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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

03
Dez18

Quem conta um ponto...

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420 - Pérolas e Diamantes: A indignação necessária

 

Por incrível que pareça, houve  judeus que sobreviveram à Segunda Guerra Mundial por causa do confirmado “paradoxo de Auschwitz”, segundo o qual os judeus que tivessem cometido um crime eram poupados às câmaras de gás. Fiquei a sabê-lo depois de ler o livro de Hanna Arendt, “Eichmann em Jerusalém – uma reportagem sobre a banalidade do mal”.

 

Lembro-me bem da minha avó me contar histórias verdadeiras sobre a guerra civil espanhola que contaminaram, de forma traumática, as populações da fronteira. Eram relatos difíceis de narrar. Ela tentava transmitir-me traços de um universo transfigurado. Acho que foi daí que surgiu o apelo de escrever poesia necessariamente pura, tentando recuperar a sua  alma, a sua candura e uma inocência de coração que só os justos possuem.

 

Ninguém, até hoje, conseguiu igualar a sua radiosa sinceridade.

 

Como disse o médico do exército alemão Peter Bamm, um dos raros memorialistas da Segunda Guerra Mundial, “um dos requintes dos governos totalitários do nosso século consiste em não permitir aos seus adversários que morram como mártires gloriosos em nome das suas convicções”.

 

Em todo o crime tem de haver castigo, pois, como dizia Grócio, ele é necessário “para defender a honra e a autoridade daquele que foi lesado pelo crime, a fim de que a ausência de castigo não cause a sua degradação”.

 

Uma coisa sabemos de ciência certa: a essência do totalitarismo, como a da burocracia, consiste em transformar os homens em funcionários, em singelas peças de máquina administrativa, ou seja, desumanizá-los.

 

Agora existe a tendência, supostamente baseada na psicologia e na biologia, de se atribuir um ato, não ao seu autor, mas aos mais diversos tipos de determinismo.

 

Também há literatos que defendem que a tentação e a coação são uma e a mesmo coisa, ou seja, de que não pode pedir-se a ninguém que resista à tentação. Ora esse argumento, além de falso e falacioso, dá muito jeito para defender comportamentos incorretos, quando não agressivos, em relação ao outro.

 

Parece existir uma espécie de tabu social que redobra quando se trata de criticar as palavras ou os atos de pessoas famosas ou que ocupam cargos de relevo. Costuma argumentar-se nestas ocasiões, com ar superior, que seria “superficial” insistir nos pormenores, ou mencionar nomes. E depois passam às generalizações, dando-se ares de gente sofisticada. Ou seja, que todos temos cor de burro quando foge e que todos, bem vistas as coisas, somos igualmente responsáveis, ou, no limite, que todos agiríamos da mesma maneira.

 

É normal negar os factos verificáveis e as responsabilidades individuais baseados em inumeráveis teorias fundadas em presunções genéricas, abstratas e hipotéticas. Por vezes até invocam o complexo de Édipo que, supostamente, todos transportamos. Tais teorias são tão abrangentes que explicam, e justificam, qualquer tipo de ato ou acontecimento. Quem assim argumenta parte do princípio de que não existem sequer outras alternativas e que, por isso, teria sido impossível agir de outra maneira.

 

Para o bem e para o mal, as responsabilidades morais individuais existem.

 

A ideia de que toda a culpa é coletiva e toda a inocência é individual está errada. Desta forma nenhum indivíduo pode ser considerado culpado ou inocente. É apenas vítima das circunstâncias.

 

Sob o ponto de vista moral, é quase tão mau sentirmo-nos culpados sem ter feito nada, como sentirmo-nos inocentes quando somos efetivamente culpados de alguma coisa.

 

É a velha luta entre ser e não ter e entre ter e não ser.

 

Existe sempre uma réstia de verdade nestas generalidades. De facto, é muito difícil resistir à ilusão das ideologias da moda. Existem os que querem compreender tudo com o intuito de perdoar tudo.

 

O esforço de objetividade deve dar lugar à indignação necessária.

 

De facto, a radicalidade do antissemitismo, que se exprimiu a partir de 1942 através da “solução final”, não foi objeto de desconfiança imediata. Ninguém conseguia acreditar no inacreditável. Dizem que foi a primeira vez que Deus morreu.

 

O comunismo, após 1945, que todos confundiam com a União Soviética e ainda mais com o Exército Vermelho, impôs aos países por onde passava um regime tão despótico quanto o dos nazis. Os mesmos campo de concentração recebiam outros “criminosos”, quando não os mesmos, pois os democratas e os liberais sofriam a mesma sina com Estaline e com Hitler.

 

Com estas atrocidades, Deus voltou a ressuscitar.

 

Como escreveu Raymond Aron a propósito das guerras: “A História nem sempre dá razão à inteligência de raciocínio. As fés coletivas, pelo menos no século XX, são, na sua maioria, grosseiras”.

 

João Madureira

 

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