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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

11
Fev19

Quem conta um ponto...

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429 - Pérolas e Diamantes: Os de cá e os de lá

 

Há pessoas que depois de passarem pela vida parecem carvalhos feridos. São aqueles que teimaram em resistir, que insistiram em se sacrificar na defesa do bem público como o faziam os homens de Atenas em nome do ideal de humanidade.

 

Passamos a vida a fazer truncagens discretas, a pôr efeitos especiais nas nossas existências, a montar novamente o filme das nossas vidas. Mas mudar os enquadramentos não altera a história do filme. Uns ficam-se pela realidade trivial. A outros basta-lhes o genérico.

 

Alguns dizem que há dores deliciosas. Esses são os adeptos das grandes peregrinações. Dizem que não lhes interessa o lugar de destino mas o prazer de caminhar. São os que nunca chegam a lado nenhum. Há gente para tudo.

 

Maomé disse que denunciar uma maledicência sobre um amigo a esse amigo é dizer mal dele. Os de cá pensam o contrário. Alá é grande, Deus é misericordioso. Todas as religiões são um jogo de espelhos. Refletem a nossa imagem, mas sempre ao contrário.

 

Está na moda integrar tudo e todos. Curiosamente, cada vez me sinto mais desintegrado. A maior integração é a da idiotice. Dizem que a integração muda tudo. É mentira, não muda nada. Muda é as pessoas de lugar, para se sentirem bem em todo o lado. Quem é de todo o lado, não é de lado nenhum. E esse é o pior sentimento do mundo.

 

Desgraçados dos desenraizados. Desgraçados dos transfronteiriços. Quem não tem chão que possa chamar seu não pode viver descansado, nem pode morrer em paz. Isso dizia a minha avó que sabia sempre o que dizia. E a quem o dizia.

 

A esquerda caviar e todos os burgueses enfatuados gostam de se refugiar no luxo absoluto do despojamento de Marraquexe. Aí é que reside a verdadeira integração. Uns dias de repouso em trabalho e tudo fica resolvido nas suas consciências. No parlamento europeu lá se aprovarão umas leis para os cidadãos cá do continente tomarem consciências dos hologramas que elegeram para os representarem.

 

Os beurs que matem, que se matem, ou que se deixem matar.

 

Os negros são bonitos é na televisão. A andarem de um lado para o outro, sempre no mesmo enredo filmados por brancos que se deliciam em mostrar ao mundo a sua desgraça. Eles ficam tão bem na televisão, sempre tão desamparados, tão desgraçados, tão carentes. Que linda pode ser a desgraça alheia. Que lindos filmes faz, que lindas fotografias dá, que belos telejornais abre. E origina romances inebriantes. E poemas vibratórios. E ensaios pungentes. Há investigações interessantíssimas sobre a desgraça alheia dos beurs.

 

Existe uma certa exasperação no mundo ocidental pelo singelo motivo de os seus líderes serem incapazes de provar que têm razão. Daí o procurarem em vão uma arbitragem. Na ONU é tudo boa gente. Todos bons rapazes. E raparigas. Mas atualmente, onde se encontram opiniões sinceras? Além disso, já ninguém leva a sério as organizações dos enfatuados bem pensantes. As Nações Unidas tornaram-se irrelevantes e inoperantes, por isso têm à sua frente um português que fugiu do pântano português para se ir enterrar nas areias movediças da ONU.

 

Mas os turistas europeus alternativos, os tais que acreditam na ONU, nas ONG’s e na “Alice no País das Maravilhas” desunham-se para irem até ao Magrebe (leia-se Marraquexe, praça de Jemna el-Fna) munidos de trouxa leve, óculos de sol ray-ban de lentes polarizadas anti-UV, calções tipo jogadores de golfe ou calças de algodão ventilado, polos da Lacoste, chinelas de meter no dedo, ou ténis sem atilhos, bolsa de toilette com produtos para o cuidado da pele, leite hidratante après-soleil, creme antirrugas, esfoliante e, sobretudo, o seu complemento intelectual: Rimbaud em formato de bolso. E ali ficam a deliciar-se com a pobreza dos berberes enquanto bebem deliciosos sumos e degustam iguarias próprias dos príncipes da Renascença. Vale-lhes serem União Europeia, espaço Schengen.

 

Como dizem os muçulmanos, esses furadores de fronteiras, sejam elas de que tipo forem, o mundo é um passador de couscous.

 

Como dizia a minha avó: pobre de quem é pobre.

 

Os do lado de lá esperam pacientemente pela recompensa do medo.

 

João Madureira

 

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