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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

24
Jun19

Quem conta um ponto...

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448 - Pérolas e Diamantes: Prosélitos e terapias

 

 

Quando tinha vinte e poucos anos, Leonardo da Vinci foi acusado de “cometer sodomia na pessoa de Jacopo Saltarelli”. Nessa altura, a homossexualidade pagava-se com o fogo.

 

Foi absolvido por falta de provas e, para bem da Humanidade, regressou à sua vida.

 

Pintou obras-primas que inauguraram o esfumado e o claro-escuro na história da arte. Escreveu contos, lendas e receitas de cozinha. Desenhou perfeitamente, e pela primeira vez, os órgãos humanos, estudando a anatomia nos cadáveres. Confirmou que a Terra girava.

 

E, para que se saiba, inventou o helicóptero, o avião, a bicicleta, o submarino, o para-quedas, a metralhadora, a granada, o morteiro, o tanque, a grua móvel, a escavadora flutuante, a máquina de fazer esparguete e o ralador de pão.

 

Aos domingos, com o dinheiro que ganhava, comprava pássaros no mercado e abria-lhes as gaiolas.

 

Há pessoas que se revelam naturalmente educadas, mesmo quando abordam assuntos escabrosos. Como existem outras que são grosseiras até quando dão os bons-dias. No fundo, o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita.

 

Dizem que Leonardo nunca abraçou uma mulher. Mas todos sabemos que pintou o retrato mais famoso de todos os tempos: A Gioconda.

 

A arte nasce sempre de uma forma de solidão fecunda.

 

Agora a arte é outra. Uma ideologia tão diversa que apenas é única numa coisa: a idiotice.

 

Como diz António Vitorino de Almeida: Há que temer bastante mais certos encómios do que a própria boçalidade dos atolambados que enveredam pelo insulto soez e pela consequente recusa das “intrínsecas qualidades”.

 

Dizem que o compositor Mahler, um judeu que se fez batizar já homem feito, quando um dia recebeu a visita do maestro e seu assistente Bruno Walter, no seu retiro de férias – que na realidade era o seu laboratório artístico –, verificando que ele se colocara na varanda a contemplar a paisagem, levou-o para dentro de casa argumentando que escusava de olhar, porque tudo o que dali via estava na sua Sinfonia.

 

Em parte das suas nove sinfonias – obras monumentais com introdução frequente da voz, quer a solo, quer em coro –, utilizou instrumentos que não eram nada habituais na orquestra sinfónica, tais como xilofone, harmónio, guitarra, badalos de vacas e até um martelo para bater no estrado de madeira dos percussionistas.

 

O problema maior, como esclareceu Gilles Deleuze, é quando somos apanhados no sonho dos outros, pois não há nada a fazer, já que não nos podemos safar acordando.

 

A religião é uma crença supersticiosa e as terapias alternativas são como drogas. Os profetas da new age não se cansam de nos falar dos benefícios da homeopatia, do reiki, da medicina quântica, do comunismo temperado, da cinesiologia, da magnoterapia, do nacionalismo internacionalista, da sanação holística, do bom fascismo, da bio-energia, da fé redescoberta, dos adivinhos, dos curandeiros de todos os géneros e da terapia sexual alternativa.

 

O dito homem pós-moderno é barro em estado puro pois pode-se modelar à nossa vontade. É pau mandado, um convencido que anseia brilhar, despido de caráter e de iniciativa. Ou seja, faz o que lhe mandam e costuma dizer que a mais não é obrigado. Confunde habitualmente classe dominante com classe dirigente.

 

Alguns deles ainda se entusiasmam com a aventura dos bolcheviques. Gostam de ver filmes antigos.

 

Como escreveu Raymond Aron, a verdade é que a pretexto de substituir o governo dos homens pela administração das coisas, o socialismo real administrou os homens, incluindo o seu pensamento.

 

Uma coisa ficou provado com a impulsão do comunismo: os homens manipulam pela técnica as forças naturais, mas não as forças sociais. Os planificadores sociais do Leste revelaram-se impotentes.

 

Estamos a assistir ao fim das grandes ideologias e ao renascimento das ideias.

 

Claro que continua a haver razões para não estarmos satisfeitos com esta realidade imperfeita. Era o que mais faltava! Claro que podemos, e devemos, criticar as injustiças de certas instituições e a mediocridade da maioria das vidas. Mas uma coisa é certa: os prosélitos  dos amanhãs que cantam são incapazes de opor à sociedade existente a imagem de uma sociedade radicalmente diferente.

 

João Madureira

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