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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Quem conta um ponto...

08.05.17 | Fer.Ribeiro

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341 - Pérolas e diamantes: O desfasamento

 

Foi a divina Atena, a filha de Zeus, quem, se não me engano, colocou no espírito de cada um o contrário do que está no espírito do outro. Por isso é que a vida é bela e as discussões e dissidências fazem parte da existência em sociedade.

 

Devemos sempre lembrar-nos de que a opinião que temos uns dos outros, as relações de amizade, os laços familiares, etc., nada têm de fixo, antes são, como dizia Marcel Proust, eternamente móveis como o mar.

 

Por isso é que casais aparentemente muito unidos se separam e amigos que julgávamos inseparáveis dizem infâmias acerca um do outro. Mesmo as grandes alianças entre os povos se desfazem em pouco tempo.

 

Uma coisa no entanto sei: para as pessoas puras tudo é puro. Mas elas são tão poucas.

 

Depois vêm os aborrecimentos. Como dizia o senhor de Charlus, nada é mais agradável do que sofrer aborrecimentos por uma pessoa que valha a pena.

 

O lamento do aristocrata continua válido. “São as pessoas do meu mundo que não leem nada e têm uma ignorância de lacaios. Dantes, os criados de quarto do rei eram recrutados entre os grandes senhores, e agora os grandes senhores pouco mais são do que criados de quarto.”

 

Como válida continua a ser a história daquele homem que julgava ter numa garrafa a princesa da China. Era perseguido por essa loucura. Curaram-no dela. Logo que deixou de estar louco, ficou estúpido.

 

Existem maleitas de que se não deve querer curar ninguém, pois são as únicas que nos protegem de infortúnios ainda mais graves.

 

Por vezes chove e venta e depois instala-se uma neblina fria que só se levanta lá para o meio-dia. Mas quando o sol chega, nós renascemos e a existência permanece intacta dentro de nós. Essa mudança de tempo basta para recriar o mundo e nos recriar a nós.

 

Que podemos então dizer se aquilo que jugávamos inicialmente provável se veio a revelar falso e num terceiro momento tornou a ser verdadeiro?

 

A necessidade de falar impede-nos não só de ouvir, como de ver.

 

Por isso nos rimos. Rimo-nos quando percebemos que existe um desfasamento entre aquilo que esperamos que as coisas sejam e aquilo que descobrimos que elas verdadeiramente são.

 

Com a ajuda de Ricardo Araújo Pereira, transcrevo agora um excerto de The Importance of Being Earnest.

 

“Jack: Gwendolen, é terrível para um homem descobrir subitamente que, ao longo de toda a sua vida, não disse outra coisa a não ser a verdade. Serás capaz de me perdoar?”

 

“Gwendolen: Serei. Porque sinto que és capaz de mudar.”

 

Aristóteles disse que o riso é exclusivo dos homens. Nisso distinguimo-nos dos outros animais. E igualmente de Deus.

 

RAP tem uma hipótese. Ei-la, por junto e atacado: “O homem é o único que ri porque também é o único que tem consciência da sua própria extinção. Os animais desconhecem que vão morrer, e Deus sabe que é eterno.”

 

Afinal, o artista é um homem mediano. A obra de arte mais não é do que o resultado do esforço de uma mente específica.

 

O escritor é, segundo Gonzalo Torrente Ballester, um homem capaz de produzir imagens coerentes e de as expressar por palavras.

 

Escrever é um ofício, por mais que os defensores do êxtase místico e da musa desaforada pretendam negá-lo, ou reduzir ao mínimo a sua importância.

 

“Devemos ter sempre presente que Miguel Ângelo, além de genial escultor, era um perfeito canteiro.”

 

O filósofo espanhol Arauguren avisou-nos que apesar de vivermos demasiado longe de onde as coisas se decidem para podermos participar diretamente na sua elaboração, vivemos demasiado perto para as ignorarmos e deixarmos que a nossa realidade segregue as suas próprias superestruturas. 

 

João Madureira