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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

28
Jan19

Quem conta um ponto...

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427 - Pérolas e Diamantes: Da estupidez

 

Musil dedicou algum do seu tempo a refletir sobre a estupidez. Escreveu até um breve tratado: “Da Estupidez (Uber die Dummheit).”

 

Considerava que – para não cair nas armadilhas que a idiotia apresenta contra a presumida inteligência – a modéstia é a melhor arma contra a estupidez. Explicava ele que cada inteligência tem uma estupidez que lhe corresponde.

 

Em “O Homem sem Qualidades” fala-nos da dialética entre a estupidez e a inteligência: “Se de dentro a estupidez não se assemelhasse tanto à inteligência, se de fora não pudesse passar por progresso, génio, esperança, aperfeiçoamento, ninguém quereria ser estúpido e a estupidez não existiria. Ou, pelo menos, seria muito fácil combatê-la.”

 

O que é certo é que o próprio Musil se absteve de responder com uma definição à pergunta que ele formalizou inicialmente: “O que é ao certo a estupidez?”

 

Todos sabemos que entrar em guerra aberta contra a estupidez é quase sempre inútil e, muitas vezes, um pouco estúpido.

 

Flaubert avisou-nos que a estupidez é inabalável, pois nada a ataca sem se despedaçar contra ela.

 

A estupidez atual não é isolável. Está disseminada por todo o lado, nomeadamente nas regras do jogo social e político e mesmo no fluxo cultural.

 

Mas é na política que a estupidez atinge o máximo esplendor. Ela é a própria lei do seu discurso. Ser inteligente no palco da ação e do debate político equivale a dizer que se aceitam as regras da estupidez, nomeadamente o pragmatismo sem ideias, a política sem substrato ideológico, a ação sempre legitimada pelo mesmo discurso, a tática que coincide sempre com a estratégia.

 

Musil distinguiu dois tipos de estupidez: a estupidez como ausência de inteligência e a estupidez como renúncia da inteligência. Foi esta última, por ser mais perigosa, que deu origem à Segunda Guerra Mundial, que lhe estragou a vida.

 

Há um filme que retrata bem aquilo de que estou a falar: “Bem-vindo Mr. Chance”.

 

O jardineiro Chance (Peter Sellers) faz papel de estúpido. É viciado em televisão e por causa dela exprime-se com longos e embaraçosos silêncios, ou então com os artifícios próprios da linguagem televisiva, quase sempre fora do contexto e de uma elementaridade desarmante.

 

A este tipo de estupidez outra se lhe vai opor, para a complementar, uma espécie de estupidez inteligente dos ilustrados.

 

São estes que atribuem qualidades superlativas a Mr. Chance (tais como a agudeza, a profundidade e a sapiência) e o propõem para presidente dos EUA.

 

No ano da sua estreia, o filme de Hal Ashby pôde ser visto e interpretado como uma alegoria. No tempo atual, tutelado pelo capitalismo afetivo, adquiriu contornos de profecia.

 

Logo de início avisei que se deve situar a estupidez para além da oposição à inteligência.

 

Como todos sabemos, nunca antes existiu uma época tão prolixa na produção de inteligência como a nossa. O problema é que também estamos profundamente dependentes dela.

 

Neste fenómeno de inversão induzida, nunca a estupidez foi tão encorajadora e vista como uma ameaça.

 

De facto, a mais inteligente das invenções do nosso tempo, a inteligência em estado puro,  conhecida como Internet, está sob suspeita de nos tornar estúpidos.

 

Diante de tantos dados, a inteligência humana, em vez de aumentar, retrocedeu.

 

A estupidez faz-nos até pensar que é melhor escutar atentamente os que pensam da mesma forma que nós, ou os que têm autoridade.

 

Convém perceber que os algoritmos nos fornecem apenas aquilo que quem os concebeu neles quis inscrever.

 

Chegou-se ao paradoxo de despender mais tempo e dinheiro no controlo das despesas e das atividades produtivas, do que na realização das próprias atividades.

 

Uma pergunta se impõe: Se regressar à ignorância é uma estupidez, poderá uma quantidade ainda maior de informação fornecer a solução?

 

Yves Michaud responde: “Deste ponto de vista, a obsessão contemporânea com a informação, a quantificação, a medida e a avaliação, é perfeitamente compatível com aquilo que lhe escapa, a saber, o dinheiro sujo ou branqueado, as fraudes, os tráficos criminais, a prostituição, as ações de psicopatas e os tráficos de influência.”

 

Ou nos pomos a pau ou toda esta inteligência vai acabar por nos tornar estúpidos.

 

João Madureira

 

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