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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Quem conta um ponto...

22.01.18 | Fer.Ribeiro

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376 - Pérolas e diamantes: Lenine, o Ditador

 

Terça-feira, dia 23 de fevereiro de 1917 (pelo calendário juliano, utilizado na Rússia czarista), Dia Internacional da Mulher, data marcante para os socialistas de todos os matizes, milhares de russos reuniram-se junto às pontes e ao rio Neva, do lado de Vyborg, e outras zonas industriais e marcharam até à Perspetiva Nevsky exigindo pão.

 

São Petersburgo transformou-se então num autêntico barril de pólvora.

 

“Marchons! Marchons!”, ululava-se a plenos pulmões. Ouvia-se a Marselhesa cantada como deve ser, com ódio puro, como dizem os entendidos. Nas zonas fabris, as greves alastravam como uma praga. Os confrontos com a polícia tornaram-se inevitáveis.

 

No lado distinto da cidade, a vida continuava como se nada fosse. O Teatro Alexandrinsky, a algumas centenas de metros dos tumultos, teve nessa noite a sala cheia para assistir à comédia de Nikolai Gogol O inspetor do Governo, uma história sobre corrupção, incompetência e ilusão na época dos Nicolaus (I e II).

 

No fim de semana os transportes pararam, as lojas fecharam e os saques tornaram-se frequentes. Quando a polícia usou os sabres contra a multidão, as tropas cossacas e os regimentos da Guarda ficaram do lado dos manifestantes.

 

Quatro dias depois, ao cair da noite, o regime czarista tinha perdido o controlo da cidade, exceto o Palácio de Inverno e alguns edifícios governamentais.

 

Bert Hall, um aviador americano, adido da força área russa, escreveu no seu diário que a “revolução foi liderada pelo acaso, sem organização e sem líder”. A cidade estava “cheia de pessoas famintas que já tinham aguentado tudo e preferiam morrer a tolerar o czarismo por mais tempo”.

 

O czar abdicou a 2 de março. Parte do parlamento ocupou uma ala do Palácio de Inverno e transformou-se num governo provisório. A outra parte foi invadida pelos sovietes que tinham maior influência sobre o exército. A dualidade de mandos originou o inevitável duelo pelo poder. O país caiu na guerra civil.

 

Camponeses armados com forquilhas saquearam as casas abastadas e apropriaram-se de bens e de terras. As comissões de trabalhadores passaram a controlar a maior parte da indústria de defesa. No exército deixou de haver disciplina. Os desertores passaram a vaguear pela Rússia.

 

Entretanto, o líder do Governo provisório, Alexandre Kerensky, decidiu montar uma ofensiva contra os alemães que rapidamente se transformou num desastre de consequências catastróficas.

 

No meio da confusão e do desnorte, apareceu Lenine. E, para mal dos nossos pecados, nem sequer se importou de contradizer a tese de Marx de que seria impossível uma revolução num país como a Rússia rural e feudal.

 

Sabemos agora que durante três décadas, este revolucionário foi um falhado, passando a maior parte do tempo no exílio entre Munique, Londres, Paris e vários locais na Suíça (Berna, Genebra e Zurique), conspirando incessantemente e escrevendo sobre a revolução, mas deixando a prática revolucionária para os outros.

 

Lenine tinha tendência para nunca estar no sítio certo há hora certa. Estava fora da Rússia durante as revoltas de 1905, o mesmo lhe sucedeu quando a guerra rebentou em 1914, e ainda outra vez quando os revolucionários derrubaram o czarismo em fevereiro de 1917.

 

O jornalista e investigador Victor Sebestyen defende que esta sua vida de frustração teve reflexos na sua saúde física e mental. No seu livro, Lenine, o Ditador, descreve com acuidade a forma como este homem cruel, dominador e, muitas vezes viciado, dependeu de três mulheres: a mãe, Maria Ulyanova, a sua mulher, Krupskaya, e a amante francesa, Inès Armand.

 

Enquanto a Rússia ardia em fervor revolucionário, a Alemanha do kaiser, ansiosa por minar a máquina militar russa, veio em seu auxílio, e transportou-o até à sua terra natal num comboio selado.

 

Mas as coisas complicaram-se de tal maneira que, quando os protestos contra o Governo provisório subiram de tom, Lenine fugiu para a Finlândia, dando origem a amargas acusações de cobardia por parte dos seus apoiantes.

 

Três meses depois, regressou a Petrogrado pela calada, para intimar o Comité Central bolchevique à revolta armada contra Kerensky e o Governo provisório.

 

O que se passou a seguir, todos o sabemos: Lenine tomou o poder em nome dos operários e camponeses e lançou a Rússia numa sangrenta guerra civil de onde nasceria a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Como  Sebestyen refere, “nada desmente mais a ideia marxista de que são as forças sociais e económicas e não os indivíduos que fazem a história do que a revolução dirigida por Lenine”.

 

Todos conhecemos a devastação por ele provocada. A sua múmia encontra-se num mausoléu da Praça Vermelha, onde recebe a visita de milhares de pessoas todos os dias. 

 

 João Madureira