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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Quem conta um ponto...

09.10.17 | Fer.Ribeiro

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362 - Pérolas e diamantes: A pose da naturalidade


O romance de cavalaria medieval, que foi o alvo predileto de Cervantes, desenvolveu-se na França do século XII e espalhou-se depois por toda a Europa. Além de altamente convencional, também era escrito em versos fáceis de recitar e só depois em prosa.

“Romance” significou de início uma obra em francês, derivada do latim, a língua de Roma.

Os romances medievais, ao contrário do que muita gente pensa, não eram crónicas de batalhas campais, como as travadas entre Gregos e Troianos, mas histórias de cavaleiros lendários dedicados a Jesus Cristo e às suas amadas, de torneios e de castelos encantados, com um suplemento de dragões e monstros, todos sob o feitiço de grandes magos. E eram coisas pouco divulgadas. A edição dos livros exigia trabalho muito elaborado e moroso.

Apenas com o progresso tecnológico da tipografia no século XIX é que o livro se transformou em veículo popular para um novo público leitor, tão sequioso de uma história imaginária de boatos picantes e últimas novidades.

Os autores, com a cumplicidade dos seus editores, adquiriram rápida aceitação. Finalmente podiam saber daquilo que os leitores gostavam, sentindo-se cada vez mais tentados a dar-lhes o que eles queriam. Como diz Daniel J. Boorstin: “O autor-criador tornou-se, pois, o público do seu público.”

No seu livro Os Criadores, o autor refere que Dickens, entusiasta e compassivo, era, ao contrário de Balzac, um homem de paixões. Pomposamente democrata, permaneceu um vitoriano populista. “A minha fé nos governadores”, escreveu em 1869, “é, no seu todo, infinitesimal; a minha fé no povo governado é, no seu todo, ilimitada.”

Nem a sua experiência como jornalista no Parlamento aumentou a sua confiança nas assembleias representativas. O autor dos hilariantes Cadernos de Pickwick passou pela Câmara dos Comuns “como um homem” e na Câmara dos Lordes “não cedeu a nenhuma fraqueza, exceto ao sono”.

Confessou que viu muitas eleições “sem nunca ter tido vontade (qualquer que fosse o partido a ganhar) de estragar o chapéu atirando-o ao ar”. Nem o que observou no Congresso de Washington alterou as suas opiniões. Dickens nunca “lamentou nem se orgulhou de qualquer corpo legislativo”.

O génio é sempre obra do acaso. E quase sempre as pessoas que o possuem são torturadas e perseguidas por obsessões contínuas. O sublime Leonardo da Vinci, enquanto jovem, comprava pássaros no mercado a fim de os libertar. E caminhava pelo seu próprio pé, pois, como Miguel Ângelo escreveu: “Aquele que segue outro nunca o alcançará”.

Dostoyevsky dizia que “as ideias voam pelos ares, mas são condicionadas por leis que não compreendemos. As ideias são contagiantes, e uma ideia que se poderia crer prerrogativa de alguém possuidor de grande cultura pode entrar no espírito de um ser simples e descuidado e apoderar-se dele.

Oscar Wilde gostava de brincar com o seu paradoxo afirmando bem alto que “ser natural é apenas um pose”.

O pai de Montaigne tinha como objetivo educativo para o seu filho aliá-lo com “o povo e aquela classe de homens que precisa da nossa ajuda”. Ensinou-lhe que “o dever manda primeiro olhar para o homem que nos estende os braços e só depois para aquele que nos volta as costas”.

Talvez tudo não passe de uma questão de fé.

Montaigne divide os filósofos em três categorias: os que afirmam terem encontrado a verdade, os que negam poder a verdade ser encontrada e os que, como Sócrates, confessam a sua ignorância e continuam a procurar. Apenas os últimos são sensatos.

Mas a fé pode ser como a de Montaigne: “uma corda que sustenta o enforcado”.

Quando jovem, Benjamim Franklin não se interessava francamente pelas belezas da natureza, ou da literatura, nem tão pouco o emocionavam a poesia, a arquitetura ou o romance histórico. “Muitas pessoas gostam de narrativas sobre edifícios e monumentos antigos, mas por mim confesso que, se conseguisse encontrar nas minhas viagens uma receita para fazer queijo parmesão, isso me daria mais prazer do que uma cópia da inscrição de uma qualquer pedra-de-não-sei-quê.”

Franklin chegou a ser um dos líderes da Revolução Americana, conhecido por suas citações e experiências com a eletricidade. Além disso foi jornalista, editor, autor, filantropo, político, abolicionista, funcionário público, cientista, diplomata, inventor e xadrezista estadunidense.

Escrevia como recomendava, de forma “simples, clara e concisa”, e persuadia os seus leitores a apadrinharem um objetivo prático e quase sempre valoroso. Tinha como intenção “promover um saber que seja útil”.

O seu Conselho a Um Amigo Para a Escolha de Uma Amante era o reflexo disso mesmo: “Prefira mulheres velhas a jovens”. As suas razões terminavam desta forma: “Oitava e última: elas ficam tão gratas!”

 

João Madureira