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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Quem conta um ponto...

18.09.17 | Fer.Ribeiro

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359 - Pérolas e diamantes: Os escritores devem andar loucos

 

 

Os escritores devem andar loucos. Louquinhos da silva. O nosso conterrâneo transmontano Rentes de Carvalho, ainda radicado na Holanda, anunciou há uns meses atrás que iria votar em Geert Wilders, o líder do partido da extrema-direita. Na Holanda parece que não lhe ligaram muito. Já por cá chamaram-lhe de tudo, até senil. De facto, o escritor tem 86 anos, mas dissesse ele que iria votar no BE ou no PC de lá e até lhe teciam loas. E das grossas.

 

Muitos dos nossos escrivas e comentaristas de esplanada descobriram agora que os seus livros não prestam, partindo do princípio de que quem vota em Wilders só pode escrever livros reles ou escabrosos. Já outros afirmaram mesmo que não voltariam a ler um livro de Rentes de Carvalho. Estou em crer que esses tais outros nunca leram nenhum dos interessantes romances do escritor. Eu sim li e vou continuar a ler. E até os recomendo vivamente.

 

Eu não me indigno com essas coisas. A escritora Patrícia Reis, sim. Até se questionou, coitada dela, como é que se pode “amar um escritor que afirma que vota na extrema-direita por ter vizinhos árabes e não se sentir seguro?”

 

Nem eu, nem, estou em crer, Rentes de Carvalho caímos nessa ratoeira do sentimentalismo piegas que enxama as redes sociais, que tenta confundir os livros com a pessoa que os escreveu. 

 

Ele escreve e diz o que pensa de uma forma livre e direta, sem estar a pensar nos likes que vai conseguir nas publicações do Facebook. Além disso é um escritor cheio de humor, inteligência, lucidez e, acima de tudo, é um excelente cultor da língua portuguesa.

 

Eu admiro-o por isso. Por prezar a sua liberdade acima de tudo. Por não se deixar ir no politicamente correto, nas declarações brandas e medíocres dos adeptos da lágrima fácil e dos sentimentos cultivados nos centros comerciais.

 

A sua liberdade é rara e no nosso país é mesmo uma excentricidade, daí a confusão com senilidade. Daí a zanga dos escritores que participam alegremente nas vernissages da esquerda e que esquecem sempre os gulags do seu descontentamento.

 

Os milhões de cadáveres produzidos pela ditadura do proletariado continuam enterrados na vala comum da hipocrisia e debaixo dos muros da vergonha e das cortinas de ferro do leninismo.  

 

Numa sua crónica, publicada no Mazagran, Rentes escreveu, antecipando em muitos anos a resposta aos indignados do costume: “O meu medo é notar que com os anos me vou tornando razoável em excesso, quase doentiamente tolerante. É disso que quero que me guardeis, Senhor. Dai-me raivas. Mantende viva em mim a capacidade de me enfurecer. Deixai que continue a chamar as coisas pelo seu nome, a criticar sem medo, a rir de mim próprio, e livrai-me até ao último momento das aceitações que crescem com a idade”.

 

Abençoado sejas, estimado Rentes.

 

António Lobo Antunes, em entrevista a João Céu e Silva, no ano de 2007, comparou as opções políticas à afetividade das opções clubísticas. Transcrevo: “Há pessoas de direita mais democratas que as de esquerda, há partidos de esquerda mais conservadores, as ideologias foram-se dissolvendo e a maior parte dos partidos são frentes e aqueles que ainda têm ideologia, ela está caduca. O único partido que vejo com corpo ideológico mais ou menos coerente é o Partido Comunista, mas é de um tempo que já não existe. As conquistas de Abril, onde estão?”

 

A liberdade, a independência e a dignidade continuam a ser um arquipélago no meio da imensidão da estupidez humana.

 

No entanto, o grito de revolta de Pissarev continua válido: “Para o homem comum um par de botas conta muito mais do que as obras completas de Shakespeare ou de Puchkine.”

 

Mas eu continuo a conseguir fazer a distinção entre a catedral de Chartres e a Disneylândia e entre o Europeu de Futebol e os Concertos de Brandeburgo de Bach.

 

João Madureira