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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Quem conta um ponto...

18.12.17 | Fer.Ribeiro

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372 - Pérolas e diamantes: Sinal dos tempos

 

Emmanuel Macron, o Presidente da República francês, disse em entrevista ao Expresso que “precisamos de desenvolver o heroísmo político”. Assim mesmo, de mãos abertas em concha virada para riba e de olhar vago no infinito.

 

Depois foi-se ao Hegel, pois, segundo ele, o filósofo alemão acreditava que um indivíduo pode, de facto, a qualquer momento encarnar o Zeigeist (significa espírito da épocaespírito do tempo ou sinal dos tempos), seja lá isso o que for, mas também que o indivíduo nem sempre tem a consciência de que o está a fazer.

 

Friedrich Hegel chegou mesmo a descrever Napoleão Bonaparte como “o Weltgeist (espírito mundial) a cavalo”. Só que Macron não consegue ir tão longe, não acredita que uma única pessoa possa, de facto, orientar a história.

 

Ele estabeleceu para si o tentar encorajar a França e o povo francês a mudarem e a desenvolverem-se mais. O que já não é pouco.

 

Eis senão quando, a meio da entrevista, entra na sala o Nemo, o cão do Presidente, e senta-se.

 

Perguntam então ao dono porque lhe deu tal nome. Macron conta que o cão foi abandonado enquanto cachorro e que passou um ano num abrigo para animais. Ele tinha decidido que queria um cão de um abrigo. Normalmente, lembra aos entrevistadores, os Presidentes têm cães de raça pura, mas o Nemo é uma mistura de Labrador com Griffon. “Absolutamente adorável. Um golpe de sorte, não é? Do abrigo de animais para o Palácio do Eliseu.” Diretamente e de forma limpa. E confessa: “Gosto bastante da ideia, mesmo que ele tenha pouca ideia de onde acabou por vir parar.”

 

Ou seja, mesmo que para o povo francês a eleição de Macron possa ter sido mais do mesmo, já o mesmo não podemos dizer acerca dos cães gauleses e do mais.

 

Claro que para Emmanuel Macron nada ficou na mesma, pois perdeu a inocência dado que ser Presidente da República muda a vida de forma drástica. E também a de certos cães.

 

Na sua perspetiva, o cargo que ocupa não é sobretudo político ou técnico. É, antes de mais, simbólico. Dado que “precisamos de desenvolver uma espécie de heroísmo político.”Não significa que Macron queira ser herói. Não. “Mas há que ter recetividade à criação de grandes narrativas.”

 

Dizem que o presidente é distante. Ele contrapõe que está a pôr fim à cumplicidade entre política e os media, dado que “um Presidente deve manter os media a uma certa distância”.

 

E, claro, também é modesto, pois respondeu que talvez esteja a seguir os passos de Mitterrand (outro presidente francês conhecido pela sua inextricável sobriedade), que queria realmente moldar a Europa.

 

Na sua opinião, e já agora também na minha, o problema dos debates sobre a Europa é que se transformaram em disputas entre especialistas e advogados.

 

Ele sonha com uma Europa baseada em três coisas: soberania, unidade e democracia. Quer que ela seja uma garantia de paz, prosperidade e liberdade duradoras, pois urge “terminar com esta guerra civil europeia, cuja existência não queremos admitir, e parar de ver constantemente se somos melhores do que o nosso vizinho nisto ou naquilo”. E deixar de permitir que se desenvolva uma espécie de derrotismo coletivo, propagandeado sobretudo por quem fala mal da Europa e quer desistir dela.

 

Lá pelo meio da entrevista falou da sua admiração por Angela Merkel, já que são “duas pessoas que procedem metodicamente” e que adoram pormenores. Nas cimeiras, lembra Macron, são dos poucos chefes de Estado e de Governo que tomam notas. Por isso adora as discussões que têm os dois.

 

Sobre os partidos convencionais franceses considera que já não têm capacidade para unir as pessoas. Defende ainda a urgência de uma revolução cultural, para poder transformar “a educação, o mercado de trabalho e o sistema de pensões”.

 

Uma coisa me une ao senhor Presidente francês, o gosto por Bach, pois ambos achamos extraordinário não encontrar na música do génio alemão elementos decorativos.

 

Noutra coisa também coincidimos, na admiração pelo escritor francês Michel Houellebecq, que é, sem dúvida nenhuma, “o romancista que melhor descreve as fobias e os medos contemporâneos” e retrata como muito poucos o caráter pós-moderno da nossa sociedade.

 

A terminar a entrevista falou das muitas coisas que mudou desde que chegou ao Eliseu. “Tudo”. Disse ele. O seu gabinete, por exemplo, que agora é totalmente diferente. Desfez-se de um tapete gigante e pesado e muita mobília. Tornou tudo mais leve e moderno e proporcionou mais espaço aos artistas contemporâneos.

 

Até nós, neste lado da Península Ibérica, ficámos embasbacados e, por que não dizê-lo desassombradamente, autenticamente estupefactos, com o ritmo e o alcance das transformações protagonizadas por Emmanuel Macron.

 

Bem haja, senhor Presidente, e, já agora, dê por nós um biscoito ao cão e faça-lhe uma festinha à maneira.

João Madureira