar os meios.

 

As provações difíceis exigem como resposta um equilíbrio sustentável. Outro tipo de estabilidade já não se consegue adaptar ao raciocínio ponderado, pois oscila entre a ilusão (ou desilusão) profunda e o otimismo ingénuo. Quem assim pensa torna-se presa fácil de toda a demagogia.

 

Há que desconfiar tanto dos mistificadores como dos desmistificadores. As pessoas, ocupem elas o lugar que ocuparem, definem-se sempre, não por aquilo que são, ou dizem ser, mas por aquilo que fazem.

 

Não nos iludamos. Uma coisa é certa: aquilo que serve para contar verdades é igualmente válido para fabricar ficções.

 

Algumas pessoas acreditam na Alice no País das Maravilhas. Para elas a lebre de março faz mesmo questão em tirar o relógio do bolso do colete.

 

A irresponsabilidade não pode, ou não deve, ser premiada. O discurso hipócrita de fazer as coisas em serviço do povo não passa de um isco atraente para nos obrigar a engolir o anzol do poder e do status quo.

 

Algumas pessoas são exímias em fazer com que a sua interpretação dos factos explique aquilo que lhes convém. Acreditam piamente que Roma paga mesmo a traidores. Foram habituados a isso. A mentira e a ilusão são a sua realidade. 

 

  1. Quixote não passa de um personagem de ficção. Sancho Pança, esse pragmático, tornou-se realidade.

 

Bem vistas as coisas, a quem é que importa o facto de Cervantes ter atacado os livros de cavalaria, se já ninguém os lê, nem sequer os cervantistas?

 

Os medíocres, os instalados em sistemas burocráticos, habituados à manipulação e ao fingimento, a partir de onde elaboram as normas de conduta moral, social e política, não só traçam nelas o único caminho que lhes permite sobreviver, como pretendem que os incautos adotem o mesmo comportamento, submetendo-os ao sistema, que, por definição, lhes cerceia a liberdade e lhes limita a razão.

 

Na primeira todos caem; na segunda, cai quem quer; na terceira, só cai quem é tolo.

 

Cada caminho leva-nos sempre ao seu próprio fim. Cabe a cada um de nós escolhê-lo.

 

PS1 – O caminho! Qual caminho? Afinal, o caminho não é caminho nenhum. Vamos ter de voltar a ler isto desde o princípio. Que chatice!

 

PS2 – “Caminhante, não há caminho, faz-se caminho ao andar.” Obrigado, António Machado.