Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

16
Abr18

Quem conta um ponto...

avatar-1ponto

 

388 - Pérolas e diamantes: A culpa e o medo

 

 

Ainda não sei se foi bom ou mau, ou ambas as coisas em conjunto, mas estarmos várias décadas na dependência de Espanha afetou-nos a autoestima.

 

Perdemos a independência para Espanha e, mais tarde, transformámo-nos numa espécie de protetorado inglês. Como diz Mário Cláudio, depois transfiguramo-nos num “território sangrado pela emigração”.

 

“Portugal tem sido um país em permanente despedida. Tivemos sempre relações complexas num império em que nos revemos sempre muito mal. As colónias de África foram votadas ao abandono durante séculos. Depois fizemos uma guerra, que foi a última guerra colonial, para não as perdermos.”

 

Mesmo sendo um país pequeno, ainda hoje não sabemos muito bem quem somos. O Norte aponta para a Europa. Já o Sul, que é cada vez mais mediterrâneo, aponta claramente para o Norte de África.

 

Somos uma encruzilhada de muitos valores, uma mistura grossa entre a forte tradição judaico-cristã e o caráter celta que nos transforma em irmãos mais próximos dos galegos do que dos alentejanos. E isso provoca problemas e cisões.

 

É evidente a existência de duas regiões distintas, uma a norte do Mondego e outra a sul. Concordo com o escritor nortenho quando diz que há “uma vocação autonomista, pelo menos em termos sentimentais, muito maior a norte do que a sul”.

 

De facto, ainda pouco mudou desde os tempos de António Nobre, que definia Lisboa como a secretaria do país. Ainda continuamos a ir lá baixo para resolver os problemas. Nós queixamo-nos. Já os alentejanos e algarvios são muito mais apáticos. Ou tolerantes, se preferirem.

 

A tensão mais evidente existe na área desportiva, mas também é evidente na área cultural. O Norte e o Sul lutam diariamente pelo protagonismo.

 

Diz-se, e com alguma razão, que a qualidade de vida a norte é superior à de Lisboa, pois, para o bem e para o mal, a capital “é uma declinação da América Latina e do terceiro mundo”. 

 

No entanto, a expressão “Portugal é Lisboa e o resto é paisagem”, já não traduz a verdade. Ou talvez nunca a ela tenha correspondido. A concentração de riqueza, por exemplo, é muito maior a norte do que a sul. Os detentores do capital estiveram quase sempre mais a norte. Basta lembrar os Belmiros, os Amorins e respetivas famílias.

 

Ainda não estamos preparados para a independência, ou talvez nunca o estaremos, mas uma regionalização profunda e coerente pode ser a tal alternativa interessante.

 

Temos de lembrar o que aconteceu no século XIX para compreendermos o desenvolvimento do Norte. Foi no Norte onde emergiram as grandes ideias: o liberalismo, a revolução liberal e depois o romantismo. Até o Eça de Queiroz nasceu no Norte. O Camilo Castelo Branco, apesar de ter nascido em Lisboa, viveu quase toda a sua vida no Norte. O Antero de Quental, o António Nobre e até o Oliveira Martins, estiveram sobretudo ligados ao Norte.

 

Mas também todos sabemos que “os corredores de São Bento”, costumam representar um risco de desregionalização, pois quando as pessoas vão para lá com a intenção de defender os interesses da nossa região, passado pouco tempo, costumam perder o norte. São trucidadas pelos jogos do poder.

 

Em Lisboa abundam os rapazes e as raparigas que, apesar da sua avó andar de luto perpétuo ou o seu avô se encostar ao cabo da enxada, regar a horta, ou falar da seca ou da molha, não conhecem uma oliveira, um castanheiro ou um carvalho. Perderem as suas raízes culturais. São versados apenas em centros comerciais.

 

Portugal continua tendencialmente conservador. Sei que há por aí sinais de tolerância em relação à diferença. Eu penso que é mais indiferença. Por exemplo, estou em crer que a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo, não aconteceu em Portugal por causa da adesão da população, mas sim porque essa mesma população se está verdadeiramente nas tintas.

 

Há no nosso país um verdadeiro défice cultural. As pessoas preferem não pensar nas coisas. Utilizam o sistema do deixa andar. São capazes de se sentar à mesma mesa, festejar, ser amigos, mas depois fartam-se de cortar na casaca do que está fora.

 

Todos sabemos que a grande percentagem das pessoas que votam o fazem por questões de ordem afetiva ou por puro clubismo e não porque apoiam as ideias do partido a, b ou c. Mas também temos de reconhecer que os nossos políticos fazem todos os possíveis para que as ideias que transmitem sejam tudo menos claras. Ou então fazem promessas quase sempre absurdas ou impossíveis de cumprir. Quando estas estratégias falham socorrem-se então de uma linguagem que ninguém consegue entender.

 

Continua-se a viver, como especifica Mário Cláudio, entre a culpa e o medo, que são, como todos sabemos, dois dos sentimentos mais destrutivos do nosso quotidiano.

 

João Madureita

 

Sobre mim

foto do autor

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

Olhares de sempre

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    • Amiel Bragança

      Foi um final conciso do consiso.Abraço, AB

    • JM Naturopatia

      Fantástico trabalho de recolha e divulgação de um ...

    • Anónimo

      gostaria muito de um dia poder conhecer. meu pai v...

    • Anónimo

      Não me admiraria se esta fotografia fosse «roubada...

    • Anónimo

      Sou alfacinha de gema, mas gosto de vos ler; olham...