Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Quem conta um ponto...

05.02.18 | Fer.Ribeiro

avatar-1ponto

 

378 - Pérolas e diamantes: O sex appeal de Lucia Berlin

 

Também a mim me chegou o tempo de descobrir as histórias de Lucia Berlin, que dizem convulsas, mas que estão repletas de pequenos milagres e de algumas tragédias de vida, sempre servidas com humor, melancolia, empatia e vivacidade.

 

De facto, a escritora nascida no Alasca é uma verdadeira revelação, conseguindo ombrear com os melhores contistas, tais como Raymond Carver, Flannery O’Connor ou Juan Rulfo.

 

Durante a sua vida publicou setenta e seis contos, que são toda a sua obra.

 

No seu livro Manual para mulheres de limpeza aprendemos coisas tão elementares como o sex appeal, protagonizado por Bella Lynn, uma prima de seios grandes que parte à conquista de Hollywood.

 

Ao que parece, quando o avião chegou a uma certa altitude, por causa da pressão da cabine, o soutien da Bella rebentou. Ou melhor, explodiu.

 

Tal como a narradora, que por vezes podemos confundir com a escritora, eu nada sabia sobre sex appeal. No entanto, parece que o sexo, em si mesmo, tem qualquer coisa a ver com estar-se zangado. “Os gatos mostravam-se zangados com tudo aquilo, e todas as estrelas de cinema pareciam zangadas. Bette Davis e Barbara Stanwyck eram absolutamente maldosas.”

 

Um princípio básico do sex appeal, segundo a prima Bella Lynn, é agir sempre sozinha. Quando lhe chamaram a atenção para o facto das costuras das suas meias de seda pretas estarem ligeiramente tortas, ela ensinou a priminha que as tais costuras ligeiramente tortas tinham sex appeal.

 

Já o sex appeal dos homens reside no facto de olharem na direção das donzelas que cortejam fingindo que não olham. Por isso é que acabam sempre a pagar, nos bons restaurantes, o bife do lombo.  

 

Lá pelo meio do livro aparecem adolescentes malcriados que, apesar disso, choraram com a morte do Jimmi Hendrix e com a da Janis Joplin. Lembrando-nos que no Novo México, a década de 60 foi carregada de mau tempo, neve, canos congelados e atuações dos Rolling Stones e dos Doors.

 

Esses adolescentes ouviam música alto, queimavam incenso violeta que cheirava a xixi de gato, usavam botas pesadonas, tocavam guitarra e praticavam tiro ao alvo com latas de cerveja no quintal.

 

Além de malcriados, eram, quando lhes dava jeito, silenciosos como guerrilheiros e passavam muito do seu tempo deitados, a enregelar, no meio do nevoeiro.

 

Nessas alturas, “as aves partiam, em brancura, produzindo o som de cartas a serem baralhadas”.

 

Nessa época de sexo, drogas e rock and roll, as clínicas de desintoxicação, sobretudo em West Oakland, costumavam funcionar em armazéns.

 

Um típico personagem de um dos contos, de seu nome Willie, diz, para nosso pesar, “que tinha gostado da Europa porque lá os brancos são feios. Carlotta não compreendeu o que ele quis dizer, mas depois apercebeu-se de que as únicas pessoas que os bêbados solitários veem são as da televisão”.

 

Os traços melancólicos são muitos e variados. Alguns revelam-se no momento do Sol se pôr enquanto os hóspedes de um hotel solitário comem o seu pudim e um diz, com os pelos em pé: “Quando os nossos pais morrem, ficamos frente a frente com a nossa própria morte.”

 

São personagens capazes de retirarem espinhas a trutas e de incendiarem sobremesas. Ou golfistas que têm pesadelos quando veem a sua bola a afastar-se do buraco. Ou ainda jovens cadetes que, enquanto a orquestra toca La Vie en Rose, dançam sem parar, às voltas e voltas, no chão encerado.

 

Claro está que neste “Manual” se exagera muito, se mistura a realidade com a ficção, mas, sinceramente, nunca se mente.

 

“Na verdade, podes mentir e, ainda assim, dizer a verdade.” Todos os contos de Lucia Berlin são “pirilampos numa árvore que acendem e apagam como um só”.

 

Querida Lucia, termino citando uma das tuas personagens: “Estou Feliz. Quando acordo, de manhã, dói-me a cara de tanto rir.”

 

João Madureira