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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Quem conta um ponto...

02.10.17 | Fer.Ribeiro

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361 - Pérolas e diamantes: A verdade e os tolos

 

Não vale a pena dar-lhe muitas voltas, bem vistas as coisas tudo depende do coração. Afinal, toda a gente acredita naquilo que quer acreditar. Todos sabemos muito bem que sabemos muito bem que sabemos muito bem.

 

As notícias de última hora que inspiram os jovens repórteres inexperientes, mas com muito bom aspeto, são as da pobreza. Até o senhor presidente da República não se cansa de abraçar e beijar os sem-abrigo.

 

As histórias dos desgraçadinhos de Lisboa e arredores espalham-se pelo país como uma doença sentimental. E as perguntas são sempre prementes e ocas: Como é ter fome? Como é não ter casa?

 

Os canais de televisão patrocinam-se dessa forma, transmitindo o desespero em direto. Os ricos deliciam-se sentimentalmente com a pobreza.

 

Mas os restaurantes estão cheios de pessoas, as sapatarias repletas de sapatos e sapatilhas e donzelas e pseudo-atletas.

 

E as lojas de roupa rejubilam de atestadas por pseudo-manequins ambulantes. A felicidade cabe-lhes toda na exclamação: “Agora já não precisamos de ir às compras ao estrangeiro!”

 

Para terminar o triângulo virtuoso, os especialistas emitem as suas opiniões especializadas… a valor de saldo: “Alguém vai ter de pagar o preço do Progresso”.

 

E, ó ironia das ironias, não acreditam em quem lhes diz a verdade porque sabem que na cabeça dos tolos só a verdade é que aproveita. Afinal, a quem é que interessa a verdade?

 

Aos tolos.

 

 A quem?

 

Aos tolos.

 

O mundo agora é só vídeos. Estou em crer que até o primeiro-ministro e o presidente da República tomam as decisões importantes baseados nos vídeos que visualizam no iphone.

 

Também eles fazem parte da realidade… dos filmes.

 

Nos restaurantes apinhados, todos, mas mesmo todos, suspendem as refeições e imobilizam os sorrisos para tirarem uma selfie

 

com a ementa…

 

com o empregado de mesa…

 

com o papá e a mamã…

 

e a avó…

 

e o namorado…

 

ou namorada…

 

uns com os outros e outros com os uns…

 

e o pobre do cão a ladrar lá longe no canil…

 

e o gato a miar sozinho, ou mal acompanhado, no gatil…

 

E depois passam as selfies de uns telemóveis para os outros e dos outros para os uns para os uns e os outros as contemplarem. Nada mais interessa, nem sequer a comida, sobretudo a boa, porque fica mal na fotografia.

 

Disfarça-se a obesidade com os sorrisos.

 

O fotoshop é bué de mentiroso, mas as pessoas são ainda muito mais.

 

As infraestruturas tomam conta de nós, sobretudo as ligadas à impunidade.

 

Os centros comerciais reluzem, as metrópoles rebentam de turistas, os vales transformam-se em lindos lameiros de golfe. As novas personagens de tudo aquilo que é velho tornam-se inesquecíveis. Todos somos apanhados pelas novíssimas marés da gargalhada.

 

Estamos superlotados de vacuidade.

 

Só respondemos às perguntas indiretas.

 

Destroçaram-nos as histórias.

 

Quem são os heróis?

 

Os tempos estão a mudar…

 

Tretas…

 

Afinal qual é a moral desta história?

 

João Madureira